"Lorena"
Eu estiquei o braço, tateando o lençol macio de muitos fios que eu ainda não tinha terminado de pagar e encontrei apenas o vazio. O lado esquerdo da cama estava frio, o apartamento silencioso e eu achei estranho o meu noivo não estar ali ao meu lado, ele não costumava acordar antes de mim.
- Cadu? - Eu chamei com a voz ainda sonolenta, mas não ouvi nenhuma resposta.
Eu me levantei, dei uma olhada no banheiro da suíte e estava vazio, então eu vesti o robe que estava aos pés da cama e saí do quarto. Ao chegar a cozinha e encontrar a Dalva passando o café eu já sabia que o Cadu não estava em casa.
- Bom dia, Dalvinha. Você viu o Cadu hoje?
- Bom dia, Lorena. Eu não o vi, mas o carro dele está na garagem. Posso servir o seu café?
- Que estranho... pode servir, Dalvinha. - Eu respondi e nesse exato momento a campainha tocou. - Deixa que eu abro, Dalvinha, deve ser o Cadu, com certeza deu uma saída rápida e esqueceu as chaves.
Eu fui em direção à porta e enquanto atravessava a sala a campainha tocou mais duas vezes, dois toques insistentes. Eu me apressei a abrir a porta de uma vez, com um sorriso e pronta para dar um beijo de bom dia no meu noivo, mas não era ele. Do outro lado um homem de meia idade usando um terno cinza e uma expressão cansada segurava uma pasta de couro.
- Lorena Valente? - A voz dele parecia quase acusadora e eu tive um sobressalto, naquele momento uma sensação ruim atravessou o meu peito.
- Sim? - Eu o encarava com certa curiosidade, tanto por ele chegar ao apartamento sem ser anunciado, quanto por ele saber o meu nome completo.
- Sou oficial de justiça. Tenho aqui uma ordem de despejo imediato para este imóvel, além de uma notificação de penhora de bens como garantia de dívidas contraídas pela senhora e pela sua empresa...
- Dívidas? - Eu estava completamente atordoada.
- Sim, dívidas. A senhora tem um total de mais de dois milhões e meio em dívidas, está tudo detalhado aqui. As prestações deste apartamento já não são pagas há quase um ano, bem como vários credores. - O homem a minha frente explicou de forma geral e eu senti como se me faltasse o ar.
- Quase um ano? - Eu cambaleei para trás, era como se o chão tivesse sumido sob meus pés e as paredes estivessem desabando sobre mim. - Isso é um erro. Meu noivo e sócio... o Carlos Eduardo, ele cuida das finanças, ele faz as transferências, paga as contas...
- Senhora, me desculpe, mas o documento aqui é claro. A senhora não possui sócios e as dívidas se acumulam há muito tempo.
- Lorena... respira fundo. - A voz da Dalva era um sussurro, chegando a mim como alguma demonstração de solidariedade.
Eu olhei para ela, a única pessoa que havia sobrado no meu mundo, mas que também iria embora, afinal, como eu, endividada, iria pagá-la? As lágrimas finalmente transbordaram, quentes e grossas, como uma represa se rompendo violentamente. Eu estava sem casa, sem noivo, sem amiga, sem empresa e com o nome enterrado em dívidas que eu não tinha ideia de como pagaria.
- Eu perdi tudo, Dalva! Tudo! - Eu solucei e caí de joelhos ali, diante da Dalva e daquele oficial de justiça que eu nem sabia o nome, mas estava ali impassível assistindo a minha ruína.
A Dalva se abaixou e me abraçou, trazendo o conforto que podia, mas que não era suficiente para a dor que eu sentia naquele momento.
- É agora que você não pode se abater, menina! Você precisa se acalmar e se levantar, a gente precisa arrumar as suas coisas. Eu já vi como as pessoas são despejadas, se você não sair eles mandam a polícia e você é jogada na rua como um saco de lixo. - A Dalva me informou e eu a encarei assustada.
- Olha, senhora, eu vejo que tudo isso é inesperado para a senhora. Meu conselho é que a senhora siga a orientação dela, porque eu preciso garantir que a senhora saia em até duas horas ou eu tenho mesmo que chamar a polícia. Eu também estou aqui para garantir que a senhora não retire nenhum objeto de valor e para apreender o seu celular. Mas o melhor que eu posso fazer pela senhora e recomendar que procure um advogado e um lugar para ficar.
O oficial de justiça pela primeira vez pareceu um pouco mais humano, mas isso não minimizava a dor que eu estava sentindo naquele momento, contudo ele tinha razão, eu precisava de um advogado e um lugar para ficar.

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