( Um cao. maior para vocês.)
POV / ROCCO
Eu sabia que isso era só uma desculpa, porque o Nathan é quem gosta de arte livre. Para mim, arte sem estrutura, sem métrica e sem controle é apenas ruído. Eu, por outro lado, aprecio o cálculo. Tudo tem que ter um limite, uma base sólida. Esse negócio de "expressão sem amarras" é o oposto de tudo o que eu acredito.
A semana passou em um borrão de plantas técnicas, reuniões orçamentárias e café frio. A seleção para o Black Horizon era um trabalho de formiga; dos duzentos e vinte projetos iniciais, restaram vinte que realmente tinham algum potencial. Desses vinte, eu já selecionei seis que são intocáveis. Os outros quatro semifinalistas eu decidiria com calma, mas a verdade é que o nível técnico estava caindo drasticamente conforme eu avançava nas pastas.
Para não explodir e mandar algum estagiário para o hospital, fui ao Ambrósia duas vezes em cinco dias. Eu precisava descarregar a voltagem que parecia queimar meus nervos. Na quarta-feira, tive uma sessão com a Eleonora. Foi tão intensa, tão visceral, que pela primeira vez em anos ela usou a palavra de segurança. O som de "Red" ecoando no quarto me trouxe de volta à realidade como um balde de água gelada. Eu estava pegando pesado demais. Estava descontando nela frustrações que nem eram dela.
A ruiva maldita tinha sumido da minha mente por algumas horas, soterrada por pilhas de cálculos de terraplanagem, até o café da manhã de quinta-feira. O buffet do hotel serviu pão com frutas e morangos frescos. O cheiro do morango me atingiu como um soco no estômago, trazendo de volta o balcão do bar, o neon rosa e o gosto da boca dela. Senti-me um idiota, um moleque de quinze anos por deixar um pedaço de fruta desestabilizar meu foco.
Convencer o Ravi a viajar foi outra batalha épica. Ele não queria ir, alegando que Curitiba era um "depósito de velhos arquitetos", mas usei a única moeda de troca que ele aceita: silêncio. Prometi que, se ele fosse, eu não perguntaria sobre as notas dele por duas semanas.
Agora, aqui estamos nós, no lounge da classe executiva, esperando o embarque. Observar o terminal lá embaixo é um dos meus passatempos favoritos. É divertido ver como os outros humanos vivem; essa pressa desesperada para chegar a lugares onde provavelmente não são desejados, carregando malas cheias de coisas de que não precisam. Eu sou arrogante o suficiente para admitir que a vista aqui de cima, com uma taça de cristal na mão, é muito mais nítida.
Nathan está ao meu lado, revisando algo no tablet, enquanto o Ravi está afundado na poltrona ao lado da janela, com os fones de ouvido no volume máximo. Eu o observo de soslaio. Ele é a minha imagem e semelhança, mas com as cores trocadas. Enquanto meus olhos são verdes, os dele têm aquele tom de castanho que lembra folhas secas no outono. O cabelo preto cai sobre a testa, escondendo a cicatriz fina que o acidente deixou como lembrança.
Ravi nunca usa manga curta. Mesmo com o calor abafado que faz hoje, ele veste um moletom de algodão fino e escuro. Sei que é para esconder a cicatriz maior no braço, a marca de onde o metal o prendeu contra o banco do carro há dez anos. Eu sei lidar com problemas de solo, com estruturas de aço e concreto armado, mas quando olho para o meu irmão, sinto que estou tentando desarmar uma bomba sem ter o manual de instruções.
O Ravi está no segundo ano do ensino médio e, por pressão do tio Lorenzo, começou um estágio na contabilidade da Blackwood. Para minha surpresa, ele não reclamou tanto quanto eu esperava. Parece que os números e a lógica fria dos impostos dão a ele o tipo de distração que eu busco no Ambrósia. É o único ponto de equilíbrio em uma vida que ele insiste em tentar quebrar com baseados e brigas de escola.
— O vôo para Curitiba foi anunciado, CEO — Nathan disse, fechando o tablet com um estalo e me tirando dos pensamentos. — Pronto para o Simpósio?
— Pronto para terminar o que comecei — respondi, levantando-me e ajustando o paletó.
Olhei para o Ravi e apontei para o portão de embarque. Ele nem se mexeu até que eu chutei levemente o pé da poltrona dele. Ele me encarou com aquele olhar de folha seca, desafiador e vazio ao mesmo tempo, e se levantou sem dizer uma palavra.
Curitiba nos esperava. O Simpósio, os projetos semifinalistas e o maldito Beach Club
***
O Simpósio de Arquitetura Orgânica foi um espetáculo técnico, o tipo de evento que quase me fazia esquecer a burocracia da Blackwood & Co. Projetos magníficos, conceitos que desafiavam a gravidade e uma mescla perfeita entre concreto e natureza. Uma pena que só conseguimos chegar para o último dia da exposição, mas foi o suficiente para eu recarregar minha sede de inovação.
Almoçamos por ali mesmo, em um restaurante com vista para o mar, tentando manter uma normalidade que raramente existia entre nós. Passei o dia inteiro com o Ravi, tentando ser o "tutor" que o Lorenzo esperava que eu fosse.
No domingo, eu perdi por 2 a 1 na discussão para ir ao Beach Club em Pontal do Paraná. Depois de passar o dia fazendo quase nada, chamei o meu irmão para caminharmos pela areia na beira do mar em frente ao clube, onde o Nathan já nos esperava. Eu tentava puxar assunto, mas parecia que eu falava grego e ele respondia em código Morse.
— E então, Ravi? Já pensou no que vai fazer? Faculdade, Enem... você leva jeito para a Engenharia, os números não mentem para você na contabilidade — tentei soar casual, mas minha voz saiu com aquele tom autoritário de quem está dando ordens a um estagiário.
Ravi chutou uma concha, os olhos de folha seca fixos no horizonte.
— Não sei, Rocco. Talvez eu só queira um tempo sem ninguém me dizendo o que é "estruturalmente viável".
— Você precisa ter uma base, garoto. A vida não é um desenho livre.
— Você prometeu que não falaria da escola — ele rebateu, sem me olhar.
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