POV / ROCCO
Cheguei em casa com o gosto amargo da insatisfação na boca. A sessão no Ambrósia, que deveria ter sido o meu expurgo, serviu apenas para me mostrar que eu estava perdendo o controle sobre o meu próprio território: a minha mente. O perfume daquela ruiva maldita parecia impregnado nas paredes do meu loft, impregnando os móveis e o ar, como se ela ainda estivesse ali, zombando da minha necessidade patológica de ordem. Aquela presença fantasmagórica era um insulto à minha lógica de engenheiro.
Joguei as chaves sobre o aparador de mármore e o silêncio sepulcral do apartamento foi interrompido pelo brilho intermitente e irritante da luz vermelha na secretária eletrônica. Oito mensagens. O meu avô era um homem de tradições inabaláveis e uma teimosia proporcional à sua fortuna; ele desprezava e app nos celulares que foram feitos para facilitar a comunicação, ele ignorava solenemente o meu celular. Para o patriarca dos Blackwood, assuntos de real importância eram tratados por telefone fixo.
Apertei o play enquanto tirava a camisa, sentindo o peso do dia nos ombros. A voz dele, rouca e autoritária, preencheu a sala. As oito mensagens eram variações do mesmo ultimato: ele queria saber como andava a transição aqui em Porto Alegre. Meu tio Lorenzo estava perdendo a paciência no cargo de interino na Blackwood & Co. e precisava voltar para a Inglaterra para cuidar dos seus próprios negócios — a rede de postos e a manufatura da família lá fora. Eu tinha exatamente um mês para bater o martelo para os finalistas do concurso do resort e assumir o meu posto definitivo como CEO.
A paciência deles estava acabando, igual à minha com toda aquela encheção de saco, mas a saúde frágil do velho era o freio moral que me impedia de simplesmente mandar todos para o inferno. Eu não podia fazer isso; precisava assumir a responsabilidade.
— Deixe para amanhã... — murmurei para o vazio, sentindo a têmpora latejar. Eu não ligaria para Londres às quatro da manhã para discutir prazos.
O domingo passou lento, arrastado. Fiquei mofando em casa, isolado do mundo, analisando alguns projetos e tentando organizar o caos. Na segunda-feira, eu já estava no meu escritório na sede da empresa, refletindo sobre o evento em Curitiba. Como arquiteto e engenheiro, eu precisava estar no Simpósio de Arquitetura Orgânica; eu tinha sede de saber o que havia de mais moderno no mundo, de confrontar as mentes famosas que estariam lá discutindo urbanismo e engenharia. Era uma necessidade profissional, um vício por atualização técnica.
A viagem estava marcada para o próximo final de semana, o que me dava cinco dias para colocar a empresa em ordem, aprovar o orçamento da nova obra ridícula do prefeito e escolher os 10 semifinalistas do concurso Black Horizon Resort. Eu estava sentado, revisando os portfólios das empresas que concorriam ao concurso, quando o Nathan entrou sem bater, jogando-se na poltrona à minha frente.
Nathan entrou na sala com a mesma sutileza de um trator, jogando-se na poltrona de couro e girando uma caneta entre os dedos com uma agilidade irritante. Ele me observou por cima do monitor por alguns segundos, coçando a garganta antes de soltar a voz:
— Então é real oficial? O vovô Heitor deu o ultimato e você vai finalmente assumir a coroa?
Eu nem me dei ao trabalho de desviar os olhos da planta baixa que analisava, mas senti meus ombros tensos protestarem. Minhas costas reclamavam das horas sentado ali; eu tinha passado o domingo trancado no escritório revisando os anteprojetos do concurso. Algumas empresas são mais organizadas e enviaram o material bem antes do prazo de catorze dias, e eu precisava adiantar o serviço antes que a semana me engolisse.
— Em um mês — respondi, soltando um suspiro pesado e massageando a nuca. — O tio Lorenzo já fez mais do que o dever dele. Cuidou da Blackwood como se fosse o próprio filho, mesmo depois de tudo o que passou com o meu primo. Ele merece o descanso, merece focar nos postos e na manufatura lá em Londres.
— E o mundo que se prepare, porque ninguém vai aguentar o seu ego agora que você é o CEO de fato. Deus me livre — Nathan debochou, revirando os olhos.
Dei um sorriso de canto, sem humor, e cocei a base da sobrancelha enquanto sentia a exaustão bater.
— O Christian já está segurando as pontas em Londres, mas assim que o Lorenzo se estabilizar por lá, o Christian vem para o Brasil me ajudar na diretoria... e ele ajuda a segurar o meu ego.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Virgem Traída Contratou um Gigolô e Ele era um Bilionário