POV: MOON BITTENCOURT
A luz fraca da manhã cortava a fresta da cortina, clareando o teto do meu quarto em linhas cinzentas. Tentei me mexer, mas um puxão ardido e latente no topo das minhas coxas me fez soltar um gemido baixo. Minha pele estava quente, completamente hipersensível; o tecido leve do baby doll roçava contra os meus mamilos ainda castigados pela sessão da noite anterior. Virei o corpo devagar, sentindo cada músculo protestar, e passei a mão pelo colchão.
Ele tinha ido embora. Mas o lençol sob o meu corpo era macio, impecavelmente limpo e exalava um cheiro suave de lavanda. Ele realmente tinha me pego no colo com o maior cuidado, me limpado com a toalha e trocado a cama inteira enquanto eu apenas o observava, indefesa.
Fiquei encarando o teto, estática. O zumbido agudo daquela máquina de choque ainda parecia ecoar dentro dos meus ouvidos, fazendo minha mente vibrar. Ele tinha dito que me amava. As palavras dele continuavam martelando na minha cabeça, parecendo uma loucura completa, um quebra-cabeça que eu não conseguia montar.
Como alguém ama outra pessoa?
Não estou falando de desejo.
Nem de atração.
Estou falando daquele amor que faz alguém cuidar quando ninguém está olhando.
Que faz uma pessoa permanecer mesmo quando não existe vantagem nenhuma em ficar.
Porque foi isso que me deixou perdida.
Eu sabia reconhecer interesse.
Gratidão.
Conveniência.
Mas amor...
Amor era uma língua que eu nunca tinha aprendido a falar.
Talvez seja por isso que eu nunca tenha entendido o amor.
A vida inteira as pessoas partiram quando eu deixei de ser importante para elas.
Então meu coração aprendeu uma regra simples:
Ninguém fica.
Ninguém ama de graça.
Ninguém escolhe você quando já não existe mais nada para ganhar.
O que exatamente ele enxergou em mim? Eu não tenho dinheiro. Não tenho influência. Não tenho poder. Não sou extraordinária. Não consigo nem salvar a minha própria família.
Então... O que alguém poderia amar em mim?
Aquelas três palavras ditas por um homem escondido atrás de uma máscara me assustavam tanto. Não porque eu acreditasse nelas. Até porque eu mesma não me amava na maior parte dos dias. Mas porque uma parte muito pequena de mi... Queria desesperadamente acreditar.
Ele disse que queria me proteger.
Esse pensamento me trouxe um meio sorriso involuntário aos lábios.
Por mais absurdo e doentio que parecesse, o sentimento de segurança que ficou impregnado naquele quarto era real.
A vida inteira me ensinaram a tomar cuidado com monstros.
O problema é que os monstros sempre foram honestos. Eles nunca esconderam os dentes.
Quem realmente me destruiu foram as pessoas que sorriam.
Gente como o Gouveia, que tinha aquela postura mansa, uma conversa mansa e acolhedora, parecendo um ursinho inofensivo de tão bom que tentava se mostrar para o mundo.
E aquele mesmo homem, por trás da fachada de santo, tinha passado a perna na nossa família, roubado até o último centavo do meu pai e nos largado na miséria absoluta, sem dinheiro sequer para pagar um tratamento decente no hospital. Os homens supostamente bonzinhos nos destruíram pelas costas de forma implacável.
Lembrei também da minha melhor amiga da infância, no quinto ano. Ela dizia que me amava. Tinha uma cachorra e fez questão de batizá-la com o meu nome de tanto que éramos grudadas.
Fomos irmãs de alma até o dia do acidente do meu pai.
Quando a pobreza bateu na nossa porta, a mãe dela a proibiu de andar comigo, e a própria garota me olhou nos olhos para dizer que não era amiga de gentalha.
Naquele dia eu aprendi uma lição cruel.

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