POV SKY
Vesti meu pijama mais velho, aquele com furos que combinava com a minha alma, e fui até o quarto do meu pai. O som rítmico do respirador era o metrônomo da minha culpa. Olhei para ele, o gênio que me ensinou a amar as linhas retas, e senti o peso de cada falha minha. Sentei ao lado da cama e, pela primeira vez em anos, contei a verdade para aquele corpo imóvel.
— Eu vou dar um jeito, pai. A Zênite Arch Design vai nos tirar dessa lama, nem que eu tenha que desenhar cada pilar com o meu próprio sangue.
Fui até o fundo do armário e peguei a pasta de couro desgastada que eu evitava abrir. Ali estava o documento que eu assinei há sete anos. Eu tinha quinze anos na época. Fazia apenas três dias que tínhamos enterrado minha mãe e ele estava naquela UTI, entre a vida e a morte. O Paulo chegou como o salvador da pátria, falando em proteger o patrimônio da órfã enquanto eu mal conseguia enxergar o papel através das lágrimas.
Agora, com meus olhos de arquiteta formada e especialista em cálculos de viabilidade, as palavras no papel não gritavam proteção; elas gritavam traição.
— Três por cento... — sussurrei, a voz falhando enquanto meu coração martelava.
Eu tinha emprestado o terreno da nossa família o lugar onde a Gouveia Construtora ergueu o império dela em troca de meros 3% do lucro líquido mensal da empresa para custear as despesas médicas dele. Três por cento! Enquanto o Paulo Gouveia trocava de carro todo ano, nós morávamos nesse apartamento com cheiro de mofo porque as migalhas dele mal cobriam a enfermeira, o respirador e a minha faculdade. Ele descontava até o aluguel camarada do valor que nos repassava.
Ele não nos ajudou. Ele nos arrendou. Transformou nossa tragédia em um modelo de negócio lucrativo onde ele era o dono do império e eu era apenas a herdeira de uma dívida que nunca parava de crescer. Fechei a pasta com as mãos tremendo.
Passei o sábado em casa, alternando entre o ódio e a vergonha. Contei a verdade nua e crua para o Alex: não teve sexo épico, eu não usei o presente dele e continuava virgem. Pelo jeito, seria para o resto da vida. Meu noivo me negou no altar e um gigolô de luxo me rejeitou na cama. A situação só ficava pior.
— Amiga, foca no projeto do concurso — o Alex disse, tentando me animar enquanto me entregava um lenço. — Se você ganhar esse concurso da Blackwood, você manda o Paulo Gouveia e os 3% de esmola dele para o quinto dos infernos.
— Na verdade, eu acho que ele é quem vai me mandar para o inferno. Tenho reunião segunda-feira, às oito da manhã. O clima vai estar mais pesado que a fundação de um arranha-céu.



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