(POV: MOON)
Prendi os dedos com força em volta das alças da sacola plástica preta, esmagando o volume contra o meu peito dentro do táxi. Os cinquenta mil reais em espécie pesavam como um bloco de chumbo no meu colo. Eu tentava respirar devagar, mas o cheiro de couro do banco do carro e o balanço do trânsito de Porto Alegre só faziam a minha cabeça girar mais rápido. Eu tinha acabado de vender um ano da minha vida no subsolo daquele clube.
Assim que o motorista parou na calçada de casa, joguei algumas notas trocadas no banco da frente, bati a porta e corri para dentro. Minhas mãos tremiam tanto que errei a fechadura duas vezes antes de conseguir girar a chave. Entrei, rastejei até o quarto e enfiei a sacola preta bem no fundo do armário, embaixo de uma pilha de casacos velhos, separando apenas um bolo grosso de notas, cerca de dez mil reais, para pagar a fiança.
Corri para o banheiro. Arranquei a jardineira jeans suja e a blusa azul, deixando as peças jogadas no chão, e entrei debaixo do chuveiro. Esfreguei a pele com o sabonete floral com força, quase arrancando fumaça, tentando limpar qualquer rastro da atmosfera pesada do Ambrosia Club do meu corpo.
Saí do box, sequei o cabelo correndo e vesti uma calça jeans limpa e uma blusa de manguinhas com florzinhas.
Olhei para o relógio de parede da cozinha e o ponteiro já tinha passado bem da hora do almoço. Meu estômago ardeu em uma pontada vazia, cobrando o preço de estar sem comer nada desde cedo. Eu não tinha tempo para cozinhar. Abri o armário com pressa, peguei um pacote de miojo, quebrei o bloco de macarrão cru ainda dentro do plástico e rasguei o sachê de tempero, jogando o pó lá dentro.
Saí batendo a porta de casa de novo, mastigando os pedaços secos e salgados do macarrão direto do saco enquanto corria em direção ao ponto de táxi. Aquilo arranhava a minha garganta seca, mas era o único combustível que eu tinha para conseguir chegar até a delegacia e tirar a Sky daquela cela.
O trajeto pareceu durar uma eternidade. Quando finalmente pisei no chão de azulejos encardidos da recepção do distrito policial, meu coração batia direto na garganta. Caminhei até o balcão de vidro alto, onde um inspetor de cara amarrada digitava devagar em um computador antigo.
— Licença — chamei, limpando o suor frio da testa com as costas da mão. — Eu vim pagar a fiança da minha irmã, Sky Bittencourt. Ela foi detida hoje no fórum. Estou com o valor aqui.
O homem nem sequer parou de digitar. Ele apenas inclinou a cabeça, olhou para o relógio de pulso e soltou um suspiro pesado.
— O expediente para o processamento de fianças e emissão de alvará desse setor encerrou às treze horas, garota. Agora já passou do prazo.
O saco de miojo quase escorregou dos meus dedos.
— Como assim encerrou? — Minha voz saiu mais aguda, o desespero quebrando a minha postura. — O dinheiro está comigo, está tudo certo. Eu só preciso pagar e levar ela para casa. Ela não pode passar o fim de semana trancada ali dentro!
— Não funciona assim — o policial ditou, virando o rosto na minha direção com total indiferença. — O trâmite burocrático foi enviado para o juiz de plantão. Pelo tipo de processo e pela confusão no tribunal, ela vai conseguir a liberação na segunda-feira pela via padrão, sem necessidade desse recolhimento imediato agora. O sistema já travou a guia. Volte na segunda de manhã.
— Segunda-feira? — Dei um passo para trás, sentindo o chão sumir sob os meus pés. — Não, o senhor não está entendendo... Eu preciso tirar ela agora.
— Próximo da fila — ele cortou, ignorando o meu apelo e apontando para o homem que esperava atrás de mim.
A realidade me acertou como um soco físico no meio do peito. Eu tinha ido até o subsolo, assinado um contrato de submissão, carregava uma fortuna na bolsa, e nada daquilo tinha servido para livrar a Sky daquela humilhação hoje.
Abaixo do peso do cansaço acumulado, do estresse psicológico e da falta de alimento real, o meu corpo simplesmente começou a falhar. Minhas pernas perderam totalmente a firmeza. Minha visão escureceu pelas bordas, cobrindo o teto da delegacia com uma névoa preta e densa. Tentei me segurar na borda do balcão de vidro, mas os meus dedos escorregaram pela superfície lisa.
Desabei. Meu corpo deslizou de costas contra a parede fria de concreto até que eu terminasse sentada diretamente no chão sujo da recepção, com a cabeça pendida entre os joelhos, lutando para não apagar.
Eu estava tão cansada. Corri tanto e não adiantou nada. E o pior era que eu não tinha nem coragem de encarar a Sky ali dentro. Ia dizer o que a ela? "Ah, querida irmã, eu me vendi para um desconhecido no subsolo de um clube noturno, mas não adiantou nada, você vai mofar aí até segunda".
Droga.

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