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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 51

"Érick"

A segunda feira, para mim, começou antes do sol nascer. Eu não tinha dormido e também não podia encarar Lorena à mesa do café, não depois de ter buscado na Scarlat um alívio que só me trouxe mais confusão e depois dormido na cama da Lorena, imerso no seu cheiro. Eu saí de casa às seis da manhã, deixando para trás um bilhete curto e frio na cozinha para a Adelaide: "Reuniões externas o dia todo. Não volto para o jantar."

Eu passei o dia em um ciclo frenético de reuniões, mas a minha mente estava a quilômetros dali. Eu via o rosto da Lorena em cada mulher que cruzava o meu caminho. À noite, arrastei o máximo que pude o meu retorno. Quando finalmente estacionei o carro, a mansão estava na penumbra.

E eu repeti a mesma programação na terça feira, passando horas trancado na minha sala, mergulhado no trabalho e na auto piedade. Na quarta eu já estava sobrevivendo a café e mau humor. Eu não dormia bem, eu mal comia e eu estava ignorando até o Julian. A babá não saía da minha cabeça e a única pessoa que poderia me ajudar a parar de pensar na Lorena ainda não tinha tido a cortesia de me ligar.

Eu encarava o meu celular pessoal sobre a mesa de mogno do escritório como se ele fosse um explosivo prestes a detonar. Eu tinha deixado o meu número direto, aquele que apenas sócios, a família e a Lorena possuíam, no armário da Scarlat. Eu tinha deixado o maldito envelope com o dinheiro de novo e um convite explícito. E o que recebi? Nada. O silêncio absoluto de uma mulher que, no reservado, agia como se eu fosse o único que a fazia perder a cabeça. Não bastasse a Lorena me ignorar, agora a garçonete também ignorava.

Aquela maldita garçonete estava brincando comigo. Ela sabia o poder que tinha e estava usando a ausência como uma coleira, apertando o meu pescoço a cada hora que passava sem uma notificação, sem um sinal de vida.

- Quem ela pensa que é? - Eu rosnei para as paredes, jogando a caneta de ouro sobre a mesa.

Minha frustração com Scarlat, no entanto, era apenas metade do meu inferno. A outra metade morava no quarto ao lado do meu e atendia pelo nome de Lorena.

Desde a noite de domingo, eu vinha praticando uma tática de retirada. Eu não conseguia encará-la e ela parecia estar feliz com as coisas desse jeito... ou teria me procurado... teria me ligado naquele mesmo maldito telefone! Mas o silêncio era uma declaração alta e clara: "fique longe". E a cereja do bolo era a Alice continuar dormindo no quarto dela. Talvez fosse melhor esquecer essas duas mulheres, desde que elas entraram na minha vida eu não era mais o mesmo.

Na quarta feira jà passava da meia noite quando eu entrei no meu quarto exausto, com o gosto do uísque barato da recepção de negócios ainda na boca. Eu odiava aqueles eventos corporativos, mas o Julian me convenceu a ir, já que eu ia ficar no escritório até mais tarde.

Eu entrei no meu quarto pronto para desabar na cama, talvez eu até dormisse esta noite, mas ao acender a luminária de cabeceira, eu paralisei. Havia um volume pequeno sob as minhas cobertas. A Alice estava dormindo na minha cama, abraçada ao meu travesseiro. O meu coração apertou, eu não passava tanto tempo longe dela. Eu tomei um banho e me deitei ao lado da minha filha.

A tranquilidade dela me fez relaxar, isso e o cheiro de coco que parecia impregnado nos lençóis, mas talvez fosse só a minha filha que tivesse usado o perfume da babá. Não me importava de onde vinha o cheiro, eu apenas fechei os olhos e caí num sono profundo.

Na manhã seguinte, eu senti um peso suave no meu peito. Abri os olhos e dei de cara com aqueles olhinhos azuis da minha filha me encarando. Ela estava deitada sobre mim, esperando que eu acordasse.

- Papai? Por que você saiu escondido todos os dias? Está bravo comigo? - Ela perguntou, com um biquinho de mágoa que me partiu o coração.

- Não, pequena. O papai teve muito trabalho. Mas eu senti muito a sua falta!

A Alice me deu um abraço apertado, o cheirinho de sabonete infantil me trazendo de volta à realidade. Eu não podia ignorar a minha casa, a minha filha precisava de mim. E ela adorava a babá. Eu teria que encontrar um meio de lidar com aquilo.

- Eu também senti saudade. Tanta que eu pedi a Lolô pra gente dormir aqui. Por que ela não está aqui papai? Ontem ela estava!

A pergunta da Alice me dava a resposta para o cheiro de coco na minha cama. Ela realmente esteve ali.

- Ah, pequena, ela deve ter esperado você dormir e foi dormir no quarto dela.

Eu tentei explicar, mas os olhinhos espertos da minha filha diziam que ela não estava convencida. Ela se sentou na cama e cruzou os bracinhos me encarando.

- Papai, você mandou a Lolô para o quarto dela? - Ela me perguntou severamente.

- Quando eu cheguei ela não estava aqui, pequena.

- Mas como a gente faz isso?

- Eu vou pensar em alguma coisa. Mas que tal você copmeçar correndo até lá e dando um beijo de bom dia nela? - Eu sugeri e ela concordou, me deu um beijo e pulou da cama.

Mas quando ela já estava chegando à porta ela se virou e voltou até mim.

- Você precisa sair correndo para o trabalho? - Ela perguntou com os olhos baixos.

- Não, pequena, eu vou tomar o café da manhã com vocês.

Ela ergueu o rosto e me deu um sorrisinho que era como um pequeno sol. Eu a puxei para um abraço que eu precisava mais do que ela.

- Senti sua falta. - Eu declarei mais uma vez.

- Eu também! Mas hoje você volta cedo, né?

- Agora vai acordar a Lolô com um abraço desses. - Eu sussurrei e ela saiu correndo.

Aquilo não estava dando certo, estávamos todos infelizes e a culpa era minha. Eu ia parar de ferir a mim mesmo e a quem me importava. Eu não podia obrigar a Scarlat a me ligar, mas eu podia obrigar a Lorena a me enxergar de novo. Eu ia mudar a estratégia. Se ela tinha medo do luxo frio que eu dei a ela, eu ia aquecer aquela suíte até que ela não tivesse mais para onde escapar... até que ela não quisesse mais escapar.

Na manhã de quinta feira, eu não saí às seis. Eu esperei. Tomei um banho demorado, vesti meu melhor terno e desci para o café. Eu não seria o "predador" que ataca na calada da noite. Eu seria o homem que ela não poderia ignorar à luz do dia.

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