POV/ SKY
Já tinham se passado dois dias desde aquela madrugada infernal de diagnóstico. Dois dias que eu basicamente morava naquele hospital público, dividindo o meu corpo entre o torpor do cansaço e o plástico duro das cadeiras da recepção. Meus músculos estavam tão rígidos que minhas costas pareciam uma placa de gesso estrutural, e o meu coração batia apertado, espremido num espartilho de ansiedade. O plano de saúde antigo tinha servido apenas para trazer aquele especialista inicial para avaliar o meu pai, mas, sabendo que a minha conta bancária estava zerada, a única saída viável foi aceitar a transferência dele ali para a ala do SUS. Pelo menos a estrutura básica e a internação eram de graça, mas o meu peito continuava esmagado por um rolo compressor.
A Sakura tinha ido me visitar mais cedo, trazendo uma marmita que eu mal consegui tocar; o cheiro de comida caseira só fez o meu estômago revirar contra o odor azedo de antisséptico e cloro que parecia ter grudado nos meus poros. Senti que estava cheirando a hospital velho. A Moon teve que ir embora para cuidar dos nossos compromissos, porque ela precisava finalizar o design para entregar o nosso pré-projeto para a avaliação técnica. A classificação do concurso de quem passaria para a próxima etapa sairia já na semana que vem. Eu insisti para que ela fosse, mas ver a silhueta da minha irmã sumindo pelas portas de vidro me deixou com uma fraqueza terrível nas pernas, uma sensação nítida de estar nadando contra a correnteza, morrendo afogada a poucos metros da praia sem que ninguém pudesse me estender a mão.
Por mais que eu me esforçasse, o mar engolia as minhas forças. Uma lágrima quente escorreu pelo meu nariz e eu encostei a parte de trás da cabeça na parede fria do corredor, fechando os olhos enquanto as pálpebras ardiam como se estivessem cheias de areia.
O que a mãe faria?, perguntei ao silêncio. Eu estava sozinha. Se eu tivesse engolido o orgulho e aceitado aquela merda de contrato que o Paulo Gouveia exigiu, se tivesse assinado a entrega do terreno, talvez meu pai estivesse protegido. Pensar no nome do Gouveia fez a minha cabeça latejar com uma enxaqueca violenta. Minha mente, procurando qualquer porto seguro, tateou a lembrança do Victor. Ele sempre foi o meu melhor amigo, o cara que estaria segurando a minha mão nessa cadeira, mas até essa estrutura tinha desmoronado.
No meio daquela tarde cinzenta, o Alex apareceu. Ele entrou na recepção segurando um pote de sorvete meio derretido e um par de colheres de plástico. Não dissemos nada. Eu só me joguei nos braços dele e apertei o pescoço do meu amigo com força, deixando que o tecido da jaqueta dele absorvesse o molhado do meu rosto. Limpei as bochechas, peguei uma colherada do sorvete e olhei bem no fundo dos olhos dele.
— Eu vou te ajudar, Sky — ele disse, me olhando nos olhos com seriedade. — Mas você não pode contar para ninguém. Nem para a Moon, nem para o pessoal da empresa. Promete?
Eu assenti, sentindo um nó na garganta pela lealdade dele. Ali mesmo, na mesinha de canto da recepção, ele abriu o notebook e começou a trabalhar, me ajudando a finalizar um pedaço complexo do projeto orgânico e revisando os cálculos de cálculo estrutural que a minha mente exausta já não conseguia computar. Pouco depois, o Diego e o Nathan também passaram por lá. O Diego, com aquele jeito técnico dele, se sentou do meu lado e deu umas dicas valiosas sobre o fluxo de vazão da planta, enquanto o Nathan deu uma ideia genial para o aproveitamento da iluminação natural do resort. Todo mundo estava ali. Toda a equipe estava se desdobrando para me segurar de pé.
Mas enquanto eu olhava para os diagramas na tela, uma sensação de vazio bizarra começou a me corroer. Era como se a minha vida estivesse sendo montada feito um quebra-cabeça técnico perfeito, mas a pedra principal, aquela que dava sustentação para o meio de tudo, simplesmente não estava lá. Eu sentia falta de alguém que eu não tinha o menor direito de sentir. Senti falta da arrogância que me desafiava.
Rocco.
Quando a noite caiu e as visitas terminaram, a solidão voltou com força total. Já era a terceira madrugada de vigília. O relógio da parede marcou onze horas da noite. Minha visão estava embaçada pelo sono acumulado, a cabeça pesando toneladas. Peguei o celular com os dedos trêmulos, engolindo o rastro final do meu orgulho, e abri o aplicativo de mensagens.
“Eleonora. Sou eu, a Sky. Preciso adiantar a minha sessão com o Mestre. O mais rápido possível. É urgente.”
Enviei. Guardei o aparelho no bolso do casaco, sabendo que aquela mensagem era o documento de venda da minha própria alma para um homem mascarado no Ambrosia Club. Eu precisava pagar a enfermeira do primeiro dia de Natal, precisava comprar os remédios do coração do meu pai que o SUS não dava, e a audiência jurídica estava a duas semanas de distância. Apoiei os cotovelos nos joelhos e escondi o rosto nas palmas das mãos, deixando que uma única lágrima solitária cruzasse a linha dos meus dedos. Eu estava no fundo do poço.
— Sky!
O grito ecoou de repente, quebrando o silêncio fúnebre do corredor e fazendo o meu coração dar um solavanco tão violento no peito que achei que fosse enfartar ali mesmo. Meu peito subiu num tranco, o ar sumindo da garganta.
Levantei a cabeça devagar, passando a manga do casaco nos olhos acesos para limpar o rastro das lágrimas. No final do corredor, a porta dupla de metal ainda balançava com o impacto. Era o Rocco.
Ele vinha na minha direção com passos largos, quase correndo. O terno italiano escuro estava completamente aberto, a gravata sumida e o colarinho da camisa social desabotoado. O cabelo dele, sempre perfeitamente alinhado, estava uma bagunça completa de fios jogados para os lados, e a fisionomia dele carregava uma palidez de puro cansaço, com olheiras profundas marcando a base dos olhos verdes. O peito dele subia e descia numa respiração pesada, arfando contra o silêncio da recepção.

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