POV: SKY BITTENCOURT
Meu pai estava se contorcendo inteiro no colchão, a espinha arqueada, o rosto pálido e os lábios já arroxeados pela falta de oxigênio, espumando de um jeito assustador pela boca.
No mais puro instinto de sobrevivência e desespero, eu não pensei. Subi em cima dele na cama, ajoelhando-me sobre os lençóis, e enfiei os meus dedos direto na boca dele. Minhas mãos tremiam, mas eu precisava puxar a língua dele para frente, impedindo que ele se engasgasse com a própria saliva ou se asfixiasse no meio daquela convulsão violenta.
— LIGA PARA A AMBULÂNCIA! MOON, LIGA PARA A AMBULÂNCIA AGORA! — gritei a plenos pulmões, a voz saindo rasgada, misturada com o choro que eu tentava prender.
O Gael não ficou parado assistindo. Ele entrou em ação rápido e subiu os degraus invisíveis do meu desespero para ajudar no manejo físico. Enquanto a Moon discava para o resgate aos prantos na sala, o Gael se inclinou sobre a cama e segurou os ombros largos do meu pai com firmeza, ajudando a estabilizá-lo de lado no colchão para que ele não se machucasse com os espasmos brutos. Aqueles minutos pareceram horas, até que o som da sirene finalmente ecoou na rua e os paramédicos entraram correndo com a maca, assumindo o controle com as masks de oxigênio de emergência e levando o meu pai às pressas para a ambulância.
No meio daquela correria, enquanto a gente descia pelo elevador, o Gael foi totalmente calmo e prestativo. Ele me olhou com uma preocupação genuína.
— Sky, eu juro por tudo que eu não fiz nada — ele explicou, a voz macia, pausada e perfeitamente calma. — Eu estava indo em direção ao banheiro, mas no meio do corredor acabei escutando uns barulhos estranhos vindo de dentro daquele quarto. Fiquei preocupado, abri a porta para ver se estava acontecendo alguma coisa e dei de cara com o seu pai. Ele já estava tremendo na cama, Sky. Parecia meio agitado, sei lá. Eu entrei, cheguei perto para ver se ele estava bem e tentei conversar um pouco para ver se ele se acalmazia. Só balancei a cabeça e disse: "Oi, tudo bem? O senhor tem filhas incríveis". Mas ele continuou tremendo, e aí do nada a crise piorou e os aparelhos começaram a apitar feito loucos. Eu só me aproximei para tentar estabilizar ele na cama até você chegar. Eu não toquei em nada, eu juro.
O resto da madrugada virou uma vigília cruel. Passamos a noite inteira em claro, sem pregar o olho por um segundo sequer, sentadas naquelas cadeiras plásticas duras e desconfortáveis da sala de espera do pronto-socorro. Enquanto o meu pai estava lá dentro, eu passava os dedos pelos cabelos ruivos, encarando o chão e rezando com todas as minhas forças para que o plano de saúde antigo ou qualquer assistência remanescente cobrisse aquela internação de emergência. Eu sabia que a realidade era sádica: eu tinha exatamente quarenta e um reais na conta poupança e nenhuma linha de crédito.
A Moon estava em pânico, soluçando baixinho com a cabeça escondida nos joelhos. Por volta das duas da manhã, tentei bancar a irmã mais velha protetora.
— Moon, vai para casa, por favor... Você precisa descansar. Eu fico aqui e te aviso qualquer coisa.
— Não! Eu não vou arredar o pé daqui, Sky! — ela bateu o pé, levantando o rosto vermelho de choro e se recusando terminantemente a sair. — Eu vou ficar com você até o fim.
E o Gael também se recusou a nos deixar sozinhas. Ele se mostrou o companheiro perfeito para aquele cenário de desgraça: foi até a máquina, comprou copos de plástico com café horrível para a gente, segurou a mão da Moon para consolá-la e continuou ali firme, nos dando apoio emotional naquela antessala fria.
O relógio do hospital marcava exatamente quatro horas da manhã quando o médico de plantão finalmente cruzou as portas duplas da ala interna. Ele vinha caminhando devagar, segurando um prontuário e com uma expressão profundamente intrigada, com as sobrancelhas quase coladas.
Me levantei num pulo, com o coração rebatendo na garganta.
— Doutor? Como está o meu pai? — disparei, os dedos cravados na saia social amassada.
— O senhor Otávio está estabilizado, o quadro respiratório foi controlado com a medicação de emergência — o médico começou, ajeitando os óculos. — Mas... nós rodamos uma bateria completa de exames de sangue e o painel toxicológico revelou algo extremamente bizarro e fora do comum.
Olhei para a Moon e depois para o Gael, sentindo um arrepio gélido pinicar a minha nuca.
— Bizarro como? O que ele tem?
O especialista soltou um suspiro pesado e apontou para os gráficos impressos na folha.
— Detectamos traços residuais, mas de caráter crônico e contínuo, de uma substância derivada de cianeto no organismo dele. Mais especificamente, algo compatível com amigdalina, aquele composto que a gente encontra concentrado em sementes de maçã.
— Veneno? — a palavra saiu da minha boca quase sem voz, fazendo meu estômago despencar direto para o concreto do hospital.
— Em microdoses diárias e controladas, não é o suficiente para matar — o médico detalhou, gesticulando com a caneta. — Mas ela funciona no organismo como uma verdadeira camisa de força química.
— O que?.... não entendi o que o senhor quer dizer?

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