"Lorena"
No fim do dia nós fizemos o trajeto de volta para a cidade, a luz do sol de fim de tarde inundava o carro e a estrada em tons de dourado que fazia tudo parecer um sonho, mas, para mim, cada quilômetro percorrido em direção à casa dele parecia o avanço de uma contagem regressiva para voltar a uma realidade onde o que aconteceu entre nós não podia existir.
O Érick dirigia com uma mão no volante e a outra entrelaçada na minha, os dedos dele acariciando os meus com uma calma que eu não possuía. Meu coração mal cabia no peito, mas, apesar de termos nos entendido e passado o dia juntos, nós não conversamos sobre o que seria daqui para frente, na verdade não conversamos sobre nada importante.
- Lorena, sobre a Adelaide... - Ele começou, a voz rouca quebrando o silêncio confortável. - Assim que chegarmos eu vou deixar claro que as coisas mudaram. Não quero você se escondendo pelos cantos da minha própria casa como tem feito, fugindo dela como se tivesse cometido um crime.
- Não! - O pânico saltou na minha garganta e quando. Eu respirei fundo. - Por favor, Érick, agora não. Até porque não vai mudar a forma como ela me trata quando você não está vendo.
Ele franziu a testa, desviando o olhar da estrada por um segundo.
- Por que não? A Adelaide é muito competente, mas eu não vou permitir que ela continue te tratando mal. Ou que se intrometa nos meus assuntos. - Ele falou com firmeza.
- Érick, pensa na Alice. É melhor mantermos isso em segredo. - Eu me apressei. - Ela é sensível. Se ela perceber algo e nós... se nós não soubermos para onde isso está indo, ela vai criar expectativas. Vamos manter isso entre nós, como o nosso segredo, pelo menos por um tempo. Por favor?
Ele suspirou, mas acabou beijando as costas da minha mão em sinal de trégua.
- Tudo bem. Pela Alice. Mas não pense que eu esqueci o que a Adelaide te disse. De qualquer forma eu vou falar com ela, ela não pode tratar nenhum funcionário assim. - Ele respirou fundo e pensou por um momento. - Quer saber, eu vou contratar outra babá.
Eu arregalei os olhos. Nós ainda nem havíamos entrado na cidade, não era possível que os problemas já estavam começando.
- Ou-outra babá? Por que? - Minha voz saiu aguda demais. Só de pensar em ficar longe da Alice eu já sentia o coração apertar.
- Ei, calma! - Ele falou com a voz apaziguadora. - Lorena, você não é babá, você é uma contadora competente. Eu falo com o Julian e te coloco na minha empresa como contadora.
- Mas eu não quero! Eu quero cuidar da Alice. - Eu não queria mais ser contadora, eu queria ser a babá, queria cuidar daquela menininha.
Ele parou o carro no acostamento e se virou para mim.
- Por que você quer continuar cuidando da Alice? - Ele perguntou como se fosse impossível entender. - Eu estou te oferecendo um cargo, na sua área, com um salário muito melhor.
- Eu não quero. Eu quero ficar com ela. - Minha voz estava embargada pelo medo de ser afastada da minha menina. - Eu amo aquela garotinha, Érick, e isso não tem nada a ver com você. Ela precisa de alguém que esteja lá com ela todos os dias como a mãe não pôde estar. Eu sei que eu não vou substituir a mãe dela e não é isso que eu quero, mas eu quero estar ao lado dela, cuidar dela e protegê-la. Você não pode estar lá o tempo todo, mas eu posso e quero. Me deixa continuar cuidando dela. Eu não estou pedindo permissão para ser contadora, Érick. Estou dizendo que meu lugar é ao lado da sua filha.
- Você a ama tanto assim? Que é capaz de abrir mão da sua profissão para ficar com ela? - A pergunta dele veio cheia de surpresa.
- Eu deixei a contabilidade por muito menos. Mas sim, eu amo tanto que largaria até você por ela. - Eu falei me enchendo de coragem.
- Está me largando fácil demais, Srta. Valente. - A constatação dele veio com um sorriso que me fez rir junto com ele. - Obrigado!
- Pelo quê? Por dizer que existe uma pessoa no mundo capaz de me tirar de você? - Eu brinquei e o sorriso dele ficou bem grande.


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