POV: SKY BITTENCOURT
Saí da sala da presidência com as pernas tão bambas que precisei apoiar o peso do corpo na parede de madeira do corredor antes de conseguir caminhar até o elevador. Minha boca ainda ardia do beijo bruto do Rocco, e a sensação da língua dele me fazendo gozar ainda repuxava no fundo do meu ventre. Eu não queria mais nada além daquilo, o que provava que, quando se trata daquele homem, a minha libido é totalmente desgovernada.
E o pior de tudo é que eu amo. Amo esse controle dele, amo essa sensação física de pertencer a esse homem de um jeito visceral.
Só que isso também me trazia uma culpa desgraçada. Como eu podia estar ali, derretendo por causa de um homem e sentindo calor por ser dominada, enquanto a minha vida inteira corria o risco de desabar lá fora?
Meu pai estava preso àquela cama de hospital, a minha irmã Moon provavelmente desesperada, audiência marcada, sem saber o que fazer, e eu tendo pensamentos libertinos no meio do andar corporativo?
Estou sendo, feliz sem se preocupar?.
Uma queimação esquisita apertava o meio do meu peito. Será que é errado se sentir tão viva e feliz quando tudo ao redor parece desmoronar?
Voltei para a minha mesa no setor de arquitetura e tentei focar os olhos na tela do computador, mas a minha mente continuava um caos completo. Eu tinha problemas demais se acumulando. A preocupação sufocante com o estado do meu pai, a falta de dinheiro para as contas que não paravam de chegar e o fantasma daquela audiência de sexta-feira com os Gouveia.
Só de lembrar daquele tribunal, um calafrio real cortava a minha espinha e fazia os meus pelos do braço arrepiarem. Para completar, eu ainda precisava desenhar todo o plano de aterramento e definir o número exato de andares para a FASE 2 do concurso.
E ainda tinha a quinta-feira. Eu tinha aquele encontro marcado com o Hades no Ambrosia Club, mas a minha decisão estava tomada: eu ia pisar lá amanhã para encerrar o meu contrato de vez. O Rocco era um homem difícil, cheio de segredos e com uma lista infinita de defeitos, mas por respeito ao sentimento que estava nascendo entre nós, eu ia fazer isso.
Porque eu não aguentaria o peso na consiência.
Infelizmente.
Eu não sabia direito se era certo ou errado aceitar esse lado dele, ou se eu estava sendo completamente cega.
DROGA!
Aquele imbecil do Blackwood simplesmente distorcia toda a minha noção de lógica.
Eu só queria ele. Queria ficar com ele, mesmo sabendo que a nossa diferença era um abismo. Eu não tinha nada, me sentia um poço de inseguranças e com um milhão de defeitos. Eu nem me achava bonita o suficiente para o padrão de um bilionário arrogante como ele, mas eu queria aquele homem de verdade. Queria jogar limpo.
Claro que eu ia exigir que ele cancelasse qualquer acordo ou contrato que tivesse com alguma submissa no clube também, mas primeiro eu precisava limpar a minha barra, focar em ganhar esse projeto e resolver as pendências da minha vida.
Eu estava ali perdida nesses pensamentos, batendo cabeça com um comando travado no software de modelagem, quando o Gael apareceu do meu lado para me ajudar novamente.
Eu o achava gentil, educado e bondoso.
Eu não poderia enganar ele, queria abrir o jogo. Eu gostava dele, do toque dele, mas depois de ter o meu corpo incendiado de verdade pelo Rocco, nada de fato nunca se comparou com a ebulição que acontece nas minhas artérias quando estou com o Blackwood.
Depois do almoço ele veio conversar comigo.
— Você está bem, Sky? — ele perguntou, inclinando o corpo perto de mim, com a voz mansa. — Senti saudades, a gente podia conversar.
— E a gente tem que conversar mesmo — respondi, puxando o corpo um pouco para trás para manter a distância e focando os olhos nos desenhos da tela.
— Eu te levo para casa hoje, pode ser? — ele se aproximou, esticando os dedos para tocar o meu rosto.
Desviei rápido, fingindo que estava arrumando os fios do meu cabelo ruivo atrás da orelha.
— Ok. Perfeito — sorri em resposta.
Como diz o Rocco: resolva o que puder e o que não puder deixe para depois. Primeiro eu iria resolver a minha questão com o Gael, depois eu iria me resolver com o Hades no clube, depois tentar um empréstimo para o hospital, depois ir na audiência com os Gouveia e tentar não enlouquecer, depois ser a irmã mais velha de suporte e, no fim, me acertar com o Rocco. Belos planos?
Quanta bagunça na mente de alguém. Droga.
No final do expediente, ele voltou a me cercar na mesa.
— Então, eu ainda te levo em casa, Sky?
Sim. Eu só tinha esquecido um detalhe pequeno.
— Depois, se você quiser ajuda, eu posso ver o seu trabalho e te dar uma força.
— Tudo bem, não precisa, temos a Sakura na equipe mesmo.
— Mas se você quiser...
— Tá bem — respondi, cortando para não prolongar o assunto. — O que eu quero falar é sobre nós.
— Nós? — o Gael tentou passar a mão no meu rosto enquanto me olhava rápido, voltando os olhos para a pista logo em seguida.
Me esquivei de leve contra a porta, fingindo olhar para a rua através da janela. O trânsito travou em um sinal vermelho logo adiante.
O Gael soltou o volante de uma vez, mudou de posição no banco, girando o corpo todo na minha direção, e grudou os olhos em mim. A intensidade daquele olhar me causou um desconforto esquisito.
— Como você passou esses dias, ruiva? Senti tanto a sua falta. Você sentiu saudade de conversar comigo ou sentiu saudade de mim? — ele perguntou.
No mesmo instante, a mão dele desceu pesada e apertou a minha coxa com força por cima do tecido do vestido.
Prendi a respiração de imediato, sentindo o toque dele repulsivo na minha pele. Segurei os dedos dele com firmeza, arranquei a mão dele da minha perna com um puxão e joguei de volta para o lado dele.
— Gael, a gente precisa conversar de verdade. Eu acho que nós não vamos dar certo.
O semblante dele mudou no mesmo segundo. As feições ficaram totalmente duras, rígidas.
— Como assim não vamos dar certo, Sky?
— Nós trabalhamos no mesmo lugar, somos adversários diretos nesse projeto da Blackwood e as coisas estão confusas. Não pode ter relacionamento entre funcionários — soltei a primeira desculpa esfarrapada que consegui citar. — Eu quero que a gente seja apenas amigos. É melhor parar por aqui.
O sinal piscou no verde. O Gael não disse uma única palavra. Ele empurrou a alavanca da marcha com um soco violento, fazendo as engrenagens estalarem, e pisou com tudo no acelerador. O motor soltou um urro estridente e o veículo avançou como um projétil pela avenida.

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