POV/ SKY
Dra. Marines ajeitou os processos na mesa, olhou para o escrevente e deu a palavra para a outra parte.
O advogado de Paulo Gouveia pigarreou, organizou a postura e fez um aceno sutil para que o cliente começasse a falar. Paulo limpou a garganta, adotando uma fisionomia mansa, quase abatida, forçando uma expressão de sofrimento que fez o meu estômago revirar na mesma hora.
— Excelência, eu confesso que o meu coração sangra por estar nesta sala hoje — Paulo começou, a voz saindo pausada, ensaiada. — Eu sempre fui um pai para essa garota. Quando o pai delas ficou inválido e a mãe faleceu, eu assumi a responsabilidade. O terreno onde a Construtora Gouveia foi erguida pertence à família Bittencourt, e eu, por pura consideração à parceria que tinha com o pai delas, cuidei de tudo. Como elas eram menores de idade, administrei os trinta e três por cento das ações que cabiam a elas, repassando o dinheiro que podia para sustentá-las, cuidando do sustento como se fossem minhas próprias filhas.
Apertei os punhos em cima da mesa, sentindo as minhas unhas enterrarem na carne da palma da minha mão. Minha respiração começou a ficar curta.
— O que a senhorita Sky não conta para o tribunal — Paulo continuou, virando o rosto na direção da juíza — é que o pai delas perdeu muito dinheiro com investimentos errados no passado. Eu emprestei valores do meu próprio bolso para pagar os tratamentos médicos dele. Eu fiz tudo o que podia por essa família. Mas a Sky sempre foi tomada por uma soberba incompreensível. Ela humilhou a minha gestão na empresa, rejeitou o meu auxílio financeiro e, para completar a minha dor familiar, ela traiu o meu filho, Victor, na véspera do casamento. Ela destruiu a nossa família e agora tenta se passar por vítima de uma cobrança legítima.
O ar sumiu dos meus pulmões por completo.
Traição.
Ele estava mentindo na frente da autoridade. Invertendo o papel do lixo do filho dele que me chifrou na minha própria cama.
Minha cabeça zoneou. Um calor absurdo subiu direto para o meu rosto e o meu coração desandou a bater em uma taquicardia tão violenta que eu conseguia ouvir o sangue latejando de forma ensurdecedora nos meus ouvidos.
— Diante do estado de saúde terminal do pai delas — Paulo prosseguiu, ajeitando o paletó cinza —, a minha construtora está propondo comprar a cota de trinta e três por cento delas por um valor simbólico de distrato, apenas para liquidar as promissórias da dívida e permitir que elas paguem o hospital. É um ato de caridade final que elas se recusam a assinar por puro orgulho.
— Mentiroso! — O grito saltou da minha garganta antes que eu pudesse conter. Fiquei de pé num solavanco, derrubando a cadeira de plástico para trás. — Seu filho da puta! Você roubou o nosso patrimônio por sete anos! Você deu um golpe no meu pai quando ele estava inconsciente!
— Ordem na sala! — Dra. Marinês bateu a caneta contra a mesa, a voz subindo de tom. — Senhorita Bittencourt, sente-se imediatamente. A senhora não tem o direito de se manifestar sem a permissão deste juízo.
— Ele está mentindo, Excelência! — berrei, apontando o dedo trêmulo na direção do Paulo, as lágrimas de ódio transbordando pelos meus olhos e borrando o resto de maquiagem. — O filho dele me traiu! Ele usou o nosso dinheiro para construir o império dele e nos deixou na miséria! Ele é um ladrão!
A Moon tentou segurar o meu braço, desesperada, puxando o tecido da minha camisa social.
— Sky, por favor, senta! — a minha irmã suplicou, chorando. — Você vai piorar tudo!
— Silêncio! — a juíza ditou, a expressão ficando rígida e severa. — Mais uma interrupção e eu mando retirar a senhora da sala por perturbação dos trabalhos. Doutora Márcia, controle a sua cliente.
Paulo Gouveia soltou um suspiro teatral, balançando a cabeça com uma falsa pena que arrebentou o último elo da minha sanidade.
— Veja, Excelência... é esse tipo de descontrole e agressividade que eu enfrento todos os dias. Uma completa falta de respeito com quem só tentou ajudar.
O mundo ao redor emudeceu.
Eu não vi mais a juíza. Não vi os advogados. Não ouvi os apelos da defensora pública.
Havia apenas a cara cínica do Paulo Gouveia zombando da ruína da minha vida.
Minhas pernas se moveram no automático, impulsionadas pelo ódio cego que dominava cada músculo do meu corpo. Contornei a mesa de conciliação com passos destrutivos antes que qualquer segurança pudesse reagir. Avancei para o lado esquerdo da sala como um bicho feroz.
Ergui o meu braço direito com toda a força física que eu tinha acumulada no peito e espatifei a palma da minha mão direto contra o rosto do Paulo Gouveia.
O tapa estalou alto nas paredes do tribunal.

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