"Lorena"
Cinco anos haviam se passado desde aquela noite de núpcias na casinha do riacho, quando eu abracei definitivamente a minha Scarlat. E o tempo provou que o nosso paraíso, estava erguido sobre uma base de amor, confiança e verdade, e que ele era sólido e definitivo contra qualquer imprevisto do destino. A nossa vida não era como um passeio no parque, era muito melhor, era a construção diária de um lar que transbordava o barulho mais doce de uma família completa que crescia e florescia unida.
A minha Alice, agora com doze anos, estava se tornando uma jovenzinha linda, inteligente e extremamente protetora. Ela continuava guardando bem os segredos, mas havia assumido com total orgulho o encargo de ser a irmã mais velha perfeita. O Marco, com cinco anos de idade, corria pelo gramado do jardim ostentando os mesmíssimos grandes olhos azuis do pai. E logo atrás dele, a pequena Bela, de quatro anos - a nossa princesinha que eu descobri estar a caminho no dia do casamento, dava risadinhas eufóricas que preenchiam o meu coração de mãe. Ela tinha os olhos castanhos como chocolate quente mais brilhantes que eu já tinha visto.
"Aaaaaahhhh!" - Um gritinho longo, fino e estridente me fez deixar as cerejas sobre a pia antes de colocá-las sobre o chantily da torta e dar uma olhadinha para o jardim e abrir um sorriso ao ver a Alice empurrando gentilmente a Bela no balanço que havíamos pendurado na árvore. Eu voltei a pegar as cerejas sorrindo e pensando em como a vida tinha mudado e como ela tinha reservado uma felicidade tão grande para mim.
Eu não precisei voltar a abrir mão do meu trabalho para realizar nada na minha vida. O Érick me apoiava incondicionalmente e me incentivava. Ele dizia que eu podia fazer tudo o que eu quisesse e simplesmente não fazer absolutamente nada se eu quisesse. Ele cumpria diariamente a sua promessa de ser um pai presente e um excelente pai, ele era um marido amoroso e atencioso e ele era um parceiro de negócios desafiador. Talvez por isso o Grupo Albelini estivesse no topo do mercado financeiro, operando a pleno vapor, enquanto a Marcelina e eu nos consolidamos de vez como as executivas mais respeitadas do mercado.
E falando em Marcelina, ela voltou a estudar e se formou em administração, dizia que não quertia ficar por baixo dos engravatados por causa de um pedaço de papel. Porém, mesmo sem o papel ela devorava os engravatados. E ela finalmente havia cedido ao rostinho bonito do Julian e eles se casaram, mas só depois que o Julian aprendeu quem ditava as regras, conforme ela fazia questão de dizer.
Mas a Marcelina e o Julian não foram os únicos a se entenderem de vez nesse período. A Amália foi promovida a assistente do Andrey e, entre disfarces e flagras hilários, o clima era divertidíssimo nos bastidores da holding. Eles acabaram engatando um relacionamento que nos entretia durante as reuniões exaustivas do Conselho. O Andrey agora dividia a rotina com a sua amalucada assistente que continuava imune ao mau humor dos diretores, garantindo com risadas que ninguém a demitiria. E não demitiria mesmo!
O Balthazar tinha se mudado de vez e se instalado como consultor especial da holding. Ele também lidava com os negócios da D. Heloísa e os investimentos da minha Dalvinha que pareciam prosperar muito bem. Ele era cliente assíduo da Infernal e eu desconfiava que ele estava de olho em alguma capetinha por lá.
E lá na Infernal as coisas não andavam muito diferentes. A Adelaide, a Verônica e a Victória ficaram conhecidas como "as três bruxas da boate Infernal" e continuavam pagando pelos seus pecados servindo mesas e lavando copos na cozinha. Nenhuma delas conseguiu fisgar um homem rico, a Adelaide atrapalhava sempre ed as três acabavam brigando no camarim a ponto dos seguranças precisarem separá-las. E como o Simão continuava preso e acabado, as garras da inveja delas já não nos alcançavam mais. Outro que também não me alcançava mais era o Carlos Eduardo e os amiguinhos dele, ele foi condenado por vários crimes e ficaria muitos anos preso, assim como o advogado que o acobertava. Eu sentia o gosto da justiça ter sido feita nas raras vezes em que me lembrava daquele bandido.
Mas o que importava era que no final, as boas capetinhas acabaram recebendo uma segunda chance pelas mãos da D. Heloísa Albelini. Foi assim comigo, com a Marcelina e com a Morgana. Aquela mulher era uma visionária e quando mandou a Morgana para a casa da D. Débora, ela não estava apenas mandando uma dama de companhia para a minha querida D. Cecília, que continuava me chamando de sua "antinha preferida", já que a Morgana não estava na categoria das suas antas porque era a "miga, sua lôca". Mas a D. Heloísa havia rastreado toda a vida do Lucas, ela o conhecia muito bem e a Morgana me contou que quando a D. Heloísa a tirou da boate ela disse exatamente: "você é o desequilíbrio perfeito para aquela casa". A Morgana não entendeu de início o que a D. Heloísa quis dizer, mas depois a própria senhora contou que sabia que o Lucas precisava de uma sacodida e que a Morgana era perfeita para isso. E era mesmo, tão perfeita que o Lucas não teve chance, foi beijado como uma donzela e recebeu um ultimato irresistível da Morgana. Eles haviam transformado a casa da D. Débora em um lar de muito afeto e confusão. Os dois viviam em uma guerra deliciosa, com a Morgana dando um baile na paciência do médico, e o Lucas tentando colocá-la em uma bolha de proteção e cuidado. A D. Cecília, esta andava radiante, já tricotando os casaquinhos para os bisnetinhos que viriam.
Eu sorri para mim mesma ao pensar em mais crianças vindo para os almoços de domingo ou os sábados na piscina na nossa casa e terminei de colocar as cerejas na torta. Eu ergui a bandeja com o doce. Estava lindo, era o preferido da Alice. Eu saí pela varanda e coloquei o doce sobre a mesa, observando a tarde de sábado se desenrolar com toda a família ao redor da piscina.
A Dona Heloísa e a minha fiel Dalva estavam sentadas de frente para o canteiro de margaridas, erguendo as suas xícaras de chá com movimentos lentos e solenes, apreciando a vida que se desenrolava sob seus olhos atentos. As duas avós corujas haviam acabado de voltar de mais uma viagem, um cruzeiro pelo Mar Mediterrâneo que ela estavam jurando tornar a fazer em breve. Eu me sentia completamente feliz por ver a minha Dalvinha vivendo coisas tão maravilhosas e tendo um descanso merecido. Ela dizia que quando abriu a porta dela para mim, estava recebendo uma gatinha da sorte, porque eu mudei a vida dela, da Marcelina e do Mariano. Ah, esse estava brilhando pelos tribunais, com fama e reconhecimento. A vida dele e do pai havia mudado completamente, mas ele não esqueceu de onde veio e manteve um escritório na vila, atendendo gratuitamente quem precisava.
- O que você tanto olha nessa varanda, Sra. Albelini? - A voz rouca do Érick soprou perto do meu ouvido, quebrando o meu transe.
Senti os braços rígidos dele envolverem a minha cintura por trás, colando o seu peito largo contra as minhas costas, e respirei fundo o cheiro dele que me fazia flutuar nas nuvens. Girei o rosto devagar e encarei aqueles olhos azuis que me arrancavam o juízo, exibindo o meu melhor meio sorriso convencido.
- Estou apenas olhando para as pessoas que importam, Albelini. - Eu respondi num sussurro, acariciando os dedos dele. - Olhando para o tamanho da felicidade que nós construímos. O nosso paraíso. Aliás, quando o Alberto volta? Eu sinto falta dele!
- As férias do seu protetor acabam exatamente amanhã. Na segunda ele estará de volta e eu tenho certeza que vai encher você e as crianças de chocolates.
- Ah, nossos filhos amam o Tio Beto! - Eu falei orgulhosa.

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