POV: SKY BITTENCOURT
Quatro dias tinham se passado desde a cirurgia do meu pai, e finalmente o pior pesadelo parecia ter dado uma trégua. O quadro dele tinha se estabilizado de forma surpreendente, permitindo que a equipe médica assinasse a sua transferência da UTI para um quarto normal de recuperação.
Quando entrei naquele novo espaço, o cheiro forte de antisséptico ainda agredia as minhas narinas, mas ver o meu pai deitado em uma cama comum, longe do isolamento da terapia intensiva, trouxe um alívio que fez os meus ombros cederem. Ele ainda estava conectado a alguns aparelhos, com o monitor cardíaco bipando em um ritmo constante e o cateter de oxigênio preso ao nariz, mas a coloração do seu rosto estava voltando ao normal.
Eu olhava para aquelas telas e cabos sabendo exatamente o preço invisível que tinha pago para manter cada um daqueles batimentos funcionando.
Meu corpo agora pertencia ao Rocco por dez sessões.
O peso desse segredo ficava ainda mais insuportável quando eu tentava interagir com a minha irmã.
Nos últimos dias, a Moon tinha se transformado em uma completa estranha dentro de casa, agindo de um jeito arredio e tenso que eu não conseguia decifrar. Ela andava pela residência com passos excessivamente cautelosos, assustada e um pouco distante.
Sempre que eu tentava puxar assunto ou perguntar como tinha sido o seu dia, ela desviava os olhos rapidamente, dava respostas curtas e inventava qualquer desculpa para se trancar no quarto.
Eu não tinha coragem de pressioná-la ou de exigir explicações, porque a minha própria mente estava soterrada sob a culpa de ter passado uma noite inteira na carceragem. Presumi que o comportamento distante da Moon fosse apenas o reflexo da vergonha e do trauma de ver a irmã mais velha terminar atrás das grades como uma criminosa comum.
No entanto, o mistério ficou ainda mais estranho na manhã anterior, quando entrei na sala e flagrei a Moon guardando as pressas um objeto na bolsa de lona dela. Eu vi perfeitamente o brilho metálico de um iPhone de última geração, um modelo caríssimo que nenhuma de nós duas teria condições de comprar nem se juntássemos todas as nossas economias dos últimos meses.
O mais bizarro era que ela já carregava o aparelho antigo dela no bolso, o que significava que agora a minha irmã mais nova estava andando por aí com dois celulares diferentes. Fiquei paralisada na porta da cozinha, engolindo as perguntas que subiram pela minha garganta.
De onde a Moon tinha tirado dinheiro para comprar um celular daquele nível no meio da maior crise financeira da nossa história? O pensamento de que ela pudesse estar se envolvendo em algo perigoso cruzou a minha mente, mas a hipocrisia de cobrar verdades dela quando eu mesma tinha assinado um pacto com o demônio me fez recuar.
Eu estava sendo uma péssima irmã mais velha, omissa e covarde, fingindo que não via as frestas que estavam dividindo a nossa convivência apenas para não ter que expor as minhas próprias feridas.
A necessidade de me manter ocupada para não enlouquecer com tantas dúvidas me forçou a sair de casa no final daquela tarde. Chamei um táxi e fui para empresa.
Eu precisava recolher os meus croquis, os blocos de notas e os esboços originais que tinham ficado espalhados na minha mesa de design desde o dia da minha prisão. Desde a nossa conversa ríspida e carregada de mágoa na calçada do hospital, Rocco e eu não tínhamos trocado uma única palavra. Nenhuma ligação ríspida, nenhuma mensagem de aviso no visor.
Ele tinha deixado claro que entraria em contato apenas para estipular a primeira data do nosso acordo e, depois disso, sumiu completamente do mapa, como se a sua presença física nunca tivesse cruzado o meu caminho.
Entrei na sala de projetos de interiores em total silêncio, deixando que a iluminação fraca dos corredores guiasse os meus passos entre as fileiras de mesas e pranchetas vazias. O ambiente deserto parecia amplificar o som dos meus próprios sapatos contra o piso vinílico.
Caminhei até o meu posto de trabalho e comecei a juntar as folhas de papel texturizado, organizando os desenhos de moda e as paletas de cores dentro da minha pasta de couro preta.
Cada traço daqueles croquis me lembrava do futuro profissional que eu estava tentando construir antes de o meu mundo virar um completo borrão de processos judiciais e cobranças de dívidas.
— Sky?
O som da voz vinda de trás me fez girar o corpo em um sobressalto rápido, apertando a pasta contra o meu peito. Victor estava parado a poucos metros de distância, perto da divisória de vidro fosco que separava o corredor principal. O semblante dele estava visivelmente abatido, com olheiras escuras sob os olhos e uma postura cansada que eu nunca tinha visto nele durante todos os anos em que trabalhamos juntos.
— Como está o seu pai? — ele perguntou, dando um passo cauteloso para dentro da sala, mantendo as mãos abaixadas como se quisesse demonstrar que não representava nenhuma ameaça.

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