POV: SKY BITTENCOURT
Abri a porta do quarto e andei pelo corredor silencioso da cobertura, tentando não fazer barulho com os pés. Quando alcancei a transição para a sala de estar ampla, meus passos travaram automaticamente no piso de porcelanato.
O Rocco estava ali.
Ele estava sentado na ponta do sofá de três metros, com as pernas longas esticadas e um notebook apoiado nas coxas. O tronco largo estava totalmente descoberto, exibindo a pele clara, os músculos rígidos do abdômen e as linhas marcadas dos braços que eu conhecia tão bem da penumbra dos meus pecados. Ele usava um par de óculos de descanso de armação escura e estava concentrado na tela, com uma expressão séria e focada.
Engoli em seco, sentindo as minhas mãos começarem a suar.
Era uma injustiça terrível. Até com aquela cara de nerd e os cabelos bagunçados ele conseguia continuar lindo.
Rocco ergueu os olhos verdes por trás das lentes no exato momento em que o meu pé fez um estalo mínimo no chão. Ele me mapeou de cima a baixo com o olhar, o que quase me fez voltar correndo para o quarto.
— Olá, Bittencourt — a voz dele saiu baixa, grave, arrastando o meu sobrenome com uma calmaria que me deixou imediatamente em alerta.
— Oi — soltei, o tom saindo mais agudo do que eu pretendia. Limpei a garganta, tentando manter a postura defensiva. — Como você... como você está?
— Eu estou ótima.
— Tem certeza? — ele insistiu, arqueando a sobrancelha.
— Sim. Claro que sim.
— Ah, tá. Porque a sua cara não está das melhores — ele comentou, fechando o notebook parcialmente, mas sem tirar os óculos.
— Na verdade. um pouco estranha — confessei, cruzando os braços para esconder o tremor nos meus dedos. — Para ser bem sincera, eu não lembro direito de quase nada do que aconteceu ontem. Minha mente está um borrão. Nem sei como vim parar aqui.
Rocco inclinou a cabeça milimetricamente, os olhos verdes brilhando por trás do vidro com uma intensidade perspicaz, fria e analítica. Ele sustentou o meu olhar por cinco segundos inteiros.
Será que ele sabia que eu estava mentindo?
Não estava mentindo não. Quer dizer, muito não... Só um pouco. Parcialmente. Tentei me convencer mentalmente.
— É mesmo? Você não lembra de nada? — ele perguntou, o tom perigosamente manso.
— Nada — menti descaradamente, sentindo um suor frio brotar na minha nuca. Dei dois passos para o lado, tentando escapar do escrutínio dele. — Estou com fome. Tem alguma coisa para comer?
— Deixei a mesa posta para você.
Girei nos calcanhares e praticamente fugi em direção à cozinha gourmet. O que separava o ambiente da sala era apenas o balcão. Em cima dele, havia um prato com frutas cortadas, pães frescos, suco natural e uma xícara de café fumegante. Sentei-me na banqueta alta e comprei briga com a comida. Comecei a comer com pressa, enfiando um pedaço de pão na boca na tentativa de aplacar o buraco de ansiedade que tinha se aberto no meu estômago.
Rocco levantou-se do sofá, deixando o computador de lado, e caminhou até a cozinha a passos lentos e silenciosos. Ele se encostou no batente da porta, cruzando os braços nus sobre o peito largo, apenas me observando comer com uma intensidade que começou a me sufocar.
— O que foi? — perguntei com a boca meio cheia, as bochechas queimando de vergonha sob o olhar dele. — Se você continuar me olhando desse jeito, vai acabar abrindo um furo em mim.
— Você é absurdamente grossa, Bittencourt, sabia disso? — ele soltou uma risada curta, sem demonstrar irritação verdadeira, apenas o sarcasmo de sempre.
O ar sumiu dos meus pulmões por um segundo. Olhei para o prato, sem saber o que dizer. Minha vontade era encontrar um buraco, entrar nele e pedir para jogarem concreto por cima.
Ele cruzou os braços e ficou me encarando, arqueando a sobrancelha, como se estivesse esperando eu fazer, falar ou jogar algo nele. Para travar a minha própria boca, apenas peguei uma banana, descasquei e enfiei na boca de uma vez.
— Ok. Obrigada... amigo.
Ele soltou uma risada, coçando a garganta.
Por que será que ele riu? Pensando bem... a gente nem é tão amigo assim. Ou é??
Droga, eu nem sei.
— E tem mais uma coisa— ele continuou, a voz firme, sem espaço para discussões. — Daqui para a frente, você está terminantemente proibida de beber se eu não estiver por perto.
Soltei uma risada cínica, tentando recuperar o controle da situação.
— Você está brincando, né? Você não manda em mim. Não é o meu pai.
— Eu não estou brincando — o olhar dele endureceu, os olhos verdes cravando nos meus com uma autoridade absoluta. — Estou falando muito sério.
E essa frase ecoou na minha cabeça, me fazendo lembrar de um flash embaçado da noite passada... ele dizendo que queria ser tudo para mim.....tudo para mim.... tudo para mim....
Caramba.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Virgem Traída Contratou um Gigolô e Ele era um Bilionário