"Lorena"
Eu voltei para o camarote como o Barão ordenou, com uma garrafa de absinto, aquilo era uma extravagância. Eu passei de um por um, outra vez servindo uma dose dupla e os incentivando a virar o líquido. As reações de obediência e gorjetas altas para me impressionar variavam de um para o outro, mas a resposta era a mesma, um grupo empolgado e disposto a gastar fortunas.
E então eu cheguei ao último, o predador, que me provocou desde o primeiro instante. Ele era um galã clássico com a musculatura de um herói dos quadrinhos que ganhou vida. A mandíbula esculpida e os olhos de um azul intenso que pareciam duas piscinas de gelo focados nos meus como se me desafiassem outra vez, um silêncio carregado entre nós dois. Eu aceitei o duelo, me abaixei e o encarei com um sorriso gélido.
- Tem que beber de um só gole. - Eu o lembrei.
- Uma regra simples para uma noite tão complexa, Scarlat. - A voz dele era de comando, grave e aveludada, uma dicção perfeita, o ritmo calmo de quem detinha o controle da conversa.
- Parece simples, mas o segredo está na sua sede. Você parece ter sede de poder, mas eu acho que você tem sede mesmo é de algo que ainda não pôde comprar. - Eu o desafiei e sorri cinicamente.
- O dinheiro compra o tempo das pessoas, Scarlat. O que eu faço com ele depois... me permite ter tudo de que eu tenho sede! - Ele era um convencido.
- Bom, você não pode comprar o meu tempo, mas pode comprar os meus venenos.
Eu apontei para a garrafa e sorri com desdém da soberba dele, servi a dose dupla de absinto naquele copo de cristal. Então, eu o observei. Ele não se moveu, apenas levantou o olhar, sustentando o contato visual com uma frieza que poderia congelar qualquer um.
- A bebida que você pediu. Mas lembre-se, aqui as regras não são suas. Beba de uma vez ou os portões do inferno se fecham para você!
Ele se inclinou para frente e deu um meio sorriso, seus dedos longos envolveram o copo, ele sentiu o peso do cristal, mas em nenhum momento quebrou o contato visual.
- Você gosta de dar ordens para quem não aceita nenhuma, não é? Pois bem...
Sem hesitar, ele virou a bebida de uma vez só, mantendo os olhos em mim até a última gota, como se quisesse provar que nenhuma tentação era capaz de desestabilizá-lo. O fato de que ele já havia se livrado da gravata e os dois primeiros botões da sua camisa estavam abertos, permitiu que eu visse o movimento perfeito da sua garganta enquanto o álcool descia por ela.
Ele colocou o copo vazio na bandeja, uma lentidão calculada e se levantou, me fazendo erguer o corpo quase em sintonia com o dele. Sua estatura de cerca de um metro e noventa diante de mim fez meus joelhos tremerem. Entre nós, apenas a bandeja de prata.
- O pacto está selado... por nós! Você me desafiou a pecar sem hesitar. Agora é a sua vez de selar o pacto e queimar comigo no inferno. Ou você não é a anfitriã?
Ele tirou a bandeja da minha mão e a colocou sobre a mesa de centro, pegou a garrafa de absinto e serviu uma dose até a borda do copo em que tinha bebido e o trouxe para mim. Num gesto rápido ele envolveu a minha cintura, impedindo que eu me afastasse, como se tivesse lido na minha mente que eu recuaria. Eu o encarei.
- Como você disse, eu sou a anfitriã, eu dito as regras. Agora me solta! - Eu tentei manter a voz firme e olhar como se ele não me impressionasse. Mas ele não me soltou, ao contrário, aumentou o seu aperto em mim, mantendo o meu corpo grudado ao dele.


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