"Lorena"
Desde que saímos da mansão eu estava nervosa, as minhas mãos suavam, meu coração estava disparado, a minha mente estava como uma TV sendo mudada de canal como se o dedo tivesse sido esquecido sobre o controle remoto. Eu não conseguia ficar em nenhum pensamento e pensava em tudo de uma vez. E todo o meu nervosismo se resumia ao fato de eu estar levando o Julian para a vila sem ter tido tempo de avisar a ninguém sobre isso. Eu teria que confiar que nenhum deles pisaria em falso.
Quando nós paramos em frente a porta do Mariano, eu tinha certeza que o Julian poderia ouvir os meus pensamentos que estavam focados em tirá-lo dali o mais rápido possível.
Mas aí o Mariano abriu a porta com toda aquela calma e sugeriu que sabia da nossa visita. O Dr. Barros o avisou que o Julian o procuraria. Isso estava ecoando na minha cabeça, porque o advogado do Érick avisaria? O Érick tinha mandado avisar que estávamos vindo? Ele estava me rastreando? Ou estava apenas garantindo que o Julian fizesse o trabalho direito? Mas avisar não seria preparar o terreno e dar tempo para que o que o Julian queria realmente ver pudesse ser escondido? Não daria tempo para que os meus amigos protegessem a minha imagem?
Eu já nem estava pensando de forma coerente mais. Eu estava a flor da pele, à ponto de revelar ao Julian toda a verdade. E no momento em que a Marcelina entrou naquela sala como um furacão, o meu mundo pareceu balançar na beira de um abismo.
A Lina não tinha travas na língua e o Julian conhecia o disfarce dela, como conhecia o meu. Mas ele a conhecia há muito mais tempo e eu tinha motivos para desconfiar que ele nutria um "amor platônico" pela Pandora. E se ele a reconhecesse? Se ela desse um passo em falso, a Scarlat seria revelada ali mesmo, diante do melhor amigo e braço direito do Érick.
Eu vi a forma como o Julian a devorou com os olhos. Homens como ele, acostumados com as mulheres frias e montadas da alta sociedade, mulheres programadas para serem discretas e distantes, não tinham defesas contra o magnetismo cru da Marcelina. No entanto, eu respirei aliviada, ele não a reconheceu, porque assim como a Scarlat, a Pandora nascia de uma maquiagem que era uma verdadeira máscara, peruca colorida, perfume invasivo e muito atrevimento.
Não que a Marcelina não fosse atrevida, ela era quase um desaforo, mas enquanto a Pandora era o próprio desaforo e tinha cheiro de laranja e gengibre com um toque de sândalo, a Marcelina tinha cheiro de flores e baunilha. E como ela dizia, perfume tinha a ver com personalidade e a da Marcelina naquele momento gritava sedução e ousadia, enquanto a Pandora gritava poder e sensualidade.
Não, definitivamente o Julian não a reconheceria. Mas o jogo de flerte deles estava me deixando à beira de um ataque de nervos.
- Está bem, Juju, já conheceu a Lina. Agora senta aí e faz o seu dever de casa. - Eu disse, tentando cortar o clima pesado de sedução que se instalou na sala, o Julian estava prontinho para esquecer o que estava fazendo ali e pular em cima da Marcelina, principalmente depois que ela o desafiou com aquela coisa de terno caro e rostinho bonito.
- Modo babá ativado! - O Mariano brincou.
Eu forcei um sorriso, mas por dentro eu estava gritando. O Mariano tentou me ajudar, mas quando ele disse para o Julian não se enganar com a minha superfície contida e que eu e a Lina éramos capazes de "incendiar a cidade", eu senti meu sangue gelar. O olhar que o Julian me deu depois disso mudou. Não era mais o olhar de quem vê a babá indefesa da Alice. Era o olhar de um predador que acabou de farejar uma pista.
- Sente-se, Sr. Beaumont, vamos voltar ao trabalho. - O Mariano pigarreou e levou o Julian de volta para os processos.
- Isso é só um detalhe, Lô. - Ela riu. - Ai, o Julian é um gato! As luzes da boate não são justas com aquele rostinho perfeito. - A Marcelina suspirou. - Eu não sabia que ele estava aqui, só vim ver como você estava, o pessoal da rua disse que tinha um carrão parado aí fora e eu sabia que era você. Eu sinto sua falta, amiga.
- Eu também sinto saudades, lina, mas a coisa está tensa lá. - Eu expliquei rapidamente o que estava acontecendo e ela ouviu atentamente. Para minha sorte a Marcelina era esperta. - Lina, escuta bem: você não pode dar mole perto do Julian. Ele é desconfiado, pega as coisas no ar. Se ele desconfiar de qualquer coisa sobre as nossas noites... sobre a boate... eu estou frita. O Érick não pode sonhar com a Scarlat! Pelo menos não agora.
O sorriso da Marcelina sumiu na hora, dando lugar a uma expressão de preocupação real.
- Não se preocupa, Lô. Eu vou me comportar, prometo. - Ela apertou a minha mão. - Mas tem uma movimentação estranha na boate. O Barão anda nervoso, proibiu todo mundo de sequer tocar no nome da Scarlat e avisou que se alguém abrir a boca pode ser a última coisa que vai falar na vida. E quando algum cliente pergunta pela Scarlat, a ordem é fingir que não sabemos do que estão falando, como se ela nunca tivesse existido.
- Que estranho! - Eu comentei, não era esperado que o Barão fizesse essa proteção tão veemente da Scarlat. - Ele não falou nada para você?
A menção ao Barão trouxe para mim mais uma preocupação. Eu esperava que o Barão até estivesse ansioso para ter a Scarlat de volta ao trabalho, mas não esperava que a Scarlat tivesse se tornado um tabu na boate. E saber que o comportamento do Barão havia se transformado daquela forma me preocupou e me fez sentir que havia uma ameaça muito próxima.

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