"Julian"
Eu tenho duas pós-graduações na melhor faculdade do país e sei exatamente como destruir qualquer concorrente com menos de cinco minutos de argumentação. Eu consigo prever três movimentos à frente de qualquer conselheiro da holding. Mas ali, parado no meio do quarto de hóspedes do meu melhor amigo, encarando a parede que me separava da Marcelina, eu me sentia um amador. Eu não tinha ideia de como mexer com aquela mulher.
O relógio na mesinha de cabeceira marcava duas da manhã. A casa estava em um silêncio sepulcral. O Érick provavelmente dormia o sono dos justos, ou dos exaustos, ao lado da Lorena. Até a Adelaide devia estar dormindo. Mas eu estava aqui, acordado, andando de um lado para o outro, sem saber o que fazer com aquela tempestade de cabelos pretos.
- Quer saber, esta é a hora perfeita. Não tem nada e nem ninguém para me atrapalhar. - Eu sussurrei, tomando a minha decisão. - Eu não sou homem de esperar o tabuleiro se mover sozinho. A Lorena tinha me prometido ajuda para quebrar a marra da melhor amiga, ela nos colocou em quartos do ladinho um do outro, eu ia fazer a minha parte.
Saí do quarto vestindo apenas uma calça de moletom preta, descalço. movendo da forma mais silenciosa possível. Parei diante da porta da Marcelina e não bati. Girei a maçaneta devagar. Para a infelicidade dela, e minha total diversão, ela não trancou a porta.
Eu abri a porta o suficiente para deslizar para dentro e a fechei com um clique quase imperceptível.
O quarto estava escuro. Eu me aproximei da cama com a precisão de um predador. Eu queria ver a pose de durona dela desmoronar no susto. Eu tateei, me ajoelhei sobre o colchão e engatinhei, pairando sobre ela. Eu senti o seu perfume sensual por um segundo antes de despertá-la.
- Acorda, Pandora! - Eu sussurrei no ouvido dela.
A Marcelina abriu os olhos escuros, já totalmente alerta, como um felino que pressente o perigo. Não houve grito. Houve apenas um reflexo puramente violento. Antes que eu pudesse sorrir, a mão dela voou no meu pescoço, e o joelho dela subiu com força total na direção do meu estômago, me fazendo cair sobre o colchão.
- Mas que porra...?! - Eu abafei o gemido de dor e uma luz brilhou nos meus olhos. No segundo seguinte ela estava sobre mim, apertando o meu pescoço.
- No meu quarto? Sem permissão, Baby? - Ela sibilou furiosa. - Você perdeu o juízo ou o resto de vergonha que tinha na cara?
- Eu vim ver se o seu cano também não tinha estourado. - Eu brinquei, a voz ainda meio presa pelo golpe, tentando manter a postura impositiva enquanto massageava a costela.
- O único cano que vai estourar aqui é a sua cara se você não sumir daqui em três segundos! - Ela se levantou, os cabelos bagunçados e o pijama absurdamente curto me fazendo desviar o foco por um milésimo de segundo. Ela percebeu o meu olhar. E o seu sorriso se tornou puramente sádico. - Ah, entendi. O engomadinho do camarote veio tentar a sorte no escuro?
Marcelina deu um passo à frente, eu tinha conseguido me levantar e ela colou o seu corpo no meu. Meu sangue ferveu. Eu achei, por um segundo, que o jogo tinha virado a meu favor.
- Você não aguenta o tranco comigo, Julian. Volta para o seu berço antes que eu morda você. E eu não mordo de um jeito gostoso. Eu mordo para deixar a minha vítima de joelhos.
Antes que eu pudesse segurar a cintura dela, Marcelina girou o meu corpo com uma agilidade ridícula, me empurrando com as duas mãos nas minhas costas. Quando foi que eu fiquei tão lento? A porta do quarto foi aberta e eu fui arremessado para o corredor.
Eu fiquei ali, de calça de moletom, descalço, encarando a madeira da porta. Uma risada rouca escapou da minha garganta. Aquela mulher era um perigo para a minha sanidade. E para o meu ego. Eu não conseguia nem pensar direito perto dela.


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