"Julian"
O silêncio que se seguiu às palavras de Marcelina foi pesado, quase sufocante. Eu continuei ali, paralisado diante dela, sentindo o eco da acusação de que o Érick a teria transformado apenas em uma amante de luxo. A verdade crua daquilo me desarmou.
- O que você espera que eu pense, Marcelina? - Eu perguntei sentindo uma confusão tentando se instalar em mim. - Vocês duas nos conheceram naquela boate, onde mulheres tiram a roupa e se prostituem. O que você...
- Se chamar a mim ou a Lorena de prostituta, Julian, você vai ficar com as marcas das minhas unhas no meio do seu rostinho pra sempre. - A Marcelina ameaçou, o tom de voz orgulhoso estava misturado com uma profunda decepção.
- Marcelina... - Eu passei as mãos pelo rosto, já nem sabendo mais o que pensar. - Se coloca no meu lugar.
- Não, Julian, você e quem deveria se colocar no meu lugar. No meu e no da Lorena. O que você faria se estivesse na nossa situação, Julian? Morreria de fome? Ou serviria mesas numa boate marculina usando vestidinhos curtos e ouvindo as propostas mais nojentas do mundo? Propostas como a que o seu amigo fez para a Lorena? - Ela me encarou, uma firmeza e uma dignidade em seus olhos que me fez vacilar.
- Eu não sei, Marcelina. Existem milhares de outras opções por aí...
- Ah, eu desisto, você nunca vai entender onde a necessidade pode nos levar. Mas a Lorena, Julian, é uma pessoa boa. Ela não quer um centavo do Albelini! Ela entrou naquela mansão para ser babá, Julian, justamente aceitando uma outra opção. Ela não premeditou. O destino é que cruzou os caminhos deles! É tão difícil entender?
- Meu Deus... - Eu passei a mão pelo rosto, sentindo o peso daquela bomba nas minhas mãos. - O Érick... quando ele descobrir isso... ele vai destruir tudo. Ele odeia mentiras. Ele confia nela.
A Marcelina deu um passo atrás, e os olhos dela se encheram de lágrimas que ela se recusava a deixar cair.
- Julian, por favor. - A voz dela diminuiu, perdendo toda a agressividade. - Não destrói a felicidade deles. Não destrói a felicidade da Alice.
Ela juntou as mãos, e ver a mulher mais orgulhosa que eu já conheci implorar daquele jeito quebrou algo dentro de mim.
- Eu nunca te pedi nada. Guarda o segredo dela. Olha, eu desapareço, mas dá uma chance pra Lô contar pra ele no tempo certo. Se você jogar isso na mesa agora, você mata os dois por dentro e os condena a infelicidade pelo resto da vida. Por favor.
- Eu não posso fazer isso, Marcelina.
Eu respondi, o peito apertado, a lealdade ao meu melhor amigo gritando na minha cabeça. Eu já guardava um segredo dele, mas foi a mãe dele quem me fez guardar esse segredo. Eu não podia ter mais um.

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