POV: ROCCO BLACKWOOD
O Ravi se despediu com os olhos ainda vermelhos e subiu para o quarto, me deixando sozinho na imensidão daquela biblioteca que de repente pareceu fria demais. Eu precisava trabalhar e espairecer a cabeça. Abri o meu notebook para despachar as pendências urgentes e assinar digitalmente alguns documentos, contratos e relatórios que o Diego tinha me mandado de Porto Alegre.
No meio dos arquivos pendentes da Blackwood, abri a pasta com a documentação do processo que o Conselho tinha aberto para investigar a startup Zênite Arch & Design sobre a denúncia de plágio. A Sky não sai da minha cabeça e, quando não quero pensar nela, vem o destino e me lembra dela.
Droga.
Parece uma parasita que não me deixa em paz.
Acabei me lembrando do desespero dela, do medo, da situação difícil, e lembrei do que ela tinha me acusado, gritando que a minha empresa e o meu avô tinham destruído a família dela por comprarem uma tecnologia roubada no passado. Como aquilo era de 2015 e não era da minha época, eu não sabia direito o que aconteceu. Não tive tanto tempo para pesquisar sobre essa tecnologia; eu apenas sabia que ela existia e que meu avô a havia comprado do Lacerda.
Aproveitei que estava ali e comecei a mexer em umas caixas velhas de arquivo morto com plantas, relatórios e papéis dos meus pais que estavam guardados ali e que eu nunca tinha tido coragem de abrir. No meio dos documentos burocráticos da empresa daquela época, tentando achar o contrato da tal patente roubada, acabei encontrando uma pasta separada com vários recortes de jornais antigos sobre o acidente que matou os meus pais em 2015.
Fui ler a matéria para ver o nome dos envolvidos e o meu coração acelerou na hora, me causando um desconforto muito grande no peito.
Pisquei algumas vezes, sem acreditar no que os meus os olhos estavam focando naquela folha amarelada.
O nome do motorista do outro carro era Otávio Bittencourt.
Fiquei totalmente chocado, paralisado na cadeira. Peguei o celular e comecei a pesquisar loucamente na internet sobre o caso para ter certeza.
A conclusão da polícia e a perícia da época eram claras: o acidente que matou os meus pais foi o mesmo acidente que matou a mãe da Sky e deixou o pai dela em estado vegetativo. E o pior: o laudo apontava o pai da Sky como o responsável pela tragédia, afirmando que ele tinha tentado fazer uma ultrapassagem perigosa na pista e acabou batendo de frente com o carro da minha família.
Minha cabeça começou a dar voltas. A nossa história estava amarrada pelo sangue daquele dia. Como se a diferença de dinheiro e o orgulho dos meus avós já não fossem problema suficiente, agora eu descobria que a garota que não saía do meu pensamento era filha do homem que a polícia culpou por tirar os meus pais de mim.
BZZZ. BZZZ.
O celular sobre a mesa de madeira vibrou, o som alto cortando o silêncio da biblioteca. Era a Eleonora:
“Hades, a Fox acabou de entrar em contato. Ela pediu para adiantar a sessão com o Mestre o mais rápido possível, acho que deve ser por motivos financeiros. O que quer que eu faça?”
Como assim?
Peguei meu celular e liguei para o Nathan, para saber como estavam as coisas.
— Nathan! Aconteceu algo com uma das empresas do concurso? Tá tudo certo? — me segurei para não perguntar diretamente sobre a Sky.
— Unh? Rocco? Sim, tá tudo bem com os projetos.
— Ah, tá. Senti uma intuição, algo assim — tentei desconversar.
— Bom, você não soube, né?
— Não soube o que? — meu coração acelerou tanto que o senti bater direto na garganta. — O que?
— O pai da Sky teve um colapso respiratório violento dentro de casa há alguns dias. Ele está internado no hospital.
— Por que ninguém me avisou disso antes?! — gritei, a fúria cega me fazendo chutar a cadeira de madeira da biblioteca.
— Você mandou a gente não incomodar com problema nenhum, porra! — Nathan se justificou, a voz alterada.
Era verdade, totalmente verdade.
Desliguei na cara dele.
O que eu faço? Droga.
Liguei para a Sky três vezes. Caixa postal.
Liguei para a Sakura. Ela não atendeu.
Merda. Merda. Merda.
Liguei para o piloto do meu jato.
— Prepara tudo. Preciso decolar de volta para o Brasil agora — ordenei, sem dar espaço para perguntas.

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