"Érick"
Eu olhei para a Lorena, procurando as palavras certas. O silêncio no escritório era tão pesado que eu podia ouvir a respiração ritmada dos meus dois amigos. Eu sabia que o que eu ia dizer agora poderia ser o alicerce do nosso futuro ou o estopim para ela fugir.
- O Conselho me deu um ultimato, Lô. - A minha voz saiu fria, mas meus olhos não deixaram os dela. - Eles querem que eu oficialize a nossa situação.
- Nossa situação? - Ela me olhou parecendo incerta. - O que isso quer dizer? Não, espera. O que o Conselho da sua empresa tem a ver com a "nossa situação"?
- Eles não têm nada a ver com nós dois, Lô. Mas aquela empresa leva o meu nome, eu sou o rosto dela, e parece que o que isso significa está no pacote da "nossa situação". - Eu expliquei, ainda como se pisasse me ovos.
- Não entendi, Albelini! - A Lorena se levantou e cruzou os braços, ficando de frente para mim.
- Eles querem um casamento. O Conselho recebeu fotos e vídeos daquele dia na escola e de outros dias... nós dois juntos. Eles dizem que... eu posso estar distraído com questões domésticas e perdendo o foco nos negócios. - Eu falei, mas ela ainda me olhava como se não tivesse entendido ou esperasse mais. - Eles dizem que fotos minhas com uma "babá" mancham a imagem de estabilidade do Grupo Albelini. As pessoas podem entender que... - Eu olhei para o Julian e o Andrey esperando por ajuda, mas eles me olhavam do mesmo jeito que a Lorena. Eu limpei a garganta e terminei. - As pessoas podem julgar que eu estou me envolvendo em aventuras e promiscuidade e cometendo desatinos, o que abala a estabilidade da imagem Albelini e pode desvalorizar as ações.
Eu percebi o corpo dela retesar, os olhos congelarem e os lábios tremerem.
- Casamento? - Ela sussurrou, a voz carregada de uma mistura de choque e algo que parecia decepção. - Você está me pedindo em casamento... melhor dizendo, você está dizendo que temos que nos casar porque um grupo de homens de terno acha que eu sou um problema de imagem?
- Não. - Eu fui até ela e a segurei pelos ombros, forçando-a a ver a verdade em mim. - Eu estou te contando a desculpa que eles deram para forçar a situação. - Ela estava pálida e fria, parecia que ia se desfazer sob os meus dedos a qualquer momento. - Lorena, olha pra mim. - Eu pedi e ela virou os seus olhos para os meus devagar. - Eu me casaria com você amanhã, com ou sem Conselho, e você sabe disso. Meu Deus, você sabe o que significa para mim, não é possível que ainda tenha dúvida. Mas eu não aceito ser pautado por eles. Eu não aceito que eles achem que têm o direito de opinar sobre quem dorme na minha cama e senta à minha mesa.
- Érick, casamento envolve algo muito grande, algo que... você não sente. Algo que eu... que eu não sou pra você. - Ela falou num sussurro e eu a encarei em choque. Como não sentia?
- Que porra é essa, Lorena? - Minha voz daiu mais ríspida do que eu pretendia, mas então eu vi nos seus olhos o medo e... algo muito profundo. - Olha pra mim, Lorena, eu estou disposto a queimar o mundo por você! Eu te coloquei no coração de tudo o que me é mais caro e eu não estou falando de dinheiro!
- Eu odeio cada segundo que passo longe de você. Eu quero as nossas tardes de domingo com piquenique e futebol no jardim. Eu quero que você seja a mulher que a minha filha enxerga como mãe. Eu quero você na minha cama todas as noites e nos meus braços todos os dias. Eu vou enfrentar esse bando de abutres e vou destruir cada um deles que ousar chamar você de "ponto fraco". Porque você não é minha fraqueza, Lorena. Você é a única coisa que me faz querer ser forte.
Eu respirei fundo, sentindo meu coração martelar contra as costelas. Eu tinha me exposto. Tinha colocado o meu pescoço na guilhotina diante dos meus dois melhores amigos e, principalmente, diante dela. O medo de ser desprezado me atingiu com a força de um soco no estômago, mas eu não recuei.
A Lorena me olhava com os olhos arregalados, a respiração curta. No fundo do escritório, o silêncio do Julian e do Andrey era absoluto. Eles sabiam que tinham acabado de testemunhar algo histórico: o Bicho-Papão tinha acabado de entregar o seu próprio coração em uma bandeja de prata.
Eu vi o momento exato em que a armadura dela ruiu. Uma única lágrima escapou de seus olhos castanhos, traçando um caminho brilhante por sua pele pálida, antes de ela se atirar contra o meu peito. A Lorena me abraçou com uma força que parecia querer fundir nossos corpos, escondendo o rosto no meu pescoço enquanto soltava um suspiro trêmulo que carregava todo o peso do mundo que ela tentava segurar sozinha.
No segundo em que seus braços me envolveram, toda a raiva gelada e a tensão que eu trazia do escritório evaporaram. Eu relaxei, enterrando o rosto em seu cabelo, sentindo que ela era a minha única âncora em meio à tempestade. Eu poderia perder a empresa, as ações e o respeito do mercado, mas enquanto ela me segurasse daquela forma, eu ainda seria o homem mais poderoso daquela sala. Eu finalmente tinha a minha resposta. E o Conselho não perdia por esperar pelo que viria a seguir.

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