"Érick"
Eu olhei para as paredes sem graça do meu escritório na empresa e verifiquei a minha agenda, a holding estava sob controle, a humilhação do Simão no dia anterior ainda ecoava pelos corredores e ele ainda estava dando explicações para o restante do Conselho.
E foi por isso que eu decidi voltar para casa um pouco mais cedo. Talvez ir com a minha fada buscar a Alice, um tempo com as minhas meninas seria bom, estava tudo tão tenso nos últimos dias e ficava cada vez pior à medida que o jantar do Conselho se aproximava. E eu estava cada vez mais impaciente.
Além do mais, passar a manhã inteira longe da Lorena parecia um castigo desnecessário. Eu precisava do cheiro dela, do olhar doce que ele me dava e me desarmava e da certeza de que, apesar de toda a sujeira do Conselho, ela estava segura dentro dos meus domínios, que ninguém iria tocá-la.
Eu estacionei o carro no pátio e cruzei a porta assobiando baixo, relaxando o nó da gravata. Mas o meu bom humor evaporou no segundo em que pisei no hall e olhei em direção às escadas.
Meu motorista estava plantado no primeiro degrau, a postura rígida e os braços cruzados atrás das costas, agindo exatamente como um cão de guarda na porta de um cofre. E isso era uma grande novidade para mim.
- Alberto? - Eu dei um passo à frente, estreitando os olhos. - O que você está fazendo aí? Onde está a Lorena?
- Sr. Albelini - Ele me cumprimentou com um aceno de cabeça, descruzando as mãos com uma polidez impecável, mas sem sair do lugar. - A Srta. Lorena subiu. Ela me pediu para garantir que ninguém a incomodasse no andar de cima. Ela parecia um pouco... indisposta, senhor.
- Indisposta? - Eu franzi o cenho, sentindo uma pontada incômoda de preocupação no peito. - Aconteceu alguma coisa na escola?
- Não, patrão. Acredito que seja apenas o estresse por conta do jantar do Conselho que está se aproximando. Ela tem demonstrado muita preocupação com isso. Ela quis deitar um pouco. Eu me comprometi a garantir o sossego dela contra a Adelaide. Acho que o senhor entende.
Eu assenti, mesmo achando muito estranho que a Lorena fosse para a cama no meio da manhã.
- Se ela não está bem, Alberto, busque a Alice no colégio hoje sozinho. - Eu ordenei e ele fez que sim. - Vou ver como ela está.
Eu subi os degraus de dois em dois, o som dos meus sapatos ecoando pelo corredor silencioso. Parei diante da porta do meu quarto e segurei a maçaneta. Ela não girou. Estava trancada por dentro.
O meu alerta disparou na mesma hora. O que antes era só uma estranhesa se tornou uma preocupação monumemtal. A Lorena nunca trancava aquela porta. Uma onda de ansiedade subiu pela minha espinha. Bati na madeira com firmeza.
- O que aconteceu? - Eu entrei no quarto como um furacão, batendo a porta atrás de mim e segurando o rosto dela com as duas mãos, examinando cada centímetro à procura de um machucado, de uma marca, de qualquer coisa. Eu estava quase em pânico. - Alguém te machucou? A Adelaide fez alguma coisa? Lorena, fala comigo, pelo amor de Deus! Quem te fez chorar desse jeito? Eu mato quem quer que tenha sido!
Ela soltou a respiração que no meu ímpeto eu não havia percebido que ela prendeu. Mas aquilo soou como um suspiro de alívio. Ela me olhou por um breve instante e jogou os braços em volta do meu pescoço.
- Não, Érick, não... ninguém fez nada. - Ela sussurrou enquanto eu a abraçava, mas as lágrimas voltaram cair dos seus olhos em profusão. Ela colou a testa no meu peito, soluçando. - Ninguém me fez nada. Eu só... eu estou com medo, Érick. Eu estou me sentindo tão pressionada com esse jantar do Conselho, com o que eles podem fazer, com os olhares que as mães na escola me lançam... Eu sinto que eu estou sendo julgada o tempo todo e que eu não sou boa o suficiente para estar aqui. Que eu não pertenço ao seu mundo.
Eu soltei um suspiro longo, sentindo o meu próprio peito relaxar da fúria vingativa que eu senti para dar lugar a uma ternura avassaladora. Envolvi a cintura dela com os meus braços, puxando-a para o mais perto possível.
- Você quase me matou de susto, Fada. - Eu sussurrei, enquanto beijava os seus cabelos. - Que se dane o Conselho. Que se danem aquelas dondocas da escola. Você não precisa pertencer ao mundo deles, Lorena, porque você é o meu mundo. Eu estou jogando todas as cartas que tenho para garantir que ninguém nunca mais ouse olhar torto para você. Eu te coloco em um trono se você quiser. Só não se esconde de mim assim. Nunca mais tranca essa porta para chorar sozinha.
- Eu não preciso de um trono. Eu só preciso de você e da nossa menina, da D. Heloísa e dos nossos amigos, em paz, sem ameaças, sem medo de que a qualquer momento eu posso perder vocês. - Ela soluçou em meus braços.
- Você não vai perder nenhum de nós. Por Deus, eu queria que fosse mais fácil. Eu queria que nada pudesse nos atingir. Mas eu te prometo, Lô, que eu vou fazer cada dia ao meu lado valer a pena. - Eu declarei fervorosamente.

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