( POV/ SKY)
— Ótimo. Ele me ignora. Decide que o café é mais interessante que meu drama — resmunguei, lutando para me levantar sem que meu cérebro se soltasse do crânio.
Vesti o moletom. Como o homem era um armário de grande, a roupa serviu confortavelmente em mim, mas eu ainda parecia um rapper dos anos 90 que encolheu na máquina de lavar. Peguei meu sutiã em cima do abajur, a calcinha não achei.
Comecei a operação "Infiltração Tática".
Abri a porta do quarto um milímetro por vez. O apartamento era uma ignorância de tão luxuoso: mármore por todo lado e móveis que custavam mais que os rins da minha família inteira.
— Definitivamente, ele é um gigolô de altíssimo nível. Deve atender a realeza — sussurrei, agachada atrás de um vaso que provavelmente era caro demais para eu sequer olhar.
Olhei para aquele mármore todo e para a vista de 180 graus de Porto Alegre. Meu Deus, ele deve ser o funcionário do mês há dez anos seguidos. Quantas herdeiras de soja esse homem teve que "atender" para mobiliar essa sala? O lustre sozinho devia valer umas quinhentas noites de trabalho... intenso. Senti um misto de pena e admiração profissional; o cara era um empreendedor do próprio corpo, focado puramente no lucro.
Comecei a rastejar pelo corredor. Achei um pé do meu tênis perto da cozinha. O outro estava no meio da sala, solitário como a minha dignidade.
O meu vestido estava jogado no chão, e ele parecia um cadáver de cetim rasgado. Avistei meu celular em cima de um aparador de vidro. Estiquei o braço, pronta para dar o bote, quando a voz de trovão me atingiu:
— Você vai ficar aí embaixo parecendo um bicho ou vai sentar e tomar o café que eu fiz?
Dei um pulo que quase me fez bater a cabeça no lustre. Ele estava encostado no portal da cozinha, já vestido, me olhando como se eu fosse um espécime exótico de zoológico e segurando minha calcinha entre os dedos.
— Procurando por isso ou não vai precisar?
— Eu... eu estou indo embora! — Gritei, agarrando o celular e o outro tênis que deixei cair — Não tente me impedir! Eu tenho spray de pimenta na bolsa! — Na verdade não tinha, ele não precisava saber, mas na verdade não tinha nem bolsa.
— Ninguém está te impedindo, maluca. A porta é ali — ele apontou com o queixo, mantendo aquele sorriso sarcástico. — Só achei que você quisesse sair pela porta normalmente, não rastejando como uma lagarta.
— Eu sei como funciona! — gritei, segurando a calça de moletom dele que insistia em escorregar. — Você é ganancioso! Viu uma noiva desesperada e já pensou na comissão, né? Só pensa em dinheiro, em bater meta, em... em aumentar o faturamento! Você é o pior tipo de pessoa, o tipo que coloca um preço no prazer!
Ele arqueou a sobrancelha, parecendo genuinamente confuso, o que só me irritou mais.
— O maluca, você não tem ideia do que está falando... — ele começou dando um passo na minha direção.
— Não tente se explicar! — o interrompi, apontando um dedo trêmulo. — Eu respeito o livre arbítrio, mas não aceito ser só mais um boleto pago na sua conta bancária! Eu tenho princípios, seu... seu capitalista da luxúria!
Enterrei meu rosto nas mãos e soltei um grito abafado contra o banco do táxi, sentindo o estômago revirar em um nó de pura humilhação.
— Meu Deus do céu... eu morri. Eu estou no inferno e o diabo usa cueca da Calvin Klein e tem olhos verdes.
A vergonha era física. Eu queria me dissolver no estofado do carro. A "Sky" certinha, a "Sky" virgem, a arquiteta séria tinha acabado de anunciar para a irmã caçula que ia "fzer mt seXo".
O que é que eu vou dizer para ela agora? Que eu não perdi a virgindade, mas perdi a minha dignidade inteira? E os sete mil reais do Alex? Continuavam intocados, enquanto o meu orgulho estava em frangalhos.
Enquanto o táxi avançava, a conversa com o Alex no bar voltou como um eco torturante. Ele tinha falado sobre aquele lugar... o Ambrósia Club.
"Dizem que lá eles pagam muito bem... e aceitam até virgens para leilões exclusivos", as palavras dele martelavam na minha cabeça.
Olhei pela janela, vendo a paisagem passar em um borrão, e um pensamento sombrio começou a criar raízes. Se eu já tinha passado o maior mico da minha vida tentando ser uma "mulher fatal" por conta própria e falhei miseravelmente, talvez precisasse de profissionais.
Será que o meu destino era mesmo aquele lugar? Ir para um clube VIP secreto para ser vendada e dominada por um estranho em troca de dinheiro?
"Ai, meu Deus, será que eu gostaria de ser chicoteada?", pensei, sentindo um calafrio percorrer meu corpo. "Que vergonha, Sky! Que lixo de vida você arrumou!".

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