"Marcelina"
Eu me acomodei no banco de trás do carro do Albelini, sentindo a maciez do couro e o ar condicionado no máximo, mas o meu corpo ainda parecia carregar o calor que o Julian me causava. Eu olhava pela janela, vendo a paisagem mudar rapidamente conforme deixávamos a zona nobre da cidade para trás, e um suspiro pesado escapou dos meus lábios.
Eu estava exausta. Mascar chiclete, fingir demência para enlouquecer ricaço e tentar me livrar daquele gostoso do Julian gastava uma energia que academia nenhuma no mundo conseguia drenar. Dava pra entender porque a Lorena nunca conseguiu fugir do Albelini, aqueles homens tinham um magnetismo irresistível.
Mas eu precisava resistir ao Julian, eu não era uma princesa injustiçada como a Lorena, nobre de coração e que teve que se virar porque foi enganada. Não, eu era uma mulher calejada da vida, que largou os estudos e acabou servindo mesas naquela boate porque a vida era assim, às vezes a gente só escolhia o caminho mais difícil mesmo.
Eu me ajeitei no banco, me inclinando um pouco para frente para conseguir olhar pelo espelho retrovisor interno. O Alberto dirigia com aquela calma de quem já viu de tudo um pouco nessa vida.
- Alberto. - Eu chamei, baixando a voz.
- Sim, Marcelina. - Ele me olhou com um sorriso.
- As coisas vão ficar difíceis naquela casa. E a Lô não é casca grossa como a gente. - Eu comecei.
- A Lorena tem um coração bom, Marcelina, mas ela não é tão frágil quanto parece. - Ele sorriu tentando me tranquilizar. - E nem você é tão casca grossa quanto gostaria de ser.
- Você é muito bonzinho! - Eu sorri e olhei pela janela. - Eu gosto muito da Lô. Será que ela vai me perdoar quando souber as coisas que eu estou escondendo dela?
- Você está fazendo isso pelo bem dela. A Lorena não aceitaria a ajuda se soubesse de onde vem. Ela se sentiria "presa", entende? - Ele definiu.
- Ela se sentiria comprada. Aquela cabecinha dura é orgulhosa... e geniosa. - Eu ri. - Acho que é por isso que eu gosto tanto dela. Ela tem esse lado doce, mas também sabe lutar pelo que acredita. E eu... eu já aprendi com a vida que quando a ajuda b**e na porta é melhor aceitar.
- E você fez bem em aceitar. Vai dar tudo certo, Marcelina, confia. - Ele me garantiu.
- Posso te pedir uma coisa muito séria? De amiga? Nós já somos amigos, não somos?
O motorista desviou os olhos da estrada por um milésimo de segundo no espelho, assentindo.
- Claro, Marcelina. Nós somos amigos. O que você precisa?
Eu me virei e dei exatamente três passos.
- Pandora. - A voz masculina grossa e desconhecida chamou, me pegando desprevenida e, mais por costume que qualquer outra coisa, eu me virei devagar na direção daquela voz.
A voz veio das sombras de um sedã preto estacionado debaixo de uma árvore poucos metros atrás. Uma voz firme, fria, desprovida de qualquer hesitação. O meu corpo inteiro congelou. O meu coração falhou uma batida. A mala na minha mão pareceu pesar uma tonelada. O disfarce havia sido exposto.
O Julian estava encostado na lateral do carro dele. Ele tinha tirado o paletó, e as mangas da camisa social branca estavam dobradas até os antebraços, revelando o relógio caro e a postura de quem não estava ali para brincar de conquistador bonzinho. Os olhos dele exibiam uma certeza que me fez tremer. E eu só podia fazer uma coisa: fingir demência e tentar convencê-lo de que não tinha ideia de quem era Pandora.
- Baby... - Eu tentei usar o meu tom mais debochado, ajeitando o cabelo para camuflar o pânico, mas a minha voz vacilou de leve. - Que surpresa. Já está com saudade de mim ou o seu GPS quebrou e você se perdeu?
O Julian não riu. Ele sequer mudou de expressão. Ele se afastou do carro, deu a volta nele e abriu a porta do passageiro com um movimento seco.
- Entra no carro, Marcelina. Ou Pandora. Escolha o nome que preferir, mas entra nesse carro. - Ele ordenou, a voz baixa, mas carregada de uma autoridade que me fez trincar os dentes de medo. - Nós temos muita coisa para conversar e eu não vou sair daqui sem as minhas respostas. Entra. Agora.

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