"Julian"
Eu não podia acreditar que tinha sido tao cego. Por três anos eu frequentei aquela boate toda semana só por causa da garota de peruca cacheada verde que atendia por "Pandora". Nós conversávamos, eu tentei levá-la para cama várias vezes, eu a abracei e senti o cheiro da sua pele. No entanto, eu não a reconheci fora daquele disfarce... nem mesmo a sua voz.
O silêncio dentro do meu carro era tão cortante quanto uma lâmina de vidro. A Marcelina estava sentada no banco do passageiro com os braços cruzados, os olhos fixos na janela e o maxilar trancado. Ela não mascou chiclete. Não fez piadas. O deboche que ela usava costumeiramente como uma segunda pele tinha evaporado.
Eu dirigi até o meu apartamento no centro sem dizer uma única palavra. Eu precisava de um território neutro, longe dos olhos do Érick e dos ouvidos de qualquer espião. Quando eu destranquei a porta e gesticulei para ela entrar, a atmosfera parecia carregada, como se uma tempestade estivesse prestes a começar.
A Marcelina entrou, jogando a mala de mão no sofá de couro e virando-se para me encarar, ela não parecia acuada como pereceu ao me ver na vila chamando por "Pandora". Mas aqueles olhos espertos estavam na defensiva.
- Pronto, Julian. Estamos no seu castelinho. - Ela disparou, tentando forçar o tom cínico de sempre, embora um leve tremor na voz a traísse. - Vai me interrogar sob a luz de uma lâmpada, enfiar a minha cabeça num balde de água ou vai direto ao ponto?
- Eu estou esperando uma explicação, Marcelina. - Eu cruzei os braços sobre o peito e esperei.
- Explicação? - Ela soltou um riso curto. - Eu não tenho que te explicar nada, Julian.
- Ah, tem sim. Três anos vendo você naquela boate, Marcelina... três anos... e quando nos encontramos fora dela você finge que não me conhece?! Por que, Marcelina? - Eu exigi.
- Eu não tenho ideia do que você está falando. - Ela se virou, desviando os olhos dos meus e caminhando para longe.
- Pare de mentir, Marcelina. - Eu falei, a voz baixa, arrastando as palavras com frieza, caminhando em direção a ela com passos lentos, como um predador. - Você se virou quando eu te chamei pelo nome. O seu corpo respondeu antes da sua mente. Você é a Pandora. - Eu a prendi contra a parede, espalmando as minhas mãos, uma de cada lado da sua cabeça. - Aquela maldita boate... você servia mesas lá. Você me serviu lá, bebeu comigo muitas vezes.
Ela engoliu em seco. Eu vi o exato momento em que ela percebeu que o blefe não funcionaria. A Marcelina ergueu o queixo, sustentando o meu olhar.
Aquelas palavras pareceram cravar no peito dela como punhais. O rosto da Marcelina mudou. A pose de quem não ligava para nada ruiu, e eu vi uma mágoa profunda, legítima e dolorosa ocupar o olhar dela.
- Como você ousa falar esse absurdo? - A voz dela saiu trêmula, mas cheia de raiva. - Você não conhece a Lô! Ela ama o Érick! Ela ama aquela menina como se tivesse parido! A Lorena sangrou naquele lugar maldito, ela suportou os piores olhares, vendeu a própria alma como Scarlat servindo mesas para conseguir dinheiro e não morrer de fome porque um filho da puta a enganou e roubou tudo dela!
- E agora ela quer descontar no meu amigo. - Quando eu me dei conta as palavras já tinham saído da minha boca e a Marcelina me olhava como se eu fosse um monstro.
- Foi o seu amigo que a tratou como prostituta! - Ela apontou o dedo no meu nariz. - Vai me dizer que você não sabe da briga pelo dinheiro que ele deixava e ela devolvia? Me poupe, Julian! O Albelini teria transformado a Scarlat em amante fixa e ela estaria tirando dele quanto dinheiro quisesse. Mas a Lorena não é dessas, Julian. Se você não vê isso é porque não quer.
Aquelas palavras me doeram como um ta-pa no rosto, porque eu sabia que a Marcelina estava certa, o Érick teria colocado o mundo aos pés da Scarlat se ela se tornasse a sua amante, mas ela não passaria disso, uma amante escondida. Eu respirei fundo, sentindo o peso daquela verdade esmagar a minha arrogância, enquanto Marcelina me encarava com um desprezo que fazia o meu peito sangrar.

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