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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 2

"Lorena"

Eu assinei os papéis que o oficial de justica me entregou sem nem mesmo me dar conta do que eram. Depois eu voltei para o quarto e entrei no closet, o oficial de justica parecia uma sombra de mau agouro atrás de mim. Mas foi só então que eu percebi a ausência de roupas. Varias roupas do Carlos Eduardo não estavam ali, os ternos e camisas caras, os relogios, os sapatos italianos que ele amava e custavam uma fortuna. Tudo havia desaparecido.

- Senhora, há algum cofre ou lugar onde a senhora guarde jóias ou itens caros? – A pergunta do oficial me atingiu em cheio e eu me virei de imadiato para o armario onde ficava o cofre.

Eu afastei algumas poucas roupas que ainda estavam penduradas ali e abri o cofre depressa. Não havia nada ali além dos meus documentos pessoais. As poucas jóias que eu tinha, algum dinheiro que guardavamos ali, os documentos do Carlos Eduardo, tudo havia sumido. Ou melhor, ele havia levado tudo. Eu me afastei e deixei que o próprio oficial verificasse.

- Eu posso tomar um banho? – Eu me dirigi ao oficial, já sem forças para perguntar ou descobrir qualquer outra coisa.

- Ah, claro! Eu vou esperar a senhora na sala. Por favor, o tempo esta passando, eu preciso cumprir o meu trabalho. – O homem me encarou e parecia até um pouco solidário, mas girou nos calcanhares e saiu do quarto.

- O que você vai fazer, Lorena? – A Dalva me encarou com visível preocupação.

- Vou tomar um banho, Dalva, fazer a minha mala e vou para a casa de algum conhecido, tenho certeza que um deles vai me receber. - Eu dei as costas para ir para o banheiro, mas me virei de volta. - Dalva, eu lamento, mas você já sabe, você ficou desempregada. Eu vou pedir para o contador calcular quanto eu te devo…

- Lorena, você não me deve nada. Não se preocupe. Eu vou fazer as suas malas enquanto você toma banho, tá bom? - O gesto desprendido da Dalva foi inusitado para mim, mas eu aceitei, até descobrir exatamente o quanto eu estava atolada em dívidas eu não poderia recusar a boa vontade de ninguém.

Ao sair do banheiro eu encontrei um conjunto alinhado de calca e blusa sobre a cama e o sapato ao lado. A Dalva estava fechando a última mala, três no total, era tudo o que tinha me restado de uma vida inteira. Enquanto eu me trocava a Dalva levava as malas para a sala.

- Suponho que eu não possa levar o meu carro? - Eu perguntei ao oficial que estava tomando uma xícara de café.

- Lamento, senhora, mas não pode mesmo.

Eu fiz que sim com a cabeça e senti a mão da Dalva me tocar.

- Lorena, vem comer alguma coisa antes de ir. – Ela sugeriu, mas havia um bolo em minha garganta e meu estomago estava revirado, não era possível comer nada.

- Você é um crápula, Osório.

- Ah, eu também nunca te suportei. - Ele deu uma risadinha cinica. - Ah, só mais uma coisa, se está pensando em pedir ajuda para algum dos amigos do Cadu, esquece, nenhum de nós vai fazer nada por você. Tchau, Lorena!

Ele encerrou a chamada e eu fiquei olhando para o telefone, como se alguma solução mágica fosse sair dele. Mas não, a única coisa que poderia sair dele era alguém aceitando me dar abrigo, então eu comecei a ligar. Um a um eu liguei para todos os meus contatos e um a um me disse "infelizmente não posso", "lamento, querida, mas não tenho como te receber" ou um simples "não vai ser possível", mas tudo se resumia a um sonoro não. Apenas uma pessoa não me atendeu e ela eu tinha certeza que não me negaria abrigo.

- Senhora, está na hora. – O oficial se pôs de pé e estendeu a mão para que eu entregasse o celular.

- É o senhor quem manda. - Eu respirei fundo e entreguei o celular. - Dalva, obrigada por tudo, eu… um dia… - As lágrimas chegaram aos meus olhos.

- Lorena, não desanime. Aqui, anotei para você o meu telefone e o meu endereço, se eu puder fazer qualquer coisa por você, me procure. - A Dalva colocou o pedaço de papel na minha mão. - Agora vamos, eu vou te ajudar com as malas. Eu também já peguei as minhas coisas.

Eu dei uma última olhada no lugar onde eu pensei que viveria os melhores momentos da minha vida, mas que agora não eram nada além de uma lembrança amarga e saí pela porta. Quando nós chegamos à rua, a Dalva parou um táxi para mim, felizmente o dinheiro que eu tinha na bolsa o oficial não quis confiscar, não era muito, duzentos reais apenas, mas daria para o taxi. Além do mais, eu ainda tinha a minha conta pessoal e um cartão de credito, então eu me viraria com isso ate me organizar. Eu me despedi da Dalva e entrei no táxi, passando o endereço para o taxista.

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