"Érick"
Eu pensei até que a Adelaide fosse desmaiar quando eu falei que a Marcelina era a nova funcionária, porque ela ficou mais pálida que uma boneca de porcelana e pareceu perder o fôlego.
- Isso significa...? - A voz da Adelaide estava sumindo.
- Isso significa que eu mando em você, Adê. Nao é o máximo? Eu sou sua sub-chefe! Porque a chefe mesmo é a Lô, você sabe, ela manda até no Albelini, né?! - A Marcelina respondeu empolgada.
- Manda mesmo, Marcelina! - Eu concordei com um sorriso, olhando para a Lorena e me lembrando do que ela fez comigo no quarto, a forma como ela exigiu a minha entrega, como ninguém jamais fez... ou quase ninguém, mas a outra não existia mais.
- Isso é uma heresia. - A Adelaide sussurrou chocada.
- Acho que eu não entendi, Adelaide. Você está contestando a minha decisão? - Eu parei bem na frente dela e a encarei, minha expressão impiedosa. - Tem certeza de que está em posição de me questionar, Adelaide?
- Não, senhor. Eu jamais faria isso. - Ela abaixou a cabeça e limpou a garganta.
- Eu estou animadíssima para começar a estalar o meu chiclete por aqui. - A Marcelina comentou. - Tô cheia de ideias, Adê. Dei uma voltinha pela casa e acho que você anda passando tempo demais no celular e se esquecendo das suas obrigações, porque tem umas coisas precisando de muita atenção.
A Adelaide bufou indignada. Ninguém nunca havia questionado a sua competência, pelo menos que eu soubesse, e a Marcelina estava fazendo isso abertamente.
- Com licença, senhor, eu preciso ir até a cozinha.
A Adelaide saiu batendo os saltos no piso ruidosamente, fechando atrás de si a porta que ligava a sala de jantar ao corredor que chegava a cozinha. Eu fui até lá e abri a porta a tempo de ouvirmos o estrondo de coisas sendo jogadas ao chão na cozinha e o grito de fúria da Adelaide.
- Acho que ela ficou encantada com a novidade. - A Marcelina suspirou, arrancando risadas de todos nós.
Mas o clima na sala de jantar mudou completamente alguns minutos depois, quando o som de passos pesados e firmes ecoou pelo hall de entrada.
O Alberto entrou carregando duas malas imensas de couro legítimo. E logo atrás dele, vestindo um terno cinza chumbo e exibindo um sorriso cínico de quem era o dono do lugar, entrou o Julian. Ele estava colocando o plano em prática.
A Marcelina engasgou com o chiclete na mesma hora. Os olhos dela quase saltaram da órbita enquanto ela olhava para as malas e depois para a cara de pau do meu amigo.
- Mas que palhaçada é essa, engomadinho? O que são essas malas? - A Marcelina esqueceu completamente os bons modos diante da minha mãe.
- Boa noite a todos! - O Julian cumprimentou com uma elegância irritante, fazendo uma reverência leve para a minha mãe e ignorando o surto da Marcelina. Ele caminhou até a mesa e puxou a cadeira exatamente ao lado dela. - Érick, o meu apartamento sofreu um desastre hidráulico terrível. A tubulação estourou e está tudo inundado. Acredita?!
- Nem eu acredito, engomadinho. - A Marcelina disparou emburrada, mas o Julian continuou com o sorriso cínico no rosto.
- Ah, Baby, mas foi isso que aconteceu. - Ele deu um beijo no rosto da Marcelina. - Amigo, eu vim aceitar o seu convite de hospitalidade. Espero não atrapalhar.
- Mas é claro que não, Julian! A casa é enorme, seja muito bem-vindo. - A minha mãe respondeu com um sorriso enigmático que me fez estreitar os olhos por um segundo. Ela parecia estar se divertindo mais do que deveria com todo o alvoroço na minha casa.

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