"Lorena"
O Julian saiu pela porta do bistrô, enquanto eu tinha a sensação de que as paredes do lugar estavam desabando sobre mim. Eu estava me sentindo claustrofóbica sem nunca ter tido problema com lugares fechados. Eu continuei sentada, olhando fixamente para a mesa de mogno, sentindo o meu peito subir e descer enquanto tentava processar a ameaça dele, sem ter condições de ficar de pé.
“Eu te encontro no inferno. E não conte nada para o Érick.” As palavras dele ecoavam no minha mente. E eu não duvidava disso. O Julian não era só o braço direito do Érick, ele era o melhor amigo, o irmão como eles diziam, e a lealdade entre eles era algo inquebrável. Ele ia me destruir para proteger o amigo, e eu não tinha como culpá-lo por isso, porque a culpa era minha. Eu havia entrado naquela vida com uma mentira quando eu já carregava outra mentira e agora a conta tinha chegado.
- Srta. Lorena? - Eu senti o leve toque no meu ombro antes de me dar conta de que o Alberto estava de pé ao meu lado me chamando. Ele havia se aproximado da mesa, os olhos atentos cheios de uma preocupação que eu mal conseguia decifrar. - O Sr. Beaumont me disse que precisou sair às pressas. Nós... podemos ir?
Eu me levantei amparada pelo Alberto, que me ajudou a chegar ao carro e me ajudou a entrar. Quando o carro começou a se movimentar, a paisagem passava como um borrão de tintas derretidas e na minha mente as palavras do Julian eram repetidas enquanto eu tentava pensar no que fazer.
- Eu não posso perdê-los. - Eu murmurei tão baixo quanto se reza sozinha em uma igreja e aquela era a minha prece. Eu não podia perdê-los, eu amavo o Érick e amava a Alice.
- Disse alguma coisa, senhorita? - A pergunta do Alberto me fez perceber que ele me olhava pelo retrovisor, muito mais atento a mim do que de costume.
- Alberto... - Eu limpei a gargante e esfreguei as mãos na saia do meu vestido para secar o suor frio nelas.
O pânico estava me sufocando. Eu precisava falar com a Marcelina imediatamente, mas fazer isso ali, ou de dentro da mansão com a Adelaide por perto, parecia perigoso demais.
- Você pode me levar a um shopping? Eu preciso... comprar umas coisas. Caminhar um pouco. - Eu pedi, tentando não parecer desesperada.
O Alberto me encarou pelo retrovisor. O cenho dele continuava franzido, o mesmo olhar analítico de quem sabia ler as entrelinhas.
- Com todo o respeito, senhorita... acho que não seria uma boa ideia a senhora se expor agora. - Ele sugeriu, a voz baixa, carregada de uma cautela que parecia esconder muito mais do que um simples conselho de motorista. - Eu sei que o clima está tenso por causa do Conselho e isso pode ser difícil, mas falta pouco. E o Sr. Albelini foi muito claro sobre mantê-la segura dentro dos portões da mansão. Se a senhorita me permitir... o melhor lugar para a senhorita descansar e colocar a cabeça no lugar é na casa. Lá, ninguém de fora pode tocá-la. Eu mesmo vou me encarregar de manter a Adelaide fora do seu caminho. Eu posso ficar de guarda onde a senhorita quiser.
A oferta dele era mais do que generosa e havia um tom protetor na sua voz. Eu engoli em seco. Ele tinha razão, mas o que o Alberto não sabia, era que o perigo já estava dentro dos portões daquela casa. O Julian sabia e era uma questão de horas até ele contar para o Érick.
O Érick... ele nunca me perdoaria.
- Tudo bem, Alberto. Vamos para casa. - Eu cedi, recostando o corpo no banco de couro e fechando os olhos. Era isso, eu precisava abraçar o meu destino e enfrentar as consequências.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite