POV: SKY BITTENCOURT
Chegamos a Porto Alegre tarde da noite, com o corpo moído e aquela sensação de que tínhamos sido atropelados pela viagem. O Gael foi um cavalheiro completo: pegou um táxi para nós três — eu, ele e a Moon — e fez questão de carregar as malas escada acima até a porta do meu apartamento.
Quando ele pousou a última mala no chão do hall, fiquei ali parada, meio sem jeito. Desde tudo o que tinha acontecido com o Rocco Blackwood — o rastro daqueles beijos e o caos daquele apartamento —, a minha cabeça tinha virado um labirinto. Eu estava confusa demais, então a verdade é que o Gael e eu nem tínhamos nos pegado mais. Eu mantinha uma distância de segurança que ele, por sorte ou educação, respeitava.
— Bom... entregues — ele sorriu, limpando o suor leve da testa.
— Obrigada por tudo, Gael. De verdade — respondi, sem saber muito o que fazer com as mãos. Olhei para a cozinha e, para não parecer mal-agradecida, arrisquei: — Você... não quer ficar para jantar?
— Ah, imagina, Sky. Não quero ser um incômodo, vocês acabaram de chegar de viagem, estão mortas — ele hesitou, olhando para dentro do apartamento.
— Que incômodo nada, vai ser rapidinho. Eu vou só fazer um macarrão rápido para a gente comer. Fica.
— Se é assim... então tá bom — ele cedeu, dando aquele sorriso de dentes perfeitamente alinhados. Ele entrou, tirou o paletó e o jogou na cadeira. — Deixa que eu te dou uma força com a janta, Sky. Você cuida da massa e eu vejo o molho.
Antes de ir para a cozinha, precisei ver o meu pai. Caminhei até o quarto dele com passos silenciosos e a Moon veio logo atrás. Dei um beijo na testa fria daquele gênio paralisado e me virei para a enfermeira de plantão.
— Como ele foi esses dias? Tudo calmo por aqui? — perguntei, a voz saindo baixa para não quebrar o silêncio do respirador.
— Tudo certinho, senhora Bittencourt. Ele respondeu bem aos horários — ela sorriu profissionalmente.
— Perfeito. Eu vou fazer o depósito do seu honorário, pode ficar tranquila — afirmei, forçando uma segurança que eu não possuía.
Depositar com que dinheiro, sua imbecil?, o meu cérebro gritou assim que dei as costas. Eu tinha exatamente quarenta e um reais na poupança e não fazia a menor ideia de onde ia arrumar os oito mil reais da manutenção da empresa de oxigênio ou o salário daquela mulher.
Para completar o cenário de desgraça, quando voltei para a sala, a Moon me estendeu um envelope branco que estava em cima do aparador.
— Chegou essa correspondência judicial para você, Sky. Parece que foi ontem.
Abri o papel com os dedos trêmulos e o meu coração despencou direto para o concreto do chão. Era uma intimação oficial para uma audiência na justiça.
O canalha do Paulo Gouveia não estava brincando: o "Tio" Paulo tinha me dado um ultimato. Ou eu assinava o destrato definitivo abrindo mão de todo o terreno da minha família — onde ele ergueu o império da construtora dele —, aceitando uma esmola de 1% de custeio, ou ele confiscava integralmente os meus 3% de lucro mensal para abater uma suposta dívida monstruosa de 840 mil reais cheia de juros abusivos que ele inventou sobre os anos de home-care do meu pai.
Como eu me recusei a ser engolida e não assinei a p**** da cessão do terreno, ele cortou o repasse do dinheiro. Parou tudo. E agora, sabendo que eu estava sem um centavo e desesperada, ele tinha movido aquela engrenagem judicial para me processar, exigindo o dinheiro de volta imediatamente. Ele sabia que eu não tinha como pagar. O objetivo dele nunca foi receber os 840 mil; era usar o processo para me asfixiar até eu ser obrigada a entregar o terreno de bandeja.
Eu teria que ir para a frente de um juiz em duas semanas e não tinha um tostão furado para pagar um advogado de defesa.
Encostei a testa na parede da cozinha e dei duas batidas secas contra a alvenaria, querendo que o reboco caísse na minha cabeça. Como eu ia arrumar um advogado? Como ia salvar o meu pai de um despejo médico?
Engoli o bolo de choro na garganta, endireitei a postura e voltei para o fogão. Eu tinha um macarrão para fazer e um engenheiro da concorrência na minha mesa, mas a minha mente só conseguia calcular o preço da minha própria alma.
Fui para o fogão colocar a água do macarrão para ferver. O Gael estava sentado na bancada, me observando com aqueles olhos atentos enquanto me ajudava com o molho.

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