POV Sky)
Eu estava no céu. Literalmente.
Havia anjos, harpas e um querubim que tinha a cara do Stephen James sem tatuagem me dando uvas na boca. O beijo dele tinha gosto de nuvem e pecado. Eu estava prestes a dizer "sim" para o universo quando, de repente, o universo resolveu me dar uma marretada na testa.
Tum. Tum. Tum.
Abri um olho. Depois o outro. A luz que entrava pela janela não era divina; era agressiva. Parecia que alguém estava apontando um holofote de estádio direto para as minhas pupilas.
— Ai, meu Deus... o casamento — murmurei, sentando-me na cama num solavanco.
Péssima ideia. Meu cérebro deu uma cambalhota dentro do crânio e tentou sair pelo meu ouvido. Senti uma náusea tão violenta que cogitei seriamente a possibilidade de ter morrido e estar no purgatório. Voltei para o travesseiro, gemendo.
— Calma, noivinha. O luto ainda não passou?
Aquela voz. Aquela voz grave, vibrante e irritantemente nítida.
Virei o pescoço devagar — o que levou cerca de três anos para acontecer devido à dor — e foquei a visão. Tinha um homem. Um homem estranho. Um homem absurdamente gostoso sentado na beira da cama, me observando com uma caneca de café na mão.
— AHHHHH! UM SEQUESTRADOR! — Gritei, ou tentei gritar, mas saiu um ganido de gansa engasgada.
Tentei me afastar e acabei calculando mal o espaço geográfico do colchão. Resultado: rolei para o lado e caí de cara no tapete com um baque surdo. Meus braços se enroscaram no lençol e eu fiquei ali, lutando contra o tecido como se fosse uma rede de pesca.
— Quem é você?! O que você fez comigo?! — Berrei do chão, percebendo que eu não estava com o meu vestido. Eu estava usando uma camisa de homem que batia nas minhas coxas. — Meu Deus! Você me violou! Você é um cafajeste, um... um aproveitador... um estuprador de cadáveres!
Ele nem se mexeu. Apenas deu um gole no café, com uma calma que me dava vontade de atirar um abajur na cabeça dele.
— Primeiro: você que me atacou. Segundo: eu não sou cafajeste, você que é uma tarada que tentou me comprar por sete mil reais ontem à noite — ele disse, arqueando a sobrancelha. — Eu fui um cavalheiro por não ter aceitado fazer o "serviço" enquanto você tentava lamber o meu pescoço e tropeçava no próprio vestido.
— Sete mil? Lamber?
As memórias começaram a voltar em flashes: eu chamando-o de gigolô, eu oferecendo dinheiro para ele, eu... oh, meu Deus... eu beijando-o como se não houvesse amanhã. Senti um frio na espinha percorrer todo o meu corpo. Levei as mãos à cabeça, apertando as têmporas para ver se meu cérebro voltava para o lugar.
— Ontem à noite você não queria que eu vestisse roupa nenhuma — ele disparou, a voz se aproximando com aquele cheiro de Malbec e café. — Na verdade, você foi bem enfática sobre o quanto o projeto ficava melhor sem "cobertura".
— Para com isso! É mentira! — Gritei, sentindo meu rosto atingir a temperatura do núcleo da Terra.
— E talvez eu esteja exagerando um pouco, mas se eu tivesse aceitado o seu "serviço completo", garanto que você não estaria chorando agora. Estaria me pedindo o café na cama.
— Por quê? Você se acha o quê? O rei do sexo? — Perguntei entre soluços, ainda de olhos fechados.
— Eu não me acho, noivinha. Eu sou inesquecível — ele sussurrou, e eu juro que senti o calor do corpo dele perto do meu. — Diferente do seu ex, se eu tivesse te pegado ontem, você nunca mais ia querer saber de outro nome.
Abri um olho por entre os dedos, pronta para mandá-lo para o inferno, mas ele já estava pegando uma calça de moletom na poltrona.
— Veste isso. Vou fazer mais café enquanto você decide se vai continuar o escândalo ou se vai agir como uma adulta.
Ele saiu do quarto com a maior naturalidade do mundo, me deixando ali, jogada no chão e enrolada num lençol. A ressaca moral dói muito mais que a de Vodka. Muito mais.

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