"Érick"
O cheiro da sala de reuniões do Grupo Albelini na manhã de quarta feira me agradava muito, era o cheiro da uma execução corporativa de um Conselho de traidores. Só o cheiro doce da minha Fada era melhor que isso.
A sala de reuniões, embora estivesse cheia de ex conselheiros e seus advogados, estava mergulhada em um silêncio sepulcral. Eu me sentei na cabeceira da mesa e apoiei os cotovelos na madeira maciça, entrelaçando os dedos enquanto passava os olhos, um a um, pelos membros do antigo Conselho.
O Mendes mal conseguia levantar a cabeça; mantinha os olhos fixos na sua xícara de café, com as mãos tão trêmulas que deixava a xícare de porcelana tilintar sutilmente contra o pires. Os dois conselheiros que haviam vendido suas ações a Deus sabe quem pareciam estátuas de cera, mudos, sufocados pela cláusula de confidencialidade da venda das suas ações. Os demais pareciam estar sendo enterrados vivos, como se ansiassem por sair dali e respirar. E na outra extremidade da mesa, o Simão.
O ex-líder do Conselho, o bastião da ética e da moralidade do respeitável Conselho do Grupo Albelini, parecia ter envelhecido dez anos desde a noite do jantar. O terno caro parecia folgado nos seus ombros caídos e a arrogância cega que ele ostentava tinha sido totalmente substituída pelo olhar injetado de ódio, mas aquele ódio que se sente quando não se pode fazer nada, um ódio que duelava com a frustração. Ele empurrou a pasta com os últimos documentos inerentes a sua renúncia em minha direção com uma lentidão patética.
À minha direita, o Julian recolheu os papéis. Ele conferiu as assinaturas e as firmas reconhecidas com um sorriso de canto de boca que era o puro deboche que ele certamente estava aprendendo com a Marcelina. Ele me deu um aceno discreto. O Conselho estava oficialmente limpo. O plano de deposição contra a minha presidência tinha sido enterrado por duas mulheres que aqueles estúpidos consideravam "inadequadas".
Eu deveria estar em absoluto êxtase, mas o que eu sentia era a tensão de não saber que rumo as coisas tomariam com o meu novo sócio que ainda não tinha mostrado a cara. Eu odiava não ter o controle do que era meu. E ainda havia uma cadeira vazia na lateral da mesa. A cadeira que representava os vinte por cento das ações que tinham sido compradas em segredo nas últimas semanas por uma holding internacional.
- Pronto, Érick, você fodeu com todos nós, agora podemos ir? - O Simão perguntou com a sua irritação a flor da pele.
- Simao, eu não fodi com vocês, só não permiti que vocês fodessem comigo. - A minha voz ecoou grave na sala, fazendo o Simão estremecer sutilmente na cadeira. - As compras das ações de vocês foram concluídas com sucesso. Todos os trâmites foram feitos e está tudo devidamente sacramentado. Vocês estão fora do Grupo Albelini. Podem se retirar.
- Adiós, queridos. - O Andrey se manifestou exultante ao meu lado.
O Simão levantou-se primeiro, sem proferir uma única palavra, e caminhou em direção à porta dupla com o maxilar trincado e os passos ecoando estridentes pela sala. Os outros ex conselheiros o seguiram em silêncio.
- Só para vocês saberem, seus privilégios já foram revogados e os cartões de entrada bloqueados. Mas isso é só praxe, não é mesmo?! - Eu avisei com um sorriso vitorioso no rosto.
- Vai pela sombra, Simãozinho. - O Julian riu.
E antes de sair o Simão se virou para mim, os olhos crispando de fúria.
- Você vai se arrepender disso, Érick. - O Simão falou de maneira amarga.
- Simão, eu nunca vou me arrepender de ter te colocado para fora da minha empresa. - Eu o encarei com um sorriso e recebi o seu sorriso de volta, frio, rancoroso e quase demoníaco.
- Eu não me referia a mim. Eu estava me referindo a babá. Esta mulher será a sua ruína, Albelini. - O Simão praguejou, mas antes que eu pudesse respoindê-lo, ele se virou e saiu.
- Esse filho da puta! - Eu bati o punho sobre a mesa com força assim que a porta se fechou, sobrando apenas o Andrey, o Julian e eu na sala. - Quem ele pensa que é para falar dela?
- Calma, Érick, isso é só provocação sem sentido. Foca no que importa, a faxina está feita. - O Andrey me lembrou. Eu o encarei, ele tinha razão por um lado, mas a faxina ainda não era completa.
- Ah, nao, Julian. Numa hora dessas e vocẽ está preocupado com a secretária que nas últimas semanas se mostrou leal a nós? - Eu o encarei.
- Eu não entendo por que você implica tanto com essa coitada. - O Andrey riu.
- Você nunca entende nada, Felino. - O Julian bufou, mas de repente abriu um sorriso. - Mas você vai me ajudar.
- Te ajudar? Já não estou gostando. - O Andrey reclamou.
- Mas ela gosta. Aliás, ela adora gatos. - O Julian provocou.
- As duas mocinhas podem se comportar? Nós vamos receber nosso novo sócio agora, deixem as fofocas e as trancinhas para depois. - Eu avisei e eles apagaram os sorrisos dos rostos.
O Andrey deu um passo atrás, cruzando os braços e travando o maxilar, enquanto o Julian se posicionava ao meu lado como um escudo. Nós estávamos prontos para a guerra. Se o novo sócio achava que ia tentar uma aquisição hostil do meu império, ele descobriria que ninguém pode ser mais hostil que um Albelini defendendo o que é seu.
As portas duplas da sala de reuniões foram abertas suavemente.
A figura que cruzou o portal, no entanto, quebrou todas as nossas expectativas. Não era o Simão acompanhado dos seus laranjas, não era um banqueiro conhecido no mercado, e não era nenhum dos nossos inimigos habituais ou alguém que pudéssemos ligar a eles.

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