POV: SKY BITTENCOURT
As luzes dos postes de Porto Alegre passavam pela janela do carro como borrões compridos e amarelados. Tudo parecia correr em uma velocidade errada, rápida demais para o meu cérebro acompanhar, mas lenta o suficiente para me sufocar a cada segundo. É como se eu estivesse presa em um sonho ruim, uma névoa espessa onde eu assistia à minha própria queda sem conseguir mover um único músculo para me salvar.
Desde o segundo em que vi Rocco beijando aquela mulher morena, minha vida virou um subsolo sem oxigênio. Sinto que estou afundando no fundo de um oceano escuro, descendo cada vez mais profundo na direção do nada, com a pressão da água esmagando as minhas costelas.
Eu não consigo respirar.
Não consigo organizar um único pensamento limpo desde aquele dia.
O desespero acumulado me fez explodir de um jeito vergonhoso. Quando aquele maldito do Gouveia começou a despejar mentiras na minha cara no meio do fórum, o resto de sanidade que eu ainda tentava manter simplesmente evaporou.
Eu avancei para cima dele com toda a fúria que estava presa no meu peito. O resultado dessa loucura foi passar a noite inteira trancada no chão imundo de uma carceragem, me sentindo o lixo mais desprezível da terra. Uma falha humana completa.
Eu me tornei uma sucessão de erros, um acúmulo de escolhas erradas que arruinaram tudo ao meu redor.
O pior de tudo, o que me causava uma queimação de culpa insuportável no estômago, é saber que a Moon é quem paga o preço por ter uma irmã fracassada como eu. Ela é a mais nova, ela deveria estar protegida de toda essa lama, mas fui eu quem acabou arrastando o nosso sobrenome para o meio de um distrito policial.
Dentro daquela cela fria, minha cabeça quase rachou ao meio. Quando vi Rocco cruzar a porta de ferro com aquela cara lavada e aquele documento de contrato na mão, uma raiva doentia subiu pelo meu pescoço. Eu queria quebrar a cara dele com os meus próprios punhos.
Queria arrancar aquela máscara invisível de cinismo até vê-lo sangrar por ter mentido para mim durante meses. Mas, na mesma proporção em que eu sentia esse ódio brutal, uma parte traidora e nojenta do meu corpo queria arrancar as roupas dele ali mesmo, me jogar nos braços dele e fazer sexo de forma selvagem até que toda a dor sumisse da minha mente.
É uma tortura psicológica maldita você querer matar o mesmo homem que você deseja desesperadamente.
Ninguém escolhe a pessoa que faz o próprio coração perder o compasso. Se fosse uma escolha, ninguém amaria quem machuca. Ninguém entregaria a paz por um par de olhos. O amor nunca perguntou a minha opinião antes de acontecer. A única coisa que ainda depende de mim é decidir o que fazer com ele.
Passei dias tentando transformar o que eu sentia em raiva. Não consegui. Tentei chamar de obsessão. Também não era. Tentei convencer a mim mesma de que era só desejo. Mentira.
Era amor.
O tipo de amor que ninguém pede. O tipo de amor que simplesmente invade a sua vida e depois ri da sua cara quando você descobre que a pessoa escolhida pelo seu coração era exatamente aquela que jamais deveria ter sido escolhida.
Ele jogou aquelas palavras na minha cara dentro da sala, aquela declaração crua e desesperada de que se importava comigo pra caralho, de que nunca tinha levado nada a sério na vida até eu aparecer.
E o pior de tudo é que eu quero acreditar que ele não estava mentindo.
Pelo menos eu espero que não esteja.
Que os beijos sejam verdadeiros, os toques e as carícias!
Eu conheço o tom de voz dele, vi a verdade brilhando nos olhos dele quando ele me encurralou contra o concreto. Ele realmente sente esse sentimento avassalador por mim. Na mesma proporção que eu sinto por ele.
E isso é uma merda. Uma merda muito grande. Maior que a minha vida. Maior que toda a minha existência nessa terra.
Amor nunca foi desculpa para desrespeito. Sentimento nenhum transforma mentira em verdade. Nenhuma declaração apaga uma traição. Amar alguém não dá o direito de decidir a vida dessa pessoa por ela. E ser amada também não me obriga a aceitar qualquer coisa.
Rocco teve tantas chances de me contar quem era de verdade.
No dia em que eu abri o meu peito e contei os meus piores segredos e medos para ele, a vergonha de deixar outra pessoa tocar meu corpo, o peso na consciência pelo Hades, e ele ficou calado. Ele me abraçou sabendo que tinha mentido sobre o próprio nome.
Ele me deixou descobrir a verdade da pior forma possível, me fazendo sentir desvalorizada, pequena e completamente pisoteada.
A mentira dele rasgou o meu peito.
Tentei me apegar ao meu orgulho como se fosse a minha última linha de defesa naquela sala do fórum. Amassei a primeira cópia do contrato, rasguei a segunda em pedaços e gritei que preferia apodrecer na cadeia antes de virar o brinquedo de luxo dele.
E eu preferia sangrar até morrer do que me rebaixar a ele.
Mas ao mesmo tempo, enquanto eu via os pedaços de papel caírem no chão sujo, uma percepção amarga me atingiu: para que serve a porra do meu orgulho agora?
Descobri da pior forma que o orgulho é um luxo. E luxo é uma coisa que pobre não pode se dar ao direito de ter. O orgulho não paga cirurgia. Não coloca comida na mesa. Não salva empresas. Não impede um pai de morrer.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Virgem Traída Contratou um Gigolô e Ele era um Bilionário