Clarice atendeu:
— Oi, Erasmo. Por que você ainda não foi dormir?
— Como eu poderia dormir sem saber se você chegou bem? Está tudo certo por aí?
A voz de Erasmo era profundamente grave e, no silêncio daquela noite escura, uma sensação inebriante viajou pelo telefone e alcançou o coração dela.
Clarice tocou o próprio peito e respondeu com um tom suave:
— Sim, tudo ótimo. Consegui recuperar o meu quarto. Não sou incrível?
Com os olhos ainda fechados, ela se ajeitou na cadeira, pressionando o celular ainda mais contra o ouvido.
Do outro lado da linha, uma risada baixa e magnética soou de forma agradável, como as águas de um riacho fluindo através do coração.
— A minha Clarice é a melhor de todas. Você está do lado de fora?
Clarice brincou:
— Como você sabe? Por acaso o onipotente Erasmo tem uma bola de cristal?
Erasmo respondeu:
— Consegui ouvir o barulho do vento.
Desta vez, foi Clarice quem soltou uma risadinha baixa.
— Erasmo, você não tem uma bola de cristal, tem uma superaudição.
Ao ouvir o riso leve e descontraído de Clarice, a preocupação que afligia Erasmo do outro lado da linha finalmente desapareceu.
Erasmo perguntou:
— Você está livre amanhã?
Clarice indagou:
— Algum problema?
Erasmo confirmou:
— Sim. Quero que me acompanhe para escolher as alianças de casamento.
Clarice paralisou. Alianças de casamento? É verdade, ela quase havia se esquecido de que, com aquele retorno, os planos de casamento de Erasmo estariam em pauta.
Erasmo chamou:
— Clarice, você está me ouvindo?
Clarice voltou a si.
— Estou, mas... não seria a Kátia quem deveria escolher as alianças com você? Não acho apropriado que eu vá!
Erasmo explicou:
— Ela ainda está na Cidade H e não consegue vir. Foi ela mesma quem pediu para você escolher em seu lugar.
Clarice questionou:
— Por que tão de repente? O Ezequiel não queria que você se casasse com a Vânia? Você não vai mais lutar contra isso?
Erasmo riu levemente.
— Isso vai depender se ele consegue passar pela aprovação da vovó. Ela me ligou dizendo que tem uma consulta médica de retorno amanhã e me pediu para aproveitar a ocasião para escolher as alianças. Além disso, está me pressionando para me casar no civil com a Kátia o mais rápido possível.
Casar no civil?
Uma dor incômoda e abafada surgiu em seu peito. Clarice franziu a testa e massageou a região do coração. O que estava acontecendo?
Por que ela estava sentindo aquela sensação de asfixia?
Clarice mergulhou em silêncio mais uma vez, e Erasmo a chamou suavemente:
— Clarice, o que houve?
Clarice ergueu o rosto, observou as estrelas no céu noturno e murmurou baixinho:
— Erasmo, não consigo dormir. Canta uma música pra mim? Como você fazia pra eu dormir quando a gente era criança.
A própria Clarice não conseguia explicar o motivo de uma melancolia tão repentina.
Houve um momento de silêncio do outro lado. Com os olhos fechados, Clarice passou a ouvir, pelo telefone, uma melodia pura e reconfortante.
Era como a água cristalina de uma nascente, como o sol aquecendo uma manhã de inverno; um som terno, apaixonante, etéreo e distante.
Não se sabe quanto tempo se passou até que Clarice adormecesse profundamente.
Erasmo, que também estava na varanda de sua casa, cessou o canto e a chamou bem baixinho:
— Clarice.
Não houve resposta, apenas o som de uma respiração compassada ecoando através do telefone.
Um belo sorriso formou-se nos lábios de Erasmo, e ele fixou o olhar na lua suspensa no horizonte.

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