POV: SKY BITTENCOURT
— Para com esse tipo de coisa, Blackwood — resmunguei, tentando afastar o meu rosto da proximidade dele.
A minha pele parecia colada à dele, queimando de calor. O meu estômago despencou em um poço de nervosismo.
— Você faz isso de propósito só para me deixar totalmente sem graça.
O Rocco soltou um suspiro fraco, tirando a mão do meu rosto, mas permaneceu inclinado na minha direção, me cercado com aquele perfume forte de madeira que me deixava tonta.
— O seu ex-namoradinho nunca falava que gostava de você? — ele perguntou, com a voz mansa, quase um sussurro. — Ele nunca fazia as vontades dessa sua cabeça dura?
O nome do Vitor entrou na conversa como um balde de água gelada na minha cara. O meu peito apertou na mesma hora. Lembrei do pavor do subsolo do clube, daquela iluminação vermelha e sinistra, e apertei as minhas próprias mãos no colo, cravando as unhas na palma para tentar me segurar.
— Eu amava o Vitor porque ele era o meu amigo, Blackwood — comecei, a voz saindo um pouco trêmula, mas firme. — Ele era a única pessoa real que eu tinha no mundo naquela época. A única que eu achava que conhecia de verdade. Mas se você quer saber a real... eu nunca me senti tão à vontade com ele do jeito que eu me sinto com você.
O Rocco arqueou a sobrancelha, fixando as pupilas verdes em mim, prestando uma atenção bizarra em cada palavra. Ele não piscava. Parecia tentar ler o que estava por trás do meu fôlego curto.
— Talvez você não consiga entender isso — continuei, sentindo um arrepio na espinha e encarando os nós dos meus próprios dedos no escuro do carro. — Porque você provavelmente nunca levou ninguém a sério na sua vida inteira. Mas até o dia em que eu peguei o meu diploma da faculdade, eu era uma pessoa extremamente determinada. Eu focava no meu objetivo e esquecia o resto do mundo. O Vitor vivia reclamando que eu nunca tinha tempo para ele. A gente trabalhava na mesma construtora, namorava e só se via de verdade nos finais de semana. Era mais uma amizade de rotina que resolveu virar namoro porque parecia o caminho certo. Nunca teve... nunca teve essa loucura que a gente tem.
O Rocco permaneceu imóvel por longos segundos. O silêncio na garagem era absoluto, dava para ouvir apenas o barulho do motor da Mercedes esfriando. De repente, o canto da boca dele se ergueu naquele sorriso ladino que fazia o meu sangue ferver.
— Ainda bem que nós dois não somos amigos, né?
— Não, nós somos inimigos. Você esqueceu? — tentei recuperar o meu escudo de deboche, engolindo o seco para o meu coração não pular pela boca.
— Eu não esqueci — ele rebateu, o olhar descendo para os meus lábios. — Tenho muitos motivos para continuar sendo seu inimigo, principalmente depois desse papo.
— Eu odeio você — disse a ele, mordendo os lábios e sentindo uma onda de calor absurda subir pelo meu pescoço.
— E eu não gosto de você, Bittencourt.
— Nem eu de você, Blackwood.
A brincadeira morreu nos olhos dele de bofetão. O Rocco esticou a mão de novo, mas dessa vez ele segurou o meu queixo com uma força controlada e firme, travando o meu rosto para me obrigar a olhar direto nas pupilas dele, que estavam escuras, quase pretas de tanta intensidade.
Eu ignorei o chamado dele. Meus tênis faziam um barulho estridente de borracha derrapando no chão liso da garagem enquanto eu disparava em direção à entrada do bloco. Puxei a mochila contra o peito e apertei o passo, com o ar queimando os meus pulmões.
— Oie! — gritei para o porteiro que estava na guarita de vidro, passando por ele igual a um furacão desgovernado.
O homem tomou um susto tão grande que quase derrubou a caneca de café na mesa, me encarando com os olhos arregalados enquanto eu corria até o hall de entrada. Avancei contra o painel do elevador privativo e comecei a apertar o botão de chamada várias vezes seguidas, de forma frenética. Minhas mãos estavam tremendo tanto que eu mal conseguia acertar o centro do botão luminoso.
A porta de metal finalmente se abriu com um bipe suave. Eu entrei de bofetão, me joguei contra a parede dos fundos e apertei o botão da cobertura. Assim que as portas se fecharam, me encarei no espelho do elevador.
Só depois, olhando para o meu próprio rosto completamente vermelho, com os cabelos bagunçados e a respiração totalmente arfante, eu percebi que estava agindo exatamente como se estivesse indo para a minha própria casa. Eu tinha fugido dele para correr direto para a TOCA DO LOBO dele.
Droga de efeito Blackwood. Aquele homem desgraçava a minha capacidade de raciocinar.
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ESSA SKY É UM CAOS AMBULANTE. KKKKKKKKKK

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