POV/ SKY
Acordei sentindo como se um caminhão tivesse passado por cima do meu corpo. Meus músculos estavam completamente travados e as minhas costas latejavam, um reflexo dolorido da noite inteira passada no concreto da carceragem. Me levantei devagar, arrastando os pés descalços pelo piso frio até alcançar o corredor.
O cheiro forte de café passado vinha direto da cozinha.
Encontrei a Moon ali perto do balcão. Assim que me viu entrar, os olhos dela se arregalaram. Ela largou a caneca de porcelana de uma vez e correu na minha direção, me envolvendo em um abraço apertado, quase desesperado.
— Meu Deus, Sky! Como você saiu de lá? — a voz dela saiu rápida, sufocada contra o meu ombro. — Eu fui ontem à tarde no distrito policial, tentei falar com os delegados, fiz de tudo, mas não me deixaram te tirar de jeito nenhum.
— O Rocco resolveu tudo — respondi, afastando o meu corpo de leve para conseguir respirar. Meu peito deu um aperto ríspido com a menção ao nome dele. — Ele pagou os advogados e conseguiu o alvará. Está tudo bem agora. Não quero falar sobre o que aconteceu lá dentro. E você, está bem?
— Estou, estou bem — ela respondeu rápido, desviando os olhos para o chão por um segundo antes de voltar a me olhar.
Observei o rosto da minha irmã. Ela parecia cansada, com uma fisionomia abatida, mas presumi que fosse apenas o reflexo da vergonha que ela sentia por ver a irmã mais velha terminar atrás das grades. Eu me sentia o pior fracasso humano daquela família e não tinha forças para estender aquela conversa.
— Vou tomar um banho rápido — avisei, dando as costas. — Precisamos ir para o hospital sem demora.
Nos arrumamos às pressas. Assim que entramos no carro, o trânsito de Porto Alegre resolveu travar por completo em um engarrafamento infernal. O relógio do painel avançava e os minutos pareciam voar. O nervosismo fez a minha pele esfriar. Estiquei o braço direito e segurei a mão da Moon sobre o banco, sentindo a palma da mão dela suar frio também, exatamente como a minha.
Ficamos em silêncio durante todo o trajeto. Eu não perguntei nada a ela, e ela também não puxou assunto, provavelmente tentando me poupar da humilhação da noite anterior. Eu sabia o tamanho do risco que estávamos correndo; se o pagamento particular não entrasse a tempo, nenhum cirurgião especialista assumiria o caso do meu pai. Ele seria operado por qualquer médico geral de plantão do SUS, e as chances dele seriam mínimas.
Estacionamos de qualquer jeito na guia e entramos correndo pela recepção central do hospital. Cheguei arquejante perto do balcão de mármore.
— Otávio Bittencourt. Onde ele está? — perguntei para a funcionária, limpando o suor da minha testa com as costas da mão.
A recepcionista digitou algo no computador com uma calma que quase me fez gritar.
— Ele já foi encaminhado para o bloco cirúrgico, senhoras. Podem ficar tranquilas na sala de espera, ele está sendo operado neste exato momento pelo melhor especialista em lesões cerebrais do Estado.
Moon e eu nos olhamos no mesmo segundo, completamente confusas.
— Como assim especialista? Nós ainda não tínhamos feito o depósito do valor particular — argumentei, a minha voz falhando.
— Consta aqui no sistema hospitalar que a cirurgia e toda a equipe médica foram pagas integralmente na semana passada — a mulher respondeu, apontando para o monitor antes de voltar a carimbar um maço de papéis.
Minha mente congelou no mesmo instante.
O Rocco tinha assinado o novo contrato comigo ontem à noite, no meio daquela sala escura da delegacia. Como a cirurgia do meu pai já estava paga desde a semana passada?
Eu não conseguia entender absolutamente nada. A matemática dele não fechava, as ações dele não faziam sentido, e um nó confuso e pesado se formou na minha garganta.
As horas seguintes se arrastaram de forma torturante naquela sala de espera com cheiro de éter. O horário do almoço passou direto. Tomamos várias xícaras de café amargo e mastigamos alguns bolinhos secos da lanchonete para tentar aplacar a ansiedade que roía o meu estômago.
A Sakura chegou no início da tarde para nos fazer companhia e trouxe marmitas com comida de verdade. Forçamos o alimento para dentro por pura obrigação física. Eu estava destruída por dentro.

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