"Lorena"
O trajeto até a escola foi uma tortura em todos os sentidos. O espaço confinado do carro parecia saturado pelo perfume do Érick. Mas não era só o perfume, a confiança com que ele fazia tudo, a aura de poder em torno dele, aquela sominância que ele exercia mesmo em silêncio. Eu me encolhi contra a porta do carona, observando pelo canto dos olhos as suas mãos grandes e firmes no volante, as veias levemente saltadas sob os punhos da camisa branca impecável, a elegância de cada gesto dele.
Entre nós o ar parecia rarefeito e havia uma eletricidade que fazia minha pele arrepiar. A Alice tagarelava no banco de trás, alheia à eletricidade estática que faiscava, pronta para incendiar o estofamento de couro entre nós dois. O Érick respondia a ela com uma suavidade que eu não conhecia e era fascinante ver aquele homem que exalava poder e controle em cada poro se desmanchar com aquela garotinha. E mesmo estando atento ao trânsito e à filha, de vez em quando, pelo canto do olho, eu sentia o peso do olhar dele em mim. Um olhar que não parecia de desprezo, mas era... cauteloso?
Quando saímos do carro próximo ao portão da escola, eu peguei a mão da Alice, enquanto o Érick pegava a mochila. Ela estava radiante com a atenção do pai e o meu coração se encheu de alegria por ela. Quando nos aproximamos do portão, o professor da Alice, já estava lá. Ele sorriu ao nos ver e caminhou em nossa direção com aquela leveza de quem não tem um império para carregar nos ombros e não sente que tem que controlar o mundo.
- Bom dia, Alice! Bom dia, Lorena! - O Renato falou alegremente e abriu um sorriso que foi morrendo aos poucos quando seus olhos encontraram os de Érick atrás de nós. - Ah... Sr. Albelini. Não esperava vê-lo por aqui hoje.
Foi como se a temperatura baixasse uns dez graus. O Érick não respondeu de imediato, ele deu os passos que faltava até parar ao meu lado, colocando uma mão possessiva no meu ombro enquanto entregava a mochila para a Alice, que ficou à frente dele.
- Não se surpreenda, professor, o senhor vai me ver aqui mais vezes. Eu decidi que a minha filha e a minha babá merecem mais atenção de minha parte. - O Érick deu ênfase à palavra "minha", enquanto seus olhos queimavam no Renato.
O tom de Érick era cordialmente perigoso, havia até aquele esboço de sorriso frio no canto da boca. O Renato não se intimidou, deu um sorriso nada amistoso e se virou para mim.
- Claro. Lorena, você recebeu a minha mensagem sobre o material extra da Alice? Me desculpe pelo atrevimento, mas eu tomei a liberdade de pegar o seu número na diretoria, eu me esqueci completamente de mandar o bilhete na agenda da Alice. - O Renato tentou ignorar o gigante ao meu lado, focando em mim, mas aquilo pareceu uma provocação deliberada.
Antes que eu pudesse responder, a mão do Érick no meu ombro apertou levemente, um aviso silencioso. Ele não estava disposto a tolerar a provocação do professor.
- Ela recebeu. Eu mesmo cuidarei disso. Mais alguma coisa, professor? - O Érick respondeu friamente.
- Não, Sr. Albelini, era apenas isso... sobre a Alice. - O Renato respondeu e se virou para mim. - Lorena, agora que tenho o seu número, posso te ligar para te convidar para um café no fim de seman? Imagino que seja a sua folga.
- Mas esta escola está uma bagunça mesmo! - Ao meu lado o Érick bufou e revirou os olhos. - Não professor, o senhor não pode ligar para a Lorena, isso é assédio. Aliás, o senhor nem deveria ter tido a audácia de pegar o número dela na diretoria.
- Sr. Albelini, me desculpe, mas não é o senhor quem decide se eu posso ou não ligar para ela. - O Renato era um homem mais leve que o Érick, mas era igualmente atrevido e aquilo não ia terminar bem.
- Professor, me desculpe, mas o senhor está sendo inconvenientemente insistente. Está sempre cercando a Lorena. Não acha que se ela realmente quisesse que o senhor ligasse para ela ou a convidasse para algo ela mesma já não teria lhe dado o número? - O Érick encarou o professor com uma antipatia declarada.
- Alice, querida, vamos entrar, você não pode se atrasar. - Eu me desvencilhei da mão do Érick nop meu ombro, que se abaixou e deu um beija no filha, e levei a menina até o portão da escola.
- Lolô, o papai está bravo com o professor Renato. E eu também estou. Não quero que ele fique te convidando para ir para o mato ou para tomar café. - A Alice falou muito séria e baixinho quando eu me abaixei para me despedir.
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