"Érick"
A segunda feira, para mim, começou antes do sol nascer. Eu não tinha dormido e também não podia encarar Lorena à mesa do café, não depois de ter buscado na Scarlat um alívio que só me trouxe mais confusão e depois dormido na cama da Lorena, imerso no seu cheiro. Eu saí de casa às seis da manhã, deixando para trás um bilhete curto e frio na cozinha para a Adelaide: "Reuniões externas o dia todo. Não volto para o jantar."
Eu passei o dia em um ciclo frenético de reuniões, mas a minha mente estava a quilômetros dali. Eu via o rosto da Lorena em cada mulher que cruzava o meu caminho. À noite, arrastei o máximo que pude o meu retorno. Quando finalmente estacionei o carro, a mansão estava na penumbra.
E eu repeti a mesma programação na terça feira, passando horas trancado na minha sala, mergulhado no trabalho e na auto piedade. Na quarta eu já estava sobrevivendo a café e mau humor. Eu não dormia bem, eu mal comia e eu estava ignorando até o Julian. A babá não saía da minha cabeça e a única pessoa que poderia me ajudar a parar de pensar na Lorena ainda não tinha tido a cortesia de me ligar.
Eu encarava o meu celular pessoal sobre a mesa de mogno do escritório como se ele fosse um explosivo prestes a detonar. Eu tinha deixado o meu número direto, aquele que apenas sócios, a família e a Lorena possuíam, no armário da Scarlat. Eu tinha deixado o maldito envelope com o dinheiro de novo e um convite explícito. E o que recebi? Nada. O silêncio absoluto de uma mulher que, no reservado, agia como se eu fosse o único que a fazia perder a cabeça. Não bastasse a Lorena me ignorar, agora a garçonete também ignorava.
Aquela maldita garçonete estava brincando comigo. Ela sabia o poder que tinha e estava usando a ausência como uma coleira, apertando o meu pescoço a cada hora que passava sem uma notificação, sem um sinal de vida.
- Quem ela pensa que é? - Eu rosnei para as paredes, jogando a caneta de ouro sobre a mesa.
Minha frustração com Scarlat, no entanto, era apenas metade do meu inferno. A outra metade morava no quarto ao lado do meu e atendia pelo nome de Lorena.
Desde a noite de domingo, eu vinha praticando uma tática de retirada. Eu não conseguia encará-la e ela parecia estar feliz com as coisas desse jeito... ou teria me procurado... teria me ligado naquele mesmo maldito telefone! Mas o silêncio era uma declaração alta e clara: "fique longe". E a cereja do bolo era a Alice continuar dormindo no quarto dela. Talvez fosse melhor esquecer essas duas mulheres, desde que elas entraram na minha vida eu não era mais o mesmo.
Na quarta feira jà passava da meia noite quando eu entrei no meu quarto exausto, com o gosto do uísque barato da recepção de negócios ainda na boca. Eu odiava aqueles eventos corporativos, mas o Julian me convenceu a ir, já que eu ia ficar no escritório até mais tarde.
Eu entrei no meu quarto pronto para desabar na cama, talvez eu até dormisse esta noite, mas ao acender a luminária de cabeceira, eu paralisei. Havia um volume pequeno sob as minhas cobertas. A Alice estava dormindo na minha cama, abraçada ao meu travesseiro. O meu coração apertou, eu não passava tanto tempo longe dela. Eu tomei um banho e me deitei ao lado da minha filha.
A tranquilidade dela me fez relaxar, isso e o cheiro de coco que parecia impregnado nos lençóis, mas talvez fosse só a minha filha que tivesse usado o perfume da babá. Não me importava de onde vinha o cheiro, eu apenas fechei os olhos e caí num sono profundo.
Na manhã seguinte, eu senti um peso suave no meu peito. Abri os olhos e dei de cara com aqueles olhinhos azuis da minha filha me encarando. Ela estava deitada sobre mim, esperando que eu acordasse.
- Papai? Por que você saiu escondido todos os dias? Está bravo comigo? - Ela perguntou, com um biquinho de mágoa que me partiu o coração.
- Não, pequena. O papai teve muito trabalho. Mas eu senti muito a sua falta!
A Alice me deu um abraço apertado, o cheirinho de sabonete infantil me trazendo de volta à realidade. Eu não podia ignorar a minha casa, a minha filha precisava de mim. E ela adorava a babá. Eu teria que encontrar um meio de lidar com aquilo.
- Eu também senti saudade. Tanta que eu pedi a Lolô pra gente dormir aqui. Por que ela não está aqui papai? Ontem ela estava!
A pergunta da Alice me dava a resposta para o cheiro de coco na minha cama. Ela realmente esteve ali.
- Ah, pequena, ela deve ter esperado você dormir e foi dormir no quarto dela.
Eu tentei explicar, mas os olhinhos espertos da minha filha diziam que ela não estava convencida. Ela se sentou na cama e cruzou os bracinhos me encarando.
- Papai, você mandou a Lolô para o quarto dela? - Ela me perguntou severamente.
- Quando eu cheguei ela não estava aqui, pequena.


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