"Lorena"
O silêncio daquela suíte luxuosa era uma tortura. As paredes pareciam se fechar ao meu redor, lembrando-me, a cada segundo, que eu não pertencia àquele mundo. Eu era apenas um peão de xadrez movida por um mestre que já se cansou do jogo. Para piorar, eu estava imaginando o cheiro dele, bastava eu me deitar que eu sentia o cheiro da colônia cara permeando a minha mente.
Na noite de quarta feira, o veneno destilado pela Adelaide tinha sido o golpe final na minha resistência. Eu tinha descido à cozinha para buscar um copo de leite para Alice, que não conseguia dormir porque sentia falta do pai. Eu esperava encontrar a casa deserta, mas a governanta estava lá, vigiando as sombras como uma ave de mau agouro.
- Ainda acordada, senhorita Valente? - Ela não se virou, mas a sua voz cortou o ar como uma lâmina em minha direção.
- Só vim buscar algo para a Alice, Adelaide. - Eu respondi, tentando manter a voz firme e calma, embora eu quisesse muito gritar com aquela mulher.
- Sei. Aproveite enquanto dura. - Ela se virou devagar, um sorriso triunfante e cruel nos seus lábios finos. - Se bem que eu acho que o patrão já se cansou da novidade. Afinal, ele não fica mais em casa, não é?! Talvez esteja esperando só que a menina também se canse para tomar providências e você sabe como as crianças são volúveis.
Eu senti o ar fugir dos meus pulmões. O nó na minha garganta apertou tanto que doía.
- Você não sabe do que está falando. - Eu sussurrei.
- Sei exatamente. - Ela deu um passo à frente, os olhos brilhando com o prazer da minha humilhação. - Note como ele sai cedo. Ele mal suporta respirar o mesmo ar que você à mesa. Ele já conseguiu o que queria de você. Agora, ele está lá fora, buscando diversão de verdade. Homens como ele não se prendem a babás... sem graça.
A Adelaide saiu da cozinha cantarolando. As palavras dela foram como um tapa no meu rosto. Eu pensei no cartão que ele havia deixado para a Scarlat com um "me liga, quero te ver fora da boate". Pensei no maldito envelope de dinheiro que eu já estava a ponto de jogar no lixo. A Adelaide estava certa? Para a Scarlet ele cedia; com ela, ele passou a noite; a ela, ele queria ver de novo. Enquanto eu... eu virei só um incômodo. E para piorar, eu tinha dado a ele a Scarlat na sexta feira. Eu tinha competido com a minha própria sombra e perdido de forma humilhante.
Eu subi as escadas me sentindo suja e descartável. Chorei escondida no closet, tentando entender como eu tinha me deixado envolver tanto por um homem que me via apenas como um "entretenimento" para uma noite de tédio. E até ri, porque ele tinha razão, eu não sabia escolher os homens com os quais me envolvia, foi o que ele disse sobre o Carlos Eduardo, que eu tinha escolhido mal e pelo visto essa era a minha maldição.
A Alice me encontrou chorando, e o fato de ela ter visto minha fraqueza só me fez sentir pior. Eu tentei disfarçar, tentei sorrir, mas ela me olhou com os olhinhos tristes.
- Lolô, você está com medo? - Ela se sentou no meu colo e colocou a mãozinha no meu rosto.
- Um pouquinho.
- Não fica com medo. Eu cuido de você!
- Obrigada, querida! - Eu dei um beijo na testa dela. - E você, porque está acordada?
- Eu estou com saudade do papai. Eu queria esperar ele chegar lá no quarto dele, mas eu não quero te deixar sozinha.
- Ah, minha menina! Vamos fazer assim, você vai e se eu precisar eu te chamo e você vem depressa. - Eu sugeri e ela balançou a cabeça discordando.
- Vem comigo, Lolô, vamos esperar o papai chegar. - Ela pediu. - Se você não for eu não vou. E eu estou com muita saudade dele.



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