POV: ROCCO BLACKWOOD
Não sei exatamente quanto tempo fiquei ali, parado no meio daquele corredor gelado do hospital, segurando a Sky contra o meu peito. Para um cara que vive calculando o tempo de cura do concreto e a precisão de cronogramas, perder a noção dos minutos era um erro de cálculo bizarro. Mas o calor do corpo dela e o jeito como os soluços foram diminuindo aos poucos pareciam mais importantes do que qualquer relógio.
De repente, ela deu um tranco para trás, empurrando de leve o meu peito com as duas mãos e me encarando com os olhos vermelhos e semicerrados.
— Por que você está me abraçando? — ela perguntou, a voz saindo meio rouca e ríspida, tentando recuperar aquela postura defensiva de sempre.
Olhei para baixo, arqueando uma sobrancelha.
— Olha, ruiva, se a minha memória não falhou nas doze horas de voo, foi você que me abraçou primeiro — rebati, segurando o riso.
— Ah, é? Então não me abraça mais! Me solta! — ela esbravejou, cruzando os braços.
O detalhe era que ela falava para soltar, mas as mãos dela continuavam firmes na barra do meu paletó, me segurando ali. Ergui as duas mãos para o alto, mostrando as palmas, totalmente rendido àquela lógica maluca dela.
— Eu até tentaria te soltar, mas você me esmagando desse jeito e me privando do oxigênio fica um pouco complicado, não acha? — provoquei, olhando para as mãos dela ainda presas no meu tecido.
— Você é um besta! Um idiota completo! — ela xingou, o rosto ficando vermelho, misturando a vergonha com a raiva de ter sido pega no flagra.
— Por que você está brigando comigo do nada? — perguntei, rindo fraco e abaixando os braços.
— Eu não sei! — ela rebateu, bufando e jogando os braços para baixo, parecendo brava com o próprio comportamento.
— É, pelo visto a gente já se acostumou tanto a brigar que você faz isso até no piloto automático — comentei, dando um passo curto para frente. — Mas tudo bem. Se você quiser brigar e descontar em mim agora, não tem problema. Pode vir.
Falei sério. Se o deboche e as patadas de sempre servissem para distrair a cabeça dela daquele cenário fúnebre de pronto-socorro, eu aceitaria o papel de saco de pancadas com o maior prazer. Mas olhando bem para ela ali... o estrago físico era visível.
Os olhos estavam inchados, as olheiras profundas marcavam a pele clara e o cabelo ruivo acobreado parecia um verdadeiro ninho de passarinho desgovernado. Me causou um aperto no coração.
Analisei aquela bagunça com um sorriso de canto.
— Faz quantos dias que você não toma um banho de verdade, hein? — soltei, arqueando a sobrancelha.
— Cala a boca, Blackwood! — ela sibilou, me fuzilando com o olhar. — levantando os braços para ver se estava fedendo.
— Alô? — a voz dela atendeu, com um barulho de fundo de papéis e conversas sobrepostas.
— É o Rocco. Estou no carro com a Sky, tirando ela um pouco do hospital para comer e tomar um banho. Como estão as coisas por aí? Onde vocês estão? — perguntei direto.
— Ah, Rocco! Que bom que você está com ela. Nós estamos todas aqui na casa da Sakura viradas no café. O Nathan e o Diego estão aqui dando a maior força para a gente com a parte de iluminação e estrutura, então está todo mundo ajudando. Pode ficar tranquilo que a gente vai conseguir finalizar esse projeto a tempo e colocar de pé para a apresentação no sábado. Cuida dela por aí.
— Pode deixar. Qualquer coisa me deem um toque — respondi e desliguei o viva-voz.
Olhei de soslaio para a ruiva capotada no banco do carona, já vencida pelo cansaço, e senti uma pontada de preocupação legítima travar o meu estômago. Aquela situação toda do concurso ia dar muito mal. Muito mal mesmo. A Sky já tinha ficado doente, tido problemas o corpo e a mente dela estava pedindo arrego e o psicológico estava em frangalhos com o colapso do pai. Como é que ela ia conseguir compensar o atraso do trabalho dela com o resto da equipe da startup, mesmo com todo mundo se matando para entregar no sábado?
O problema real e bizarro que fazia o meu sangue esfriar era outro. O mistério que eu tinha descoberto na biblioteca de Londres.
Se o meu avô Heitor Blackwood resolvesse vir para o Brasil por qualquer motivo e descobrisse que tem um Bittencourt trabalhando diretamente em um projeto da Blackwood... ele criaria um caso monstruoso na mesma hora. Ele moveria céus e terra para destruir a startup dela. E o pior é que eu não teria como falar nada ou bater de frente usando a lógica, porque o velho perdeu o próprio filho naquela maldita estrada e o pai da Sky era o único culpado.
Engoli em seco, mantendo os olhos fixos no asfalto escuro de Porto Alegre. Olhei para a Sky dormindo ao meu lado, fingi a minha melhor cara de paisagem para esconder o tamanho daquele segredo e continuei dirigindo, levando a minha arquiteta direto para a segurança da casa dela.
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