"Lorena"
A sala de jantar parecia carregada de eletricidade. Eu tinha instigado o Érick à tarde e ele agora me olhava como se estivesse em contagem regressiva para me cobrar uma dívida.
- O papai pintou o dragão de roxo, Lolô! - A Alice comentou, animada, enquanto balançava as perninhas na cadeira. - Com olhos marrons iguais aos seus.
- Você não gostou? - Eu perguntei, enquanto o Érick sorria sugestivamente.
- Eu gostei! - A Alice respondeu animada. - Ficaram parecendo chocolate, Lolô. Como os seus.
- Tem razão, pequena, os olhos da Lolô são doces como chocolate. Mas eu acho que ela pode ter fogo como o dragão. - O Érick deu um meio sorriso.
Eu engasguei levemente com o suco. O Érick, sentado na cabeceira, apenas levou a taça de vinho aos lábios, os olhos brilhando com uma diversão perigosa e a Alice riu.
- Não, papai, a Lolô não é um dragão, ela é uma fada que realiza desejos! - A Alice decretou com a sua inocência infantil.
- Ah, eu achei o meu dragãozinho simpático. Mas eu acho que você tem razão, pequena. A Lolô realiza desejos. - O Érick falou com os olhos em chamas, havia muito mais por trás do que ele dizia. - Talvez ela possa realizar um desejo meu?
As palavras do Érick pairaram sobre a mesa, carregadas de uma promessa que fez meu sangue ferver. Ele estava brincando com as palavras, enquanto conversava com a Alice.
- Se o senhor for um bom menino, Sr. Albelini... - Eu respondi, sustentando o olhar dele enquanto a Alice ria, achando a conversa a coisa mais divertida do mundo. - Fadas só atendem quem merece.
- Oh, eu pretendo merecer. - Ele tomou o último gole do vinho, o movimento da sua garganta me distraiu por um segundo longo demais. - Farei questão de ser muito convincente.
- Lolô, por que você está chamando o papai de "Sr. Albelini" de novo? Vocês não são amigos de abraço agora? Você já até podia chamá-lo pelo nome. - A Alice perguntou mudando radicalmente o tema da conversa, o que por um momento eu achei um alívio.
Mas o meu alívio não durou muito, o Érick tomou a frente antes que eu pudesse abrir a boca.
- É mesmo, Lolô, por que você está sendo tão formal se nós já somos amigos? - Ele sorriu pra mim como se me desafiasse, enquanto a Alice me encarava esperando uma resposta.
- A-a-ah... é que... eu acho... - Eu me atrapalhei com as palavras.
- Eu acho, pequena, que a Lolô não quer mais ser minha amiga. - Ele fez uma cara triste e a menina olhou dele para mim de olhos arregalados.
- Por que você não quer mais ser amiga do papai?
- Não, querida, o seu pai está enganado. É claro que nós somos amigos. - Eu toquei o rostinho dela para acalmá-la. - Eu só não quero que o bicho-papão fique bravo comigo.
- Eu não sei não... talvez ele te morda essa noite, já que você não é mais minha amiga. - O Érick continuou com falsa tristeza. - O bicho-papão está magoado, ele pode ficar nervoso.
- Não, papai! - A Alice respondeu alarmada e me encarou.
- Pois vai continuar se não der meia volta agora mesmo e for para o seu escritório. - Eu sorri e o encarei.
- Lô! É sério? Pra quê perder mais tempo? - Ele resmungou.
- Pra quê tanta pressa? - Eu devolvi. - Não estrague a surpresa que eu tenho para o bicho-papão!
- Ah, é?! - Ele sorriu. - Você quer socializar com o bicho-papao? - Ele roçou os lábios no meu ouvido.
- Eu quero ser mordida por ele! - Eu sussurrei e entrei no meu quarto depressa, fechando a porta e o deixando do lado de fora.
- Você tem cinco minutos para estar lá. Ou eu arrombo essa porta. - Ele ameaçou do lado de fora, sua voz baixa e carregada de desejo.
Eu ouvi os seus passos se afastando da porta e finalmente me vi sozinha no meu quarto. Meu coração batia rápido demais, eu estava tão ansiosa quanto ele. Toda aquela conversa e abraços e beijos durante o jantar tinham sido como combustível.
A Marcelina tinha razão: a Scarlat era o lado sombrio, eu precisava de luz. Eu puxei a peça que brilhava sob a luminária de cabeceira. Uma calcinha de renda francesa no tom champanhe, com tiras de seda laterais franzidas, tão delicadas que pareciam poder se desintegrar ao toque mais suave. O tecido era um luxo, macio e quase transparente como uma segunda pele.
Eu olhei para o sutiã de conjunto, tão lindo e delicado quanto a calcinha, e, com um sorriso travesso, o deixei de lado. Ele não precisava "sequestrar" outro sutiã meu.
Eu coloquei um vestido que era mais sensual que uma camisola, me olhei no espelho uma última vez e saí do quarto. Caminhei até a porta do escritório e parei por um segundo, a mão trêmula sobre a maçaneta. O jogo ia começar.

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