"Érick"
O orgulho que senti de Lorena naquele sofá quase me fez esquecer a fúria que passei na empresa pela manhã. Minha fada estava disposta a ir para a guerra pelo nosso império, mas, para que o plano dela funcionasse, eu precisava garantir que o terreno de casa estivesse limpo. Ou, pelo menos, vigiado.
Quando o Julian brincou sobre a Lorena não ser tão boazinha, ele estava falando uma verdade que eu já conhecia. Eu já tinha visto a fúria dela, já conhecia as paixões que a moviam. Eu sabia que por trás da mulher contida e suave que cheirava a coco e açúcar mascavo, havia um incêndio que poderia me consumir inteiro.
- Não, Julian, ela não é tão boazinha quanto parece mesmo. - Eu falei, me virando para o Julian. - Mas para jogarmos esse jogo, precisamos limpar a casa primeiro. A minha mãe e eu concordamos que a única pessoa que pode estar vazando informações desta casa é a Adelaide. Ela detesta a Lorena, isso todo mundo percebe, e sempre teve um bom relacionamento com a Verônica Albuquerque. E nós sabemos que a Verônica tem acesso ao Simão.
- É, eu concordo. E a Lolô tem certeza. - O Julian comentou.
A Lorena perdeu o sorriso na hora. O corpo dela ficou tenso contra o meu.
- Você vai demiti-la agora? - Ela perguntou, a preocupação brilhando naqueles olhos castanhos.
- Não, Lô. - Eu respondi, dando um beijo suave em sua têmpora. - É como dizem, mantenha os amigos perto e os inimigos mais perto ainda. Uma espiã demitida se torna uma inimiga invisível e imprevisível lá fora. Uma espiã sob controle é a nossa maior arma. Eu quero a Adelaide exatamente onde ela está, achando que somos idiotas.
O Julian arqueou uma sobrancelha, os olhos brilhando com o mesmo entendimento maquiavélico que o meu, era o resultado de uma parceria da vida inteira, ele me conhecia muito bem.
- Você quer alimentar o rato com queijo envenenado. - O meu amigo deduziu.
- Exatamente. Vamos plantar uma mentira. Algo tão absurdo, mas tão suculento, que ela não vai resistir a correr para contar para a Verônica Albuquerque. Se essa mentira chegar aos ouvidos do Simão e ele tentar usá-la contra mim no Conselho, teremos a prova definitiva de que é ela a traidora e teremos o controle total do que sai desta casa.
- E qual vai ser a isca? - A Lorena perguntou, inclinando-se para a frente, absorvendo a estratégia.
Eu olhei para ela e um plano perfeito começou a se desenhar na minha mente.
- Algo sobre você, Lô. Você é o alvo dela e a minha mãe acha que a Adelaide só vai atacar você. Mas precisa ser algo que faça o Simão acreditar que tem o trunfo final para provar a minha suposta instabilidade emocional. Vamos fingir que estamos escondendo um segredo bombástico sobre o seu passado... algo que faça o Simão correr atrás do próprio rabo.
Eu achava a minha idéia brilhante, mas eu senti o corpo de Lorena enrijecer contra o meu. Ela não apenas congelou, ela parecia ter parado de respirar. Eu só podia pensar que ela estava com medo da mentira se tornar grande demais a ponto de nos destruir de verdade. Eu apertei sua cintura de leve, tentando passar segurança.
- Ei, calma. É uma mentira, fada. - Eu sussurrei perto do ouvido dela. - Nada que vá te machucar.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite