— Sky... — a voz de Victor veio de trás de mim, carregada daquela falsa piedade que me fazia querer vomitar. — A gente pode conversar?
— Não temos nada para conversar.
— Eu posso explicar, eu te amo, não queria te magoar.
Virei-me devagar, sustentando o olhar. Victor tinha aquele jeito de garoto arrependido que sempre funcionava comigo, mas hoje eu só via um estranho.
— Você já fez isso. Você foi a última pessoa no mundo que eu achei que teria coragem de me machucar, Victor. — Minha voz saiu firme, embora meu coração batesse contra as costelas. — Foi bonito enquanto durou o teatro, mas agora... aproveite o show com a Sofia.
Ele tentou abrir a boca, mas eu o deixei falando com as caixas. Entrei na sala da presidência sem bater. Paulo Gouveia estava lá, encostado na mesa, conversando com Max, um associado dos EUA que estava ali para o projeto do novo estádio. Max me comprimentou e saiu da sala.
Paulo era a imagem do que o Victor seria em vinte anos: o mesmo cabelo preto denso, os mesmos olhos castanhos que pareciam ler seus pecados, mas moldados por uma frieza que o filho ainda não tinha. Ele estava impecável em um terno de corte italiano e um relógio de ouro que brilhava sob a luz da sala, um contraste obsceno com as caixas de papelão que me esperavam lá fora.
— Como você está, Sky? — Paulo perguntou.
— Estou bem.
— Precisamos ter uma última conversa. Você não quer pensar, tentar de novo? Precisamos de você e você precisa de nós.
— Sem decisões a tomar, Paulo Gouveia. — Apontei para o corredor. — Minhas coisas já estão encaixadas.
— Mas ainda dá tempo, somos quase uma família.
— Pensei que já fôssemos família.
— E éramos. Mas sua "performance" na igreja colocou todos nós no ridículo. Eliana está no hospital, à base de calmantes por causa do choque que você causou.
— Como se a culpa fosse minha — retruquei, sentindo o sangue subir.
Ele não respondeu, apenas me olhou com aquela maestria de vilão que dizia, sem usar palavras, que a culpa era toda minha.
— Certo, já entendi. E agora? Assino os papéis? — perguntei para interromper o silêncio constrangedor.
— Minha querida Sky. Mandei os contadores organizarem tudo.
Ele deslizou uma pasta para mim. Sentei-me e comecei a ler o contrato de sete anos atrás. Eu lembrava do faturamento da Gouveia; há três anos, ajudando no balanço, vi que o lucro passava de 15 milhões de reais por ano. E o que eu recebia? Três por cento.
— O que é isso? — perguntei, sentindo o sangue fugir das mãos enquanto via uma planilha de débitos infinita.
— O custo da sua gratidão, querida. — Paulo cruzou os braços, os olhos castanhos fixos nos meus. — Você se esquece de como as coisas estavam quando seu pai sofreu o acidente. As cirurgias de emergência, o funeral da sua mãe, a multa contratual que tivemos que pagar para encerrar a firma falida do seu pai, a multa paga ao Lacerda e os advogados que impediram que vocês fossem despejados... A poupança do seu pai não cobriu tudo e, por consideração, eu emprestei o restante a você.
Ele apontou para os números vermelhos na planilha, que pareciam gritar comigo.
— Durante sete anos, os seus 3% foram usados para abater apenas os juros desse empréstimo que fiz para salvar sua família, além dos custos médicos do homecare do seu pai. Mas o montante principal nunca foi pago. Somando sua pós-graduação, a faculdade da Moon, o respirador importado e as taxas acumuladas com 5% de juros ao ano... a conta fechou em 840 mil reais.
— Isso não pode ser verdade! — afirmei para mim mesma, enquanto meu cérebro processava a informação.

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