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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 92

"Lorena"

A casa da Dona Heloísa era o oposto da mansão Albelini. Enquanto a residência do Érick exalava uma imponência fria, silenciosa e moderna, aqui havia cores, fotografias e todo tipo de flores colorindo um jardim que parecia abraçar quem chegava. Mas nada era tão acolhedor quanto o sorriso da D. Heloísa ao nos ver cruzar o jardim. Ela já nos esperava perto da piscina.

- Finalmente! - Ela exclamou, vindo me abraçar e ignorando solenemente o filho. - Lorena, querida, você está cada dia mais linda. Que bom que o "bicho-papão", como diz a Alice, resolveu abrir as grades para você sair um pouco.

- Mamãe, não comece. - O Érick resmungou, mas havia um tom de respeito na voz dele que eu raramente ouvia. Ele se inclinou para dar um beijo no rosto dela, mas seus olhos logo voltaram para mim, vigilantes. A senhora deu uma risadinha que me lembrou a Alice.

- O Érick tem essa cara de poucos amigos, mas não se acanhe por ele estar aqui, ele é assim desde sempre. Venha, vamos nos sentar. Eu preparei uns refrescos.

Eu me sentei na poltrona de vime, hiperconsciente do roçar do tule da calcinha contra a minha pele. Olhei para o Érick, que se sentou à minha frente com a expressão de quem preferia estar enfrentando um pelotão de fuzilamento. Ele me encarava fixamente, sem disfarçar, e eu, sentindo uma onda de coragem, cruzei as pernas lentamente, deixando a fenda do vestido revelar apenas o necessário para deixá-lo à beira de um ataque de nervos. Afinal, ele não ia me atacar na frente da mãe.

- Então, Lorena, me conte... como é cuidar de duas crianças? - A D. Heloísa perguntou, alheia à guerra silenciosa de desejo que acontecia entre nós. Eu a olhei sem entender, afinal era apenas uma criança. - Ah, querida, não tenha medo de dizer, a minha neta é um anjinho e eu sei que te adora, mas como você tem aguentado esse meu filho... controlador? E mal humorado... não vamos nos esquecer do mal humorado.

Eu sorri, sentindo o olhar do Érick queimar sobre mim.

- É um desafio diário, D. Heloísa. Seu filho é realmente muito exigente... mas às vezes até que é bem comportado. - Eu comentei com certa diversão. Pelo menos aquela mãe sabia como o filho era.

- Você é muito gentil. - Ela sorriu e deu dois tapinhas na minha mão.

A manhã de refrescos com a D. Heloísa transcorreu muito agradável, sob uma calmaria aparente. Ela falava sobre as artes de Alice, perguntando sobre o rendimento escolar e a rotina da menina. Era nítido que ela usava a neta como ponte para me analisar, como se através das informações que eu dava ela compreendesse com quem estava lidando.

- A Alice nunca esteve tão radiante, Lorena. E eu sei que o mérito é seu. Aquela criança precisava de afeto e calor maternal. E aquela casa... - A D. Heloísa fez uma pausa, olhando para as próprias mãos - ... precisava de vida e de alguém que não tivesse medo de uma certa sombra que esgueira por aquelas paredes.

Eu senti um calafrio. Ela estava falando da Adelaide? Ou de algo mais profundo? A D. Heloísa me deixou realmente confusa.

- Érick, querido, vá buscar aquele catálogo de jardinagem que deixei na biblioteca. Quero mostrar uma espécie de rosa para a Lorena. - A D. Heloísa disse, de repente. - Você gosta de jardinagem, Lorena?

- Nunca me aventurei, mas vendo o seu jardim, tão lindo com todas essas flores. - Eu comentei olhando em volta. - Tão diferente da... - Eu me interrompi, percebendo que cometeria uma indiscrição.

- Pode dizer, tão diferente da casa do meu filho, com um gramado plano e apenas uma árvore naquele quintal enorme. - Ela suspirou. - Aquela casa parece um colégio interno, fria, sem vida, cheia de regras. A Alice adora mexer com a terra, talvez vocês duas possam fazer alguma coisa por lá. Anda, Érick, vai. - A D. Heloísa apressou o Érick que ainda não havia se movido.

Ele hesitou. Ele sabia que era um pretexto para nos deixar sozinhas. Ele me olhou, um aviso mudo brilhando em seus olhos azuis, e depois se levantou.

- Não demore, mamãe. Nós temos que buscar a Alice em breve.

Assim que os passos dele sumiram no corredor, o ambiente mudou. A D. Heloísa se inclinou para frente, a expressão suavizando para algo maternal, mas firme.

Nesse momento, o Érick voltou, jogando o catálogo sobre a mesa com uma impaciência nítida. Ele se sentou e eu, movida por uma mistura de nervosismo e uma ousadia súbita causada pela fala da D. Heloísa, cruzei as pernas lentamente. A fenda do vestido se abriu, revelando um vislumbre do tule rosa contra a minha pele.

O Érick travou. Ele esqueceu o catálogo, esqueceu a mãe, esqueceu como se respirava. Os olhos dele escureceram e ele se levantou outra vez.

- Acho que está na nossa hora, Lorena. - O Érick chamou e a mão dele o encarou com um meio sorriso.

- Senta aí, Érick, ainda não está na hora de buscar a Alice.

Ele sentou completamente frustrado e eu não contive o riso. Afinal, o grande Érick Albelini obedecia a alguém.

- D. Heloísa, posso contar com a senhora também para "conter" o bicho-papão? - Eu perguntei audaciosa e sorri do revirar de olhos e estalar de língua do Érick, enquanto a mãe dava uma risada totalmente divertida com a situação.

- Querida, se ele sair da linha, basta você me ligar que eu o faço se comportar.

- Continuem assim e esta será a primeira e última confraternização das duas. - O Érick resmungou.

- Ah, querido, a quem você quer enganar? Você fica mais do que satisfeito que as três mulheres da sua vida se dêem bem. Torna tudo mais fácil para você. - A D. Heloísa observou, mas eu não pude deixar de pensar que ela estava sendo um pouco exagerada, embora eu entendesse o que ela queria dizer.

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