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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 156

"Lorena"

O Julian saiu pela porta do bistrô, enquanto eu tinha a sensação de que as paredes do lugar estavam desabando sobre mim. Eu estava me sentindo claustrofóbica sem nunca ter tido problema com lugares fechados. Eu continuei sentada, olhando fixamente para a mesa de mogno, sentindo o meu peito subir e descer enquanto tentava processar a ameaça dele, sem ter condições de ficar de pé.

“Eu te encontro no inferno. E não conte nada para o Érick.” As palavras dele ecoavam no minha mente. E eu não duvidava disso. O Julian não era só o braço direito do Érick, ele era o melhor amigo, o irmão como eles diziam, e a lealdade entre eles era algo inquebrável. Ele ia me destruir para proteger o amigo, e eu não tinha como culpá-lo por isso, porque a culpa era minha. Eu havia entrado naquela vida com uma mentira quando eu já carregava outra mentira e agora a conta tinha chegado.

- Srta. Lorena? - Eu senti o leve toque no meu ombro antes de me dar conta de que o Alberto estava de pé ao meu lado me chamando. Ele havia se aproximado da mesa, os olhos atentos cheios de uma preocupação que eu mal conseguia decifrar. - O Sr. Beaumont me disse que precisou sair às pressas. Nós... podemos ir?

Eu me levantei amparada pelo Alberto, que me ajudou a chegar ao carro e me ajudou a entrar. Quando o carro começou a se movimentar, a paisagem passava como um borrão de tintas derretidas e na minha mente as palavras do Julian eram repetidas enquanto eu tentava pensar no que fazer.

- Eu não posso perdê-los. - Eu murmurei tão baixo quanto se reza sozinha em uma igreja e aquela era a minha prece. Eu não podia perdê-los, eu amavo o Érick e amava a Alice.

- Disse alguma coisa, senhorita? - A pergunta do Alberto me fez perceber que ele me olhava pelo retrovisor, muito mais atento a mim do que de costume.

- Alberto... - Eu limpei a gargante e esfreguei as mãos na saia do meu vestido para secar o suor frio nelas.

O pânico estava me sufocando. Eu precisava falar com a Marcelina imediatamente, mas fazer isso ali, ou de dentro da mansão com a Adelaide por perto, parecia perigoso demais.

- Você pode me levar a um shopping? Eu preciso... comprar umas coisas. Caminhar um pouco. - Eu pedi, tentando não parecer desesperada.

O Alberto me encarou pelo retrovisor. O cenho dele continuava franzido, o mesmo olhar analítico de quem sabia ler as entrelinhas.

- Com todo o respeito, senhorita... acho que não seria uma boa ideia a senhora se expor agora. - Ele sugeriu, a voz baixa, carregada de uma cautela que parecia esconder muito mais do que um simples conselho de motorista. - Eu sei que o clima está tenso por causa do Conselho e isso pode ser difícil, mas falta pouco. E o Sr. Albelini foi muito claro sobre mantê-la segura dentro dos portões da mansão. Se a senhorita me permitir... o melhor lugar para a senhorita descansar e colocar a cabeça no lugar é na casa. Lá, ninguém de fora pode tocá-la. Eu mesmo vou me encarregar de manter a Adelaide fora do seu caminho. Eu posso ficar de guarda onde a senhorita quiser.

A oferta dele era mais do que generosa e havia um tom protetor na sua voz. Eu engoli em seco. Ele tinha razão, mas o que o Alberto não sabia, era que o perigo já estava dentro dos portões daquela casa. O Julian sabia e era uma questão de horas até ele contar para o Érick.

O Érick... ele nunca me perdoaria.

- Tudo bem, Alberto. Vamos para casa. - Eu cedi, recostando o corpo no banco de couro e fechando os olhos. Era isso, eu precisava abraçar o meu destino e enfrentar as consequências.

- Aquele filho da puta... eu mato ele! - A Marcelina trancou os dentes, e eu ouvi o som dela chutando algo do outro lado. - Ele me encurralou na vila ontem quando eu estava chegando, Lô! Eu tentei mentir, tentei segurar com deboche, mas ele ligou os pontos por causa de uma palavra que eu deixei escapar na mansão. Eu implorei para ele não te denunciar, Lô... eu juro que implorei!

- Eu sei, Lina, eu sei... - Eu solucei, abraçando os meus próprios joelhos no escuro do closet. - Não foi sua culpa, ele já estava desconfiado. Eu fui sincera com ele. Contei sobre a necessidade, contei sobre o engano da vaga de babá... contei que eu amo o Érick. Mas ele disse que o Érick é o irmão dele. Ele disse que eu não tenho mais tempo e que vai me encontrar no inferno se eu tentar fugir. Ele me proibiu de abrir a boca com o Érick antes de voltarmos a conversar. Lina, ele vai acabar comigo. O Érick vai me escorraçar da vida dele. Como eu vou viver sem o Érick e sem a Alice?

- E onde o Julian está agora? Ele foi falar com o Albelini na empresa?

- Não... quer dizer, eu não sei. - Eu limpei o rosto, tentando estabilizar a respiração. - No meio do interrogatório, o celular dele tocou. A expressão dele mudou na hora, Lina. Ele ficou completamente pálido e tenso. Atendeu dizendo apenas 'bom dia' e parecia surpreso com quem estava do outro lado. Do nada, ele se levantou da mesa e disse que precisava ir resolver uma emergência. Me mandou voltar para casa e sumiu.

Um silêncio pesado caiu entre nós duas através da linha. Eu conseguia ouvir a Marcelina processando a informação.

- Uma emergência? - Ela repetiu como se tentasse decifrar a emergência do Julian. - Lô... se fosse o Albelini ligando para ele, o Julian teria te arrastado junto ou teria te entregado na hora. Se ele mandou você voltar para a mansão e ficar quieta... quem diabos ligou para ele e conseguiu arrastá-lo dali no meio dessa confusão?

- Eu não tenho ideia.

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