"Lorena"
Eu desci as escadas o mais rápido que pude, fugindo do peso daqueles olhos azuis que ainda pareciam queimar minhas costas. Eu estava meio bêbada, mas precisava andar depressa, eu precisava me recompor e ficar longe daquele camarote. As notas de cem no meu decote pareciam pesar uma tonelada, um lembrete físico de que eu tinha deixado o controle escapar, eu ainda sentia o roçar dos dedos dele queimando na minha pele.
Eu voltei depressa para o camarim, estava ofegante, com o gosto dele na minha boca e o cheiro de absinto e da colônia cara daquele homem impregnados em mim. Eu me olhei no espelho e odiei o que eu vi ali, a máscara criada pela maquiagem e a peruca, o escudo de proteção da "Scarlat", havia rachado pela primeira vez.
Eu tirei apressada as notas que estavam no meu decote e no cós da minha saia, me sentindo suja com aquele dinheiro. Eu precisava do dinheiro, mas eu não estava a venda. E foi então que eu decidi, eu não poderia voltar àquele camarote. Eu guardei o dinheiro em um envelope e joguei dentro do meu armário, saí do camarim decidida a encontrar o Barão e pedir para ser substituída naquele camarote, de toda forma eu já tinha feito os ricaços abrirem as carteiras. E assim que eu saí eu esbarrei no próprio Barão.
- Scarlat, você foi sensacional! Pode ir pra casa. - Ele nem parou para me ouvir, simplesmente me mandou para casa e continuou andando, me deixando na mais completa confusão, encostada numa pilastra sentindo a cabeça girar.
Eu fechei os olhos por um segundo, tentando afastar o gosto de absinto da memória e sentir alívio por poder sair dali, mas o ar ao meu redor mudou. O barulho da boate pareceu abafado e, antes que eu pudesse abrir as pálpebras, o calor de um corpo recém conhecido colou nas minhas costas.
- Vou te dizer uma coisa, Scarlat... - A voz dele soou na minha nuca e fez todo o barulho da boate desaparecer. Eu senti a pressão do peito dele contra as minhas costas, me prendendo entre o mármore frio e o calor invasivo do seu corpo. - Para mim, as regras são apenas sugestões. Você prometeu a queimação do inferno, mas me deixou passando frio naquele camarote.
Eu tentei me virar, mas o braço dele era como uma barra de ferro que me mantinha imóvel, presa sob o seu domínio.
- O seu dinheiro não pode comprar tudo, cavalheiro. Ele definitivamente não compra o meu tempo! - Eu respondi tentando manter a voz firme enquanto meu coração martelava no meu peito como se tentasse sair.
Eu ouvi a sua risada curta, rouca, extremamente sexy, bem rente ao meu ouvido e senti os pelos da minha nuca se eriçarem. Aquele homem parecia nunca desistir e eu precisava ser forte o suficiente para sair dali inteira.
- Eu ainda não me queimei o suficiente! Quero ver se o seu inferno é tão real quanto o fogo que você tem nos olhos. Ou a sua coragem acaba quando você solta a bandeja? - Ele sussurrou no meu ouvido e a sua respiração traçou um caminho de fogo sobre a minha pele.
- Eu entreguei o entretenimento que você pagou e... - Eu estava tentando me livrar dele, mas ele interrompeu o meu raciocínio deslizando as pontas dos dedos pela pele exposta do meu pescoço.
- Eu não estou aqui para negociar o contrato, Scarlat. Nem o tempo... - A voz dele caiu uma oitava, ficando ainda mais sedutora e perigosa. - Eu estou aqui porque você tinha razão sobre a minha sede... e você prometeu aplacá-la. Me sirva o seu último veneno, anfitriã. Faça de mim um condenado no seu inferno e eu prometo que você não vai queimar sozinha.
Ele depositou um beijo quente e úmido no meu ombro que fez com que eu esquecesse as minhas próprias regras e desejasse queimar no inferno com ele. Se aquelas sensações foram ampliadas pelo álcool em minhas veias ou pela proximidade daquele homem lindo e absurdamente sexy, eu não saberia responder, mas eu parei de resistir e deixei que ele me levasse dali.
No percurso rápido entre a boate e o hotel de luxo para onde me levou, o silêncio no carro tornava a atração que circulava entre nós ainda mais densa e fatal. E nenhuma palavra foi dita enquanto ele me guiava até a suíte que alugou ali, com o braço possessivamente ao redor da minha cintura.
Assim que entramos e a porta bateu atrás de mim, um sinal de que o mundo lá fora havia deixado de existir para nós pelo resto da noite e, assim que isso aconteceu, ele me virou para o seu peito e me beijou. Havia fome naquele beijo e o fogo crepitante do inferno parecia derreter os olhos azuis gélidos dele. Ele não me beijou, ele me reivindicou.
O corpo dele era uma parede de músculos movida por uma urgência que ressoava em mim. Aquele beijo não era um convite para a festa, era uma invasão primitiva, sem o polimento do homem de terno que passou a noite quase inatingível no camarote da boate.
Uma das mãos dele subiu para a minha nuca e agarrou os fios da minha peruca, puxando a minha cabeça levemente para trás, expondo o meu pescoço para ele, para a sua respiração quente e os seus lábios urgentes. Em sintonia com esse movimento, a sua outra mão agarrou a minha cintura com mais força e me suspendeu contra ele, como se quisesse que eu queimasse no seu fogo. Enquanto isso eu me agarrava aos seus ombros e emaranhava as pernas em torno do seu quadril.
O fogo ardia entre nós, prometido por mim, fazendo queimar por ele. O álcool nas minhas veias disparou com a adrenalina e eu já não era mais a mesma mulher, estava totalmente rendida ao domínio daquele homem. Cada toque dele era de um homem possessivo e dominante que sabia o que queria e pegava para si com uma audácia que poucos poderiam se dar ao luxo de ter.
O homem polido e controlado por baixo do terno sob medida saiu de cena para dar lugar a um homem de desejos primitivos e que sabia o que fazer com uma mulher. O gosto dele, o cheiro dele, cada toque da língua, eram pura luxúria e naquele momento eu sabia, a sede dele era implacável e ele podia até ter se rendido, mas o condenado ali não era ele, estávamos ambos presos naquele incêndio entre nós, consumidos por uma vontade que não aceitava trégua.
E ele tinha muito mais para dar. Antes que a última onda do prazer se quebrasse ele estava sobre mim, seu membro brincando na minha fenda antes de invadí-la.
- Me avise se for demais. - O pedido dele no meu ouvido me puxou de volta da névoa de prazer que ainda não tinha se dissipado e eu senti a ponta dele me invadir, me alargando como se não fosse caber, mas mesmo assim forçando a entrar.
E enquanto ele entrava devagar, quase como se quisesse me fazer implorar, foi como se ele expulsasse o ar dos meus pulmões. Era contato puro e um atrito que me fez jogar a cabeça para trás e ofegar. Eu queria mais, precisava de mais, dele todo.
- Eu estou queimando. Queime logo comigo! - Eu pedi com o claro intuito de que ele me tomasse por inteiro e ele compreendeu o meu pedido.
- Se é o que você quer. - Ele sussurrou para mim, se retirou quase que completamente e voltou a entrar, um movimento certeiro e rápido que bateu no fundo e me fez gritar. Aquela não era eu.
- Isso, Scarlat, me dê tudo! - Não era um pedido, era uma ordem.
Os movimentos dele eram pura perfeição, a pressão que ele colocava no meu corpo me deixava a beira do precipício do prazer e o ritmo dele era o mais delicioso dos pecados. Aquilo não era um homem, ele realmente era um deus intocável que resolveu se divertir com uma pobre mortal.
- Porra! Que delícia! O fogo nos seus olhos queima de verdade. - Ele rosnou entre os beijos ardentes que me roubavam o fôlego, enquanto eu gemia, inebriada naquele mar de sensações e sentindo o prazer me tocar novamente. - Goza comigo, Scarlat, me dê a dose final...
Foi como se eu tivesse entrado em um tsunami e não soubesse por onde estava sendo atingida. Meu corpo inteiro vibrou e estremeceu com o prazer que me rasgou em pedaços, enquanto ele engolia os meus gemidos altos e se entregava àquelas sensações comigo.
Eu me afundei nos lençóis, sentindo o peso do corpo dele sobre o meu e o silêncio da suíte finalmente substituir o caos da noite. Eu tinha dado a ele a dose que ele pediu, mas, enquanto o sono me vencia, uma dúvida gelada começou a brotar no lugar do calor: quem de nós dois tinha realmente sido o veneno naquela noite?

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