"Érick"
O homem que cruzou a porta tinha no máximo quarenta anos, postura aristocrática, cabelos escuros impecavelmente alinhados com fios precocemente grisalhos nas têmporas e olhos de um castanho muito escuro. Ele vestia um terno sob medida cinza de uma alfaiataria tão exclusiva que o caimento perfeito não deixava duvidar que era da alta costura tradicional. Carregava uma pasta de couro com fechos de ouro envelhecido.
Ele caminhava com a postura fria e calculista de quem está acostumado a fusões e aquisições como quem j**a Monopólio e a arrogância silenciosa de quem pertencia a uma linhagem que mandava no mercado há séculos.
Ele parou diante da mesa, olhou para mim, depois para o Julian e o Andrey, e fez um aceno de cabeça milimetricamente polido. Tudo nele gritava dinheiro, poder, imponência.
- Senhores. Bom dia. - Ele disse com a voz grave e pausada, e um sotaque sofisticado e sem pressa. - Meu nome é Balthazar de la Vega. Sou o representante legal da De la Vega & Associados, operando sob mandato expresso do fundo soberano que adquiriu as cadeiras remanescentes do conselho de administração do Grupo Albelini.
- Bom dia, Sr. De la Vega. Eu sou Érick Albelini e estes são nossos sócios Julian Beaumont e Andrey D'Ávila. Vamos nos sentar. - Eu apontei para a mesa e nós nos dirigimos a ela, cada um tomando o seu assento.
- Me desculpem pelo atraso, mas houve um pequeno incidente no vôo. Porém, acredito que a minha presneça na primeira parte da reunião era dispensável. - O Balthazar comentou polidamente.
- Certamente nada com o que se preocupar, eu apenas estava tomando posse das ações que adquiri recentemente. - Eu avisei.
- Claro. Fui informado sobre isso. Imagino que os senhores não estejam muito felizes com a aquisição do meu cliente. Mas já adianto que ele não tem intenção de se desfazer dessas ações. - O Balthazar parecia bem informado e preparado.
O Julian estreitou os olhos instantaneamente ao ouvir o discurso perfeito, polido e objetivo daquele homem. Eu conhecia aquele olhar do meu amigo e sócio, a mente dele estava vasculhando todos os escritórios jurídicos de alta linhagem do planeta, e o fato de ele não conseguir associar o sobrenome De la Vega a nenhuma das nossas alianças o estava deixando profundamente irritado.
- Sr. De la Vega... - O Julian assumiu o tom profissional, a voz firme e agressiva. - O compliance da holding exige a abertura imediata do beneficiário final do fundo de ações para a validação das cadeiras adquiridas. Nós não aceitamos procurações às cegas, não importa o tamanho do seu brasão ou peso do seu sobrenome.
O Balthazar de la Vega deu um sorriso de canto, um movimento puramente profissional que não alterou em nada a frieza dos seus olhos. Ele abriu a pasta de couro, retirando um calhamaço de papéis espesso, com o selo holográfico do Banco Central e as assinaturas da junta comercial.
- Tudo o que o compliance do Grupo Albelini exige está aqui, Sr. Beaumont. Validado, auditado e chancelado pelas autoridades financeiras internacionais há exatamente duas horas. Os vinte por cento estão legalmente sob a nossa custódia. - Ele deslizou os papéis sobre a mesa elegantemente. - O meu cliente não tem o menor interesse em criar atrito ou interferir na presidência do Sr. Érick Albelini. Pelo contrário. Fomos instruídos a dar apoio incondicional à nova gestão. Considerem-nos o seu aliado mais silencioso. E mais poderoso.
Eu olhei para o Julian, que folheava os papéis com uma velocidade absurda, o maxilar tão travado que dava para ouvir o ranger dos dentes. O rosto dele era uma máscara de pura frustração. Ele me passou os documentos, mas o olhar dele dizia tudo. Os documentos eram perfeitos. Intocáveis. Uma engenharia jurídica brilhante. Mas o nome do verdadeiro dono do dinheiro continuava sendo um segredo trancado sob uma holding internacional.
Eu encarei o Balthazar de la Vega. Ele sustentou o meu olhar sem piscar. A calmaria dele me irritava. Quem diabo estava por trás daquele homem? Quem tinha o poder de engolir vinte por cento da minha empresa pelas minhas costas e se sentar na minha mesa sem que eu pudesse fazer nada para impedir?
- Um aliado silencioso que gasta tanto dinheiro em uma aquisição não é um aliado, De la Vega. É uma ameaça invisível. - Eu resmunguei, apoiando as duas mãos na mesa, me inclinando na direção dele. - Eu não gosto de segredos no meu Conselho.
O Balthazar deu um sorriso arrogante, fez um aceno de cabeça perfeitamente polido para nós três e caminhou em direção à saída. As portas duplas da sala de reuniões se fecharam atrás dele, deixando no ar apenas o cheiro sutil de colônia cara e uma tensão sufocante.
No segundo seguinte, o Julian jogou o calhamaço de papéis em cima da mesa, soltando um palavrão audível enquanto passava as duas mãos pelo cabelo, desfazendo o alinhamento perfeito.
- Que porra foi essa?! -O Julian explodiu, a voz ecoando pelas paredes. - Esse cara não é um procurador comum, Érick. A banca dele só atende a realeza europeia e fundos soberanos de petróleo. Quem quer que esteja por trás dele tem tanto dinheiro que poderia comprar o nosso quarteirão inteiro se estivesse de mau humor. E o pior: os documentos são uma obra de arte. Não tem uma brecha sequer para eu contestar essa maldita blindagem na justiça.
- Calma, engomadinho, respira. - O Andrey comentou, usando o apelido dado pela Marcelina. Ele olhou para os papéis com um meio sorriso impressionado. - Pelo menos o engomadinho estrangeiro disse que vai votar com a gente e que não vai interferir. Qual é gente? Juntos nós somos oitenta por cento dessa empresa. O Simão está na rua, o Conselho virou fumaça e nós temos o controle operacional. Nós vencemos a guerra. Esse novo sócio é só um fantasma que gosta de dividendos.
- Eu não governo com a sombra de fantasmas, Andrey. - Eu retruquei, a voz saindo fria e cortante. - Julian, mande esses documentos para os nossos analistas em Londres. Quero que revirem cada centavo que entrou nessa holding de fachada. Se houver um único rastro de ligação com o Simão ou com qualquer concorrente nacional, eu quero saber antes do anoitecer.
- Vou fazer isso agora mesmo. - O Julian assentiu, já recolhendo os papéis com o semblante obstinado.
- E você, Felino, garanta que todas as demissões que o Julian vai preparar sejam executadas hoje. Não quero um único rastro da velha guarda respirando neste prédio amanhã. - Eu ordenei.
Caminhei em direção à porta da sala de reuniões, sentindo o peso das últimas quarenta e oito horas esmagar as minhas têmporas. A faxina no Conselho estava feita. O império dos Albelini parecia estar seguro nas minhas mãos de forma definitiva. Mas a falta de controle sobre a identidade daquele acionista oculto deixava um gosto amargo na minha boca. Eu precisava limpar a minha mente.

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