POV/ ROCCO
Cheguei na garagem do prédio, parei o carro de uma vez e desliguei o motor com um arranco bruto na chave. Eu ainda respirava curto, soltando o ar pesado pela boca enquanto tentava controlar o tremor de ódio que subia pelas minhas mãos. Meu maxilar doía de tanto que eu vinha cerrando os dentes durante o caminho.
Subi pelo elevador sentindo o suor frio colar a camisa social nas minhas costas. Eu sabia que a conversa lá em cima ia ser grande.
Quando a porta abriu no hall da minha cobertura, o comitê de boas-vindas já estava instalado. Minha avó e a Jussara estavam sentadas ali perto das malas caras, só esperando eu dar as caras.
Olhei para a Jussara de cima a baixo. Ela era uma mulher negra muito bonita, com cabelos cacheados volumosos e um corpo cheio de curvas que chamaria a atenção de qualquer um. Mas para mim ela não passava de um estorvo. A minha família insistia em dizer que éramos primos de segundo ou terceiro grau por causa de um rolo antigo com a irmã da minha avó, mas eu nunca liguei para entender essa árvore genealógica.
Como fui criado aqui no Brasil e quase não visitava os velhos lá fora, a gente mal se conhecia. Éramos dois estranhos unidos por uma imposição de negócios e de linhagem.
Minha avó, que andava sempre impecável e com aquela postura rígida de quem manda em tudo, ergueu os olhos azuis quando cheguei. Fui até ela, peguei a sua mão e dei um beijo nas costas da pele dela, mantendo o respeito que a velha exigia, e apenas acenei seco para a Jussara.
— Rocco — a Jussara tomou a frente, com aquela voz mansa e pausada de quem veio para cobrar. — A gente viajou muito porque precisamos ter uma conversa séria com você. Uma conversa de negócios.
— Sobre casamento?. — perguntei.
— Sim. — Minha avó respondeu por ela.
— Entrem. Vamos conversar lá dentro — cortei logo, sem dar brecha para vizinho ouvir nada no corredor, e abri a porta da sala para as duas passarem.
Assim que pisei para dentro, um nó apertou o meu estômago e o meu coração deu um baque feio. O ambiente inteiro ainda cheirava ao perfume doce da Sky e à bagunça que a gente tinha feito na noite anterior. Corri os olhos pelo balcão da cozinha americana e travei na hora: um batom e calcinha da ruiva estavam jogados bem em cima da bancada.
Senti um calafrio subir pela nuca. Minha família é extremamente conservadora com aparências e tradições. Se a minha avó batesse o olho ali e descobrisse que eu estava enfiando uma funcionária na minha cama , o mundo desabaria antes da hora.
Aproveitei que as duas estavam distraídas tirando os casacos da viagem, dei passos rápidos até a bancada e passei a mão por cima dos objetos. Juntei a calcinha e o batom em um movimento só e enfiei tudo direto para o fundo do bolso do meu paletó.
— Fiquem à vontade — soltei, tentando usar a minha voz mais normal e fria.
Antes de servir qualquer coisa, fui até o corredor e passei o olho rápido pelos quartos para ter certeza de que não tinha mais nada dela espalhado nenhuma peça de roupa ou sapato perdido.
Minha avó não piscou. Ela apenas se inclinou um pouco para a frente, apoiando as mãos no joelho, e o olhar dela ficou ainda mais rígido.
— Você sabe muito bem que eu sou a dona majoritária do Grupo STAR — a velha disparou, a voz saindo firme.
O Grupo STAR era um conglomerado gigante de tecnologia e inteligência artificial que controlava softwares de última geração no mercado internacional. Uma potência que, se alinhada à Blackwood CO e aos nossos projetos de arquitetura e infraestrutura, criaria um monopólio imbatível. Isso que eles realmente queriam dizer.
— Esse casamento não é só pelo Ravi — minha avó continuou. — É um alinhamento necessário para aumentar o peso do nosso sobrenome e disparar o valor das nossas ações no mercado. A STAR vai se fundir aos seus projetos, e em troca, nós ajudamos a consolidar o futuro do seu irmão até ele ter idade para assumir a parte dele. É um negócio perfeito.
— Nós podemos fechar um negócio, avó. Podemos assinar uma parceria comercial entre as empresas amanhã mesmo se for vantajoso — rebati, sustentando a mira dos meus olhos verdes na velha. — Mas a gente não precisa fingir que tem um relacionamento ou assinar um papel de casamento para isso.
Jussara soltou um riso contido do canto do sofá, mas a minha avó apenas semicerrou os olhos, descontentes com a minha resposta.
— Eu me casei com o seu avô para fechar um acordo de terras e expandir a linhagem, Rocco — a velha ditou, cheia daquele moralismo antigo. — Com o tempo e a convivência, o afeto vem. É assim que as coisas funcionam.
— Você casou com o meu avô lá nos anos mil e novecentos e bolinha — cortei de uma vez, sem paciência para o discurso nostálgico. — Hoje em dia o mundo mudou, a realidade é outra e eu não vou me casar agora. Além do mais... eu já tenho uma pessoa.

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