POV: ROCCO
Ela continuou tossindo e despejando todo o conteúdo do estômago direto no meu peito.
A afastei um pouco e ela tossiu se engasgando, fazendo com que o líquido corrosivo e ácido respingasse na minha cara.
O cheiro terrível e azedo tomou conta do ar da sala inteira num piscar de olhos. Quando ela finalmente terminou soltou um suspiro fraco, desabando de lado no sofá, olhei para baixo e senti o meu estômago revirar. Havia restos nítidos de macarrão grudados no tecido da minha roupa e vomito escorrendo pelo meu peito e na minha cara.
A Sky limpou a boca com as costas da mão, soltou um gemido manhoso e simplesmente voltou a dormir, pesada, como se não tivesse acabado de destruir o meu terno, a minha dignidade e o meu tapete de cinco dígitos.
Me afastei dela cambaleando, sentindo o rastro gosmento e quente no meu pescoço. Eu estava em absoluto estado de choque. Olhei para aquela ruiva folgada, olhei para o estrago no chão e para o resto de macarrão.
Sem saber como reagir, simplesmente me joguei de costas no piso de porcelanato da sala. Deitei ali mesmo, no meio do caos, e bati a nuca contra o chão frio algumas vezes, encarando o teto com os olhos arregalados de desespero.
— Meu Deus... Por favor, devolve a minha sanidade — supliquei em voz alta para as paredes vazias, a voz saindo em um fio de pura derrota. — O que porra está acontecendo comigo? O que essa garota fez com a minha vida?
Fiquei ali por dois minutos inteiros, tentando recuperar a dignidade. Suspirei, levantei-me com cuidado para não espalhar o estrago e tirei o moletom imundo de uma vez, jogando-o direto dentro do cesto da área de serviço. Peguei um pano úmido, limpei o meu queixo com nojo e caminhei até a cozinha para olhar o relógio digital do forno de luxo. Passava das 01h da madrugada.
Peguei o meu celular e liguei imediatamente para a farmácia 24 horas da avenida principal.
— Alô. Preciso de uma entrega de urgência para a cobertura do edifício Blackwood — ditei de forma autoritária para o atendente. — Me manda o melhor remédio para ressaca que vocês tiverem, protetor gástrico e algo para enjoo forte. Pode colocar a taxa de entrega na velocidade máxima.
Desliguei o telefone e passei a mão pelos cabelos, encarando a sala de estar. Eu não tinha uma única peça de roupa feminina naquele apartamento. Eu não trazia mulheres para dormir aqui, muito menos para morar. Mas a verdade escancarada na minha cara era que, toda vez que a desgraça acontecia na vida dela, a Sky acabava deitada exatamente ali, dormindo sob o meu teto e sob os meus cuidados.
E o pior de tudo... o que me deixava realmente apavorado por dentro? Eu não estava achando ruim. Nem um pouco.
Olhando para ela ali, frágil, percebi que o meu peito estava preenchido por uma sensação de utilidade que eu nunca tinha experimentado antes. Eu passei a vida inteira controlando pessoas por obrigação, por poder, por contratos ou por pura manipulação financeira. Mas cuidar da Sky não tinha nada a ver com controle. Eu estava fazendo aquilo por puro afeto, por um desejo ardente de garantir que ela ficasse segura e bem.
Fiquei parado na ponta do sofá, observando o peito dela subir e descer devagar. Um pensamento absurdo, ridículo e completamente avassalador cruzou os meus neurônios naquele instante: Talvez se essa garota decidisse me colocar uma coleira de couro no pescoço e saísse me puxando pelas ruas de Porto Alegre igual a um bicho de estimação... eu simplesmente iria atrás dela sem reclamar.
Travei no lugar, os meus olhos arregalando sozinhos com o teor daquela constatação. Balancei a cabeça com força, me xingando mentalmente em todos os idiomas que eu conhecia.
— Não! Que porra é essa? Ficou maluco, Blackwood? — sussurrei para mim mesmo, indignado com a minha própria submissão mental. — Eu é que coloco a coleira e as amarras nas pessoas! Eu sou o Dom aqui! Que merda está acontecendo com a minha cabeça?
Dei um tapa na minha própria testa, tentando acordar para a realidade.
— Pronto. Agora eu vou ter que banhar você de qualquer jeito, vou ter que me banhar direito e ainda vou ter que passar a madrugada inteira banhando o meu apartamento para tirar esse cheiro de macarrão azedo — resmunguei sozinho, caminhando até o sofá.
— O que você quer ser meu, então? — ela perguntou, a voz saindo mansa e arrastada.
Antes de responder, estiquei o braço e peguei uma escova de dentes nova que eu já mantinha guardada e separada no armário do banheiro. Afinal, por algum motivo bizarro, ela sempre acabava passando as noites sob o meu teto. Dei um pouco de pasta e guiei a mão dela.
— Escova os dentes primeiro. Você precisa usar isso agora, porque depois dessas suas bebedeiras históricas, você sempre acorda com um bafo de meia suja inacreditável na manhã seguinte.
Ela deu mais uma risada boba e fez o que eu mandei de qualquer jeito, cuspindo a espuma antes de voltar a limpar a boca. Ela quase sufocou de novo enfiando a escova na garganta.
Bêbados não devem escovar os dentes, não mesmo.
Aqueles olhos claros voltaram a cravar em mim, esperando pela resposta que tinha ficado no ar.
— O que você quer ser para mim? — ela perguntou novamente.
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Alguém ai já imagina o que Rocco vai dizer??

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