"Lorena"
O sol da manhã batia no pátio da escola da Alice. Aquelas mães não se atreviam mais a me enfrentar, mas eu podia sentir os seus olhares queimando as minhas costas e podia imaginar as coisas horríveis que cochichavam sobre mim, principalmente depois que o professor Renato foi demitido por exigência do Érick.
Mas o que eu sentia era mais do que os olhares maldosos que eu recebia ali, eu sentia o perigo na Mansão Albelini desde a tarde anterior e eu sabia porque sentia. Eu sentia o perigo porque eu sabia que a Adelaide era orgulhosa demais para engolir o fato de ter sido enganada. Eu estava preparada para ela e mais atenta do que antes, ela não me pegaria desprevenida.
- Tchau, Lolô! Te vejo na hora do almoço! - A Alice me deu um beijo estalado na bochecha, pegou a alça da mochila de rodinhas e correu em direção ao portão principal.
Eu sorri, acenando até que a silhueta da minha menina desaparecesse dentro da escola. No segundo em que o enorme portão de ferro se fechou com um clique metálico, o celular na minha bolsa começou a vibrar freneticamente. Eu peguei o aparelho e observei com um sorriso. O visor brilhava com o nome da Marcelina.
- Lina? O que houve? Já está sentindo a minha falta? - Eu atendi, dando alguns passos em direção ao carro, onde o Alberto me esperava com a porta aberta.
- Lô... seu celular ficou desligado a noite inteira... respira e me escuta. E se tiver alguém por perto, continua sorrindo. - A voz da Marcelina veio num sussurro trêmulo, desprovida de qualquer deboche. Meu sangue esfriou na hora. Eu nunca tinha ouvido a minha amiga naquele estado de nervos. Algo ruim tinha acontecido.
- Você está me assustando, Lina.
- Lô, o Julian... ele descobriu. Ele apareceu na vila ontem à noite. Ele sabe sobre a Pandora. Ele sabe sobre a boate. Lô, ele descobriu tudo sobre a Scarlat. Você precisa dar um jeito, precisa se preparar, some daí, inventa alguma...
Eu travei os passos no meio da calçada entre o portão da escola e o carro. O Julian acabava de sair do próprio carro que ele parou em frente ao carro com o motorista do Érick. Ele vestia um terno impecável como sempre, mas o rosto estava pálido, com olheiras profundas de quem não havia pregado o olho a noite inteira. Os olhos dele, geralmente gentis e brincalhões, estavam fixos em mim com a frieza que eu vi no dia em que o encontrei no escritório, quando fui contratada como babá.
- Lina... - Eu interrompi o desespero da minha amiga, a minha voz saindo tão baixa que quase sumiu. - É tarde demais para me preparar. Ele está aqui. Te ligo depois.
Eu desliguei o telefone sem esperar resposta e guardei o aparelho na bolsa com as mãos trêmulas. Tentei disfarçar o pânico que tentava subir pela minha garganta e caminhei na direção dele, como se não estivesse abalada.
O Alberto, percebendo a aproximação do Julian, deu um passo à frente, colocando-se sutilmente entre nós dois com a postura impecável de segurança que o Érick havia lhe incumbido.
- Sr. Beaumont. - O Alberto cumprimentou, a voz firme. - Não sabia que o senhor vinha à escola hoje.
- Alberto. - O Julian forçou um sorriso cansado, sem desviar os olhos dos meus. - Foi de última hora. Eu preciso falar com a Lorena sobre alguns detalhes estratégicos do jantar do Conselho. Você sabe, prepara-la para enfrentar os leões. Você pode voltar para casa, eu mesmo levo a Lorena e aproveito para conversar com ela no caminho.
- Sinto muito, Sr. Beaumont. - O Alberto respondeu imediatamente, sem recuar um centímetro. - Minhas ordens são claras. O Sr. Albelini foi muito impositivo: eu não posso me afastar da Srta. Lorena por nenhum segundo enquanto ela estiver fora da mansão. São ordens diretas do chefe, o senhor me entende, eu tenho certeza.
O Julian sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos.
O bistrô estava vazio àquela hora da manhã. O ambiente com aroma de café e croissants parecia um cenário de filme antigo. Parecia agradável demais para a conversa desconfortável que estava prestes a acontecer. O Julian me conduziu para a mesma mesa da primeira vez e se sentou de frente para mim.
- Três anos, Lorena. - O Julian começou sem rodeios, inclinando-se para a frente na mesa, a voz cortante e baixa. - Três anos enlouquecendo pela Pandora naquela boate. E aí surgiu a Scarlat que, como um incêndio furioso, arrebatou o Érick.
- Julian... - Eu tentava pensar em algo para dizer, mas enquanto eu procurava as palavras, ele sabia exatamente o que dizer.
- Eu sei de onde você saiu, Lorena. A Marcelina me confessou tudo ontem à noite. Mas, claro, ela já te avisou.
O meu coração disparou, batendo com tanta força que eu achei que o Julian conseguiria ouvir. Mas eu mantive o queixo erguido, repetindo em minha mente que eu não havia feito nada de que pudesse me envergonhar.
- Se ela te contou, Julian, então por que você está aqui? - Eu perguntei, tentando manter a voz firme, mesmo que por dentro eu estivesse gritando de pavor.
- Por que eu quero ouvir de você, Lorena, o que você está fazendo aqui. Por que você entrou na vida do Érick com uma mentira?
- Eu aceitei o emprego na boate para sobreviver, Julian. Assim como aceitei o emprego de babá por necessidade, porque eu não suportava mais a boate, mas não podia sair até encontrar outro.

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