"Lorena"
O sorriso que brincou no canto da boca do Julian era de aprovação e interesse, o tipo de sorriso que ele provavelmente usava antes de falir uma empresa concorrente. Eu tinha conseguido mudar o foco dele, ele estava oficialmente no meu jogo.
- Vou confessar, eu estava bem incomodado, porque... eu não sei porque, Lolô, mas tem algo em você que me diz que você não é tão boazinha assim. - Ele admitiu, soltando a minha mão e pegando o celular. - Eu sinto que você está me escondendo algo e eu odeio não ter todas as cartas na mesa. Mas saber que você tem garras me deixa muito mais tranquilo. A sua amizade com aquela tempestade de cabelos pretos agora faz todo o sentido. E você não pode mesmo ser boazinha. Ser a Sra. Albelini vai exigir que você mostre força e coragem.
- Eu não sou boazinha, Julian. Mas eu também não cometi nenhum crime, nem me prostituí para sobreviver. - Eu o encarei com muita seriedade. Eu precisava que ele entendesse que havia um limite que eu não cruzei.
- Eu posso viver com isso. - Ele declarou. - Por enquanto. Mas vamos atacar dos dois lados. Você será a mulher traída e humilhada com quem todos se solidarizam, mas estará pronta para mostrar os dentes se for ameaçada.
- Tudo bem. - Eu concordei. - Agora me diga, Julian, já que você conhece todos eles tão bem... Quais são os pontos fracos dos membros do Conselho? O que tira o sono do Simão além da minha presença na mansão? Qual é o esqueleto que ele guarda no fundo do armário.
O silêncio de desconfiança que nos sufocava no início da viagem tinha evaporado. O Julian soltou uma gargalhada cúmplice e começou a digitar algo no celular.
- Bom, se você quer sangue, Lolô, eu vou te dar a jugular deles. Vamos começar pelo Simão. O maior ponto fraco dele não são as finanças... é o ego e um filho problemático que ele tenta esconder na Europa.
- Julian, isso é de domínio público! - Eu reclamei, cruzando os braços. - Eles só acham que escondem e o resto de vocês finge que não vê. Eu quero a humilhação. Aquilo que eles escondem até da própria família. Você vai me passar o que tem, mas vai colocar um detetive atrás deles.
- Ooooww! O que você quer é...
O Julian se interrompeu, parou de digitar e me encarou por longos segundos, o celular no ouvido. Ele parecia impressionado. Falou rapidamente com alguém na linha:
- Vou te enviar uns nomes. Quero o segredo do submundo, o mais podre possível. Você tem quinze dias. - Ele encerrou a ligação e me encarou. - Se você estiver certa, isso vai ser divertido. Mas saiba que isso é jogar tudo no ventilador.
-Não é o que eles querem fazer comigo? Nós só vamos fazer antes. Mas eu espero só precisar jogar sobre as mesas deles. - Eu retruquei, sentindo a adrenalina pulsando. - Vai, me conta o que vocês fingem não ver enquanto o detetive trabalha.
Enquanto ele começava a listar os podres do Conselho, eu respirei fundo, aliviada. Eu tinha conseguido desviar o foco do Julian. Mas eu sabia que tinha sido por pouco. Se eu quisesse sobreviver àquele jantar, eu precisava, de fato, deixar a Scarlat assumir o controle.
O almoço terminou em um pacto silencioso. O Julian me contou detalhes sórdidos sobre outros conselheiros, mas a minha mente já estava arquitetando como eu abordaria cada um. E no momento em que nós finalmente chegamos em casa, a adrenalina da estratégia deu lugar a um frio familiar no estômago. Eu sabia que o Érick estaria esperando porque eu tinha certeza que o Sr., Alberto tinha avisado do meu almoço com o Julian.
Ao entrarmos no escritório, a cena era exatamente a que eu temia. O Érick estava de pé junto à janela, com um copo de uísque intocado na mão. O paletó estava jogado sobre uma poltrona e as mangas da camisa branca estavam dobradas até os cotovelos. A tensão que emanava dele.
- Três horas de almoço, Julian? Com a minha mulher? - A voz do Érick saiu baixa, perigosa. - Achei que o objetivo hoje fosse apenas a vila.
- E foi, Albelini. Lolô, dá um beijinho mágico no seu bicho-papão para ele ficar calminho vai. - O Julian riu e se jogou no sofá.

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