(POV Sky)
Cheguei em casa parecendo um bônus de filme de terror que o diretor resolveu descartar por ser "perturbador demais". Eu estava descalça, sentindo cada imperfeição do asfalto de Porto Alegre sob os pés — o que incluía uma textura suspeita de chiclete e poeira — vestindo um moletom enorme que cheirava a uma mistura perigosa de luxo e testosterona, e carregando um cadáver de cetim pichado debaixo do braço. Para completar o cenário de humilhação, eu exalava o perfume de um homem que, em teoria, custaria sete mil reais, mas que na prática me deu um "golpe de cavalheirismo" que eu nunca vou conseguir explicar para a terapia sem que ela me interne.
Moon estava na sala, e o rosto dela foi uma jornada cinematográfica: começou no alívio puro ao ver que eu não era um corpo no IML, passou pela confusão técnica ao ver meu "look rapper depressiva" e estacionou no choque absoluto quando o radar dela apitou.
— Sky! Pelos anéis de Saturno, você está viva! — Ela gritou, correndo na minha direção, mas parou a dois metros, farejando o ar como um perdigueiro de elite. — Onde você estava? Sky, você... você mandou aquela mensagem... "Noiva Gogo"? Você realmente fez... "mt seXo"?
A pergunta dela me atingiu como uma marretada no meio da testa. Enterrei o rosto nas mãos, sentindo o tecido macio do moletom dele contra as minhas bochechas. O cheiro de Malbec e sândalo invadiu meu nariz de novo, e com ele, veio o primeiro flash: eu, com as mãos espalmadas no peito dele, sentindo os gomos daquela barriga como se estivesse lendo braile. Será que eu teria que devolver esse moletom? Deus queira que não. Tomara que eu nunca mais o veja. Porto Alegre é imensa, eu nunca mais vou pisar naquele distrito. Jamais.
— Moon, pelo amor de tudo o que é sagrado, não repete essa frase! — Berrei, sentindo meu rosto atingir a temperatura do núcleo da Terra. — Eu não fiz nada! Eu sou uma farsa! Uma arquiteta provavelmente desempregada, corna em rede nacional e agora com uma dívida moral com um gigolô que tem ética! Você tem noção do quanto isso é humilhante? Tentar ser uma devassa e ser rejeitada por um prostituto?!
Nesse momento, as comportas da minha memória se abriram e os flashes começaram a entrar na minha mente com a força de um furacão. Eu beijando ele com uma fome de quem não come há anos... o cheiro dele... e então, a imagem proibida: eu colocando o pau dele na boca. Minhas pernas fraquejaram. Escorei na parede e fui escorregando até o chão, derretida como uma poça de vergonha.
— Sky? Você está bem? — Moon se aproximou, me cutucando com o pé. — Você... você usou drogas?
— Antes fosse, Moon! — Respondi debaixo das mãos. Como é que eu ia dizer a ela? "Não usei drogas, mas eu chupei a rola de um homem de um prostíbulo e agora estou preocupada com a flora bacteriana da minha boca"? Impossível. Coloquei a língua para fora e, num ato de puro desespero e falta de noção, limpei-a na manga do moletom dele. Como se aquilo fosse adiantar alguma coisa. Eu queria morrer. Queria ser enterrada viva sob uma camada de asfalto.
— O Victor ligou mil vezes, a Sofia mandou mensagem fingindo que não é uma piranha... eu achei que você tinha sido sequestrada, sei lá! Eu estava vendo na internet sobre rituais com noivas na sexta-feira treze ou que você tinha tido um surto psicótico e estava pelada no Parque Redenção! — Moon continuou, gesticulando com o celular.
— Antes fosse um ritual satânico, Moon! Pelo menos eu já estaria debaixo da terra e não teria que encarar a segunda-feira. Eu só ganhei uma ressaca que faz meu cérebro parecer que foi passado num triturador de concreto e uma memória que eu vou ter que pagar anos de análise para apagar — respondi, me levantando com dificuldade e passando por ela como um furacão de moletom. — Agora, se você me ama, não abra a boca. Não fale de "sexo", não fale de "noiva" e, principalmente, não fale de "gigolô".
Sólido igual àquele abdômen. Merda.
Saí do banho e o choque de realidade bateu mais forte que a vodka. Peguei o celular e vi a central de desastres: dezenas de ligações perdidas e mensagens. No meio de tanta baixaria do Victor e da Sofia, um e-mail com o timbre da Gouveia Construtora fez meu coração dar um solavanco, acelerando tanto que parecia que eu ia ter um treco ali mesmo, de toalha e tudo.
Assunto: Reunião Administrativa - Destrato e Pendências Técnicas.
Prezada Sky Bittencourt, Tendo em vista os últimos acontecimentos e sua decisão de não integrar formalmente a família através do matrimônio, solicitamos sua presença na sede da Gouveia Construtora na segunda-feira, às 08:00. Resolveremos a situação do seu contrato, o uso do espaço físico e os próximos passos sobre o projeto Blackwood Horizon. Atenciosamente, Administração Paulo Gouveia.
O tom era de uma frieza cirúrgica. Decisão de não integrar a família? Como se a culpa fosse minha por não querer casar com um traidor! A menção ao contrato me deu um frio na espinha. Eu nunca tinha mexido naquelas pastas desde que comecei a trabalhar lá; eu confiava no Tio Paulo. Mas agora, a urgência daquele e-mail me dizia que eu precisava saber exatamente onde estava pisando.

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