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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 52

"Lorena"

O silêncio daquela suíte luxuosa era uma tortura. As paredes pareciam se fechar ao meu redor, lembrando-me, a cada segundo, que eu não pertencia àquele mundo. Eu era apenas um peão de xadrez movida por um mestre que já se cansou do jogo. Para piorar, eu estava imaginando o cheiro dele, bastava eu me deitar que eu sentia o cheiro da colônia cara permeando a minha mente.

Na noite de quarta feira, o veneno destilado pela Adelaide tinha sido o golpe final na minha resistência. Eu tinha descido à cozinha para buscar um copo de leite para Alice, que não conseguia dormir porque sentia falta do pai. Eu esperava encontrar a casa deserta, mas a governanta estava lá, vigiando as sombras como uma ave de mau agouro.

- Ainda acordada, senhorita Valente? - Ela não se virou, mas a sua voz cortou o ar como uma lâmina em minha direção.

- Só vim buscar algo para a Alice, Adelaide. - Eu respondi, tentando manter a voz firme e calma, embora eu quisesse muito gritar com aquela mulher.

- Sei. Aproveite enquanto dura. - Ela se virou devagar, um sorriso triunfante e cruel nos seus lábios finos. - Se bem que eu acho que o patrão já se cansou da novidade. Afinal, ele não fica mais em casa, não é?! Talvez esteja esperando só que a menina também se canse para tomar providências e você sabe como as crianças são volúveis.

Eu senti o ar fugir dos meus pulmões. O nó na minha garganta apertou tanto que doía.

- Você não sabe do que está falando. - Eu sussurrei.

- Sei exatamente. - Ela deu um passo à frente, os olhos brilhando com o prazer da minha humilhação. - Note como ele sai cedo. Ele mal suporta respirar o mesmo ar que você à mesa. Ele já conseguiu o que queria de você. Agora, ele está lá fora, buscando diversão de verdade. Homens como ele não se prendem a babás... sem graça.

A Adelaide saiu da cozinha cantarolando. As palavras dela foram como um tapa no meu rosto. Eu pensei no cartão que ele havia deixado para a Scarlat com um "me liga, quero te ver fora da boate". Pensei no maldito envelope de dinheiro que eu já estava a ponto de jogar no lixo. A Adelaide estava certa? Para a Scarlet ele cedia; com ela, ele passou a noite; a ela, ele queria ver de novo. Enquanto eu... eu virei só um incômodo. E para piorar, eu tinha dado a ele a Scarlat na sexta feira. Eu tinha competido com a minha própria sombra e perdido de forma humilhante.

Eu subi as escadas me sentindo suja e descartável. Chorei escondida no closet, tentando entender como eu tinha me deixado envolver tanto por um homem que me via apenas como um "entretenimento" para uma noite de tédio. E até ri, porque ele tinha razão, eu não sabia escolher os homens com os quais me envolvia, foi o que ele disse sobre o Carlos Eduardo, que eu tinha escolhido mal e pelo visto essa era a minha maldição.

A Alice me encontrou chorando, e o fato de ela ter visto minha fraqueza só me fez sentir pior. Eu tentei disfarçar, tentei sorrir, mas ela me olhou com os olhinhos tristes.

- Lolô, você está com medo? - Ela se sentou no meu colo e colocou a mãozinha no meu rosto.

- Um pouquinho.

- Não fica com medo. Eu cuido de você!

- Obrigada, querida! - Eu dei um beijo na testa dela. - E você, porque está acordada?

- Eu estou com saudade do papai. Eu queria esperar ele chegar lá no quarto dele, mas eu não quero te deixar sozinha.

- Ah, minha menina! Vamos fazer assim, você vai e se eu precisar eu te chamo e você vem depressa. - Eu sugeri e ela balançou a cabeça discordando.

- Vem comigo, Lolô, vamos esperar o papai chegar. - Ela pediu. - Se você não for eu não vou. E eu estou com muita saudade dele.

- Papaaaiii! - A Alice pulou no pescoço dele e ele acolheu a filha em um abraço terno. Mas os seus olhos estavam presos a mim.

Ele soltou a Alice e ela se sentou ao lado dele.

- Bom dia, Lorena. - A voz dele saiu com um tom mais baixo, até um pouco mais leve.

- Bom dia, senhor. - Eu abaixei os olhos e me sentei ao lado da Alice. Eu percebi a Adelaide muito atenta a tudo ali.

- Adelaide, pode se retirar. - A voz do Érick não permitia discussão, era um comando claro.

O café da manhã transcorreu em um silêncio confortável. Ele não me repreendeu nenhuma vez. Mesmo assim, quando a Alice terminou o café eu respirei aliviada, por poder sair de perto dele. Aquilo era uma tortura e eu não sabia como ia lidar com ele.

A Alice se despediu do pai e nós subimos para escovar os dentes e pegar a mochila, quando descemos as escadas ele estava parado lá, ao pé da escada e pegou a mochila das minhas mãos.

- Hoje eu vou acompanhá-las até a escola. - Ele avisou com um sorriso.

Enquanto a Alice festejava a atenção do pai, eu sentia o meu coração disparado e o desespero de não saber o que aquilo significava. Provavelmente ele se livraria de mim na volta.

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