POV: ROCCO BLACKWOOD
Olhei para os meus avós, sentindo uma risada amarga e sarcástica subir pelo meu peito. A minha vida inteira tinha sido um protocolo milimétrico para agradar o luto deles. Eu me mutilei por anos tentando ser o neto perfeito, o substituto impecável para o filho que eles perderam naquele maldito acidente, mas aquela merda de coroa de herdeiro estava pesando demais nas minhas costas.
— Eu posso ser o pior irmão do mundo e o neto mais horrível desse sobrenome — falei, a voz caindo para um tom gélido e pausado enquanto eu ajeitava os punhos da camisa social. — Eu aceito gerenciar a Blackwood, aceito carregar o peso dos números e das obras de vocês, mas eu não vou me enfiar na cama de uma mulher rica que eu não gosto só para aplacar o moralismo de Londres. Eu não vou me casar com a Jussara. Não vou assinar contrato nenhum com ela, porque já tem alguém ocupando o meu coração... e eu vou lutar por essa pessoa, mesmo que ela me odeie com todas as forças dela agora.
Virei as costas antes que a minha avó pudesse responder e saí pisando firme pelo corredor do hospital, deixando o eco dos meus passos preencher o silêncio fúnebre daquela ala VIP.
Porque eu disso aquilo? Alguém no meu coração?
Caramba!!
Bati a porta da antessala e me encostei na parede de mármore, fechando os olhos. Senti meu peito contrair, um aperto tão violento que o ar parecia rasgar a minha garganta. É por isso que eu preciso do Ambrosia Club. No mundo real, seguindo as regras e a etiqueta da sociedade, eu sou apenas o herdeiro insuficiente, o irmão fracassado e o neto que nunca vai conseguir preencher o vazio dos mortos.
Até porque, quando eu coloco aquela merda daquela máscara de couro negro no subsolo e assumo o trono como Imperador, tudo muda. Ali, as mulheres não me questionam; elas me obedecem cegamente. Ali, impondo as minhas regras, a minha dor técnica e o meu domínio absoluto sobre a carne alheia, é o único e escasso momento em que eu realmente tenho o controle total sobre a minha própria existência. Fora dali, eu sou apenas uma estrutura cheia de rachaduras prestes a desabar.
No meio daquela escuridão mental, a imagem da Sky Bittencourt invadiu o meu peito como um feixe de luz inesperado. Senti meu coração arrepiar só de lembrar do rosto dela. É tudo tão confuso e, ao mesmo tempo, tão ridiculamente simples e gostoso quando estou perto dela. A Sky tem esse poder bizarro: quando ela me enfrenta, quando ela gagueja de vergonha ou me xinga com aqueles termos técnicos, ela simplesmente desativa o peso da minha coroa. Perto dela, eu não ligo para quem eu sou. Não me importo com faturamento, com o Conselho ou com o sobrenome Blackwood.
Eu posso ser apenas um cara inconsequente, que não sabe como agir perto de uma garota. Mas não uma garota qualquer. A garota.
A garota que me deixa leve. Uma leveza que me assusta, porque é a única coisa real e simples que eu tenho na vida. Mas ao mesmo tempo, ter um contrato com ela sendo Hades, quando ela souber, vai me despedaçar se ela vier a me odiar.
E por que caralhos eu estou pensando nisso?
Por que eu me importo com a opinião ou os sentimentos dela?
Quem sou eu agora? Droga.
O soco no meu estômago foi físico, uma pancada de culpa e dor que me tirou o fôlego. Senti meus próprios olhos arderem enquanto as lágrimas, presas há dez anos, ameaçavam transborda. Levantei-me em um tranco, deixei de lado o orgulho, puxei o meu irmão para o meu peito e o apartei em um abraço apertado, sentindo o corpo dele tremer e soluçar contra o meu. Ficamos ali, agarrados no meio da biblioteca, limpando com lágrimas e silêncio o rastro de mágoa e distância que nos afastava por dez anos. Nós dois éramos sobreviventes de uma mesma demolição.
Enquanto segurava o Ravi contra mim, a minha mente começou a girar em um turbilhão de reflexões. As palavras dele ecoavam: ele precisava de uma mãe.
Eu vinha tentando ser o irmão mais velho e o pai substituto ao mesmo tempo, e estava falhando miseravelmente, mas a nossa estrutura estava manca, incompleta. Nós dois éramos uma fundação só, dividindo o mesmo teto quebrado. Se o casamento era a solução que a minha família exigia para trazer estabilidade e dar um rumo para o Ravi, o que eu tinha que fazer? Droga.
A minha família é aristocrata, antiquada, preconceituosa e presa a valores de séculos passados. Eles nunca olham para o caráter de ninguém; eles não querem saber quem é a pessoa de verdade, eles só olham para o saldo da conta bancária e para o peso do sobrenome.
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Coitado do nosso menino Rocco. A nota de autora vem nos pròximos cap.

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